Público, 23 de Maio 2008
Nos últimos anos, Portugal tem-se agarrado à cauda da União Europeia num esforço para não ficar (ainda) mais para trás. Se há uns anos tentávamos perceber as razões do milagre irlandês, hoje já nem se noticia quando Portugal é ultrapassado pelos países ex-comunistas de leste, como a República Checa, a Estónia, a Eslováquia, ou qualquer outro. Por que andamos neste passo tão lento? Encontro três motivos principais. Em primeiro lugar, fazemos parte da periferia política e geográfica europeia. Em segundo, estes países mais do que ex-comunistas são anticomunistas e libertaram-se das amarras de políticas estatais caducas. Basta ver como têm sistemas fiscais muito mais simples e leves do que o nosso. Finalmente, se é verdade que estes países saíram de ditaduras mais violentas do que a nossa, também é verdade que, ao contrário da nossa, eram ditaduras que investiam fortemente na educação.
Há imensos estudos que comprovam que a educação é um excelente mecanismo de promoção social e económica. E isto é verdade quer ao nível dos indivíduos quer ao nível dos países. Mas como se explica então que Portugal, depois de tanto investimento na educação, continue a ter um comportamento económico tão medíocre? Na verdade, não basta investir no ensino. É necessário investir na qualidade do ensino. Não chega massificar, é necessário qualificar. Vários trabalhos confirmam esta ideia. Por exemplo, Hanushek e Kimko, num trabalho publicado na American Economic Review, concluem que se não se investir na qualidade da educação o investimento na quantidade tem efeitos macroeconómicos praticamente nulos. Lendo este e outros estudos com atenção, há um outro resultado que sobressai: a importância da Matemática. A importância da literacia numérica no desenvolvimento económico foi confirmada para países tão diversos como o Gana, o Paquistão ou os Estados Unidos.
Aqui, no Departamento de Economia da Universidade do Minho, tenho colegas que têm estudado de forma sistemática o Ensino Superior em Portugal. Num dos seus últimos trabalhos, Fernando Alexandre, Carla Sá e Miguel Portela analisam a relação entre a empregabilidade dos cursos superiores e as suas condições de acesso. Têm chegado a resultados muito interessantes. Alguns deles confirmam a nossa intuição. Por exemplo, indicam que o investimento maciço que Portugal tem vindo a fazer na educação traduz-se num acréscimo muito significativo de jovens a frequentar o ensino superior (só nos anos 90 o número duplicou). Concluem também que os alunos com melhores notas são os que têm mais facilidade em encontrar emprego. Mas há pistas que indiciam que algo não corre bem: os alunos fogem dos cursos que exigem Matemática e, para cúmulo, as universidades reagiram a esta fuga reduzindo drasticamente o número de licenciaturas que exigem prova específica daquela disciplina. A redução foi de 60%. Não seria trágica se os meus colegas não tivessem chegado a outra conclusão importantíssima: os cursos que dispensam a prova específica de Matemática são os que têm piores taxas de empregabilidade.
Estes resultados evidenciam os perigos do facilitismo. Não faz sentido que miúdos de 15 anos, quando terminam o nono ano, possam fugir à Matemática seguindo o ramo de Humanidades. A Matemática, tal como o Português, devia ser obrigatória até ao décimo segundo ano e igual em todos os ramos. No fim, em vez de nos admirarmos com a quantidade de licenciados desempregados, será útil lembrar aos nossos jovens que fugir da Matemática pode ser um excelente caminho para o desemprego.

“A Matemática, tal como o Português, devia ser obrigatória até ao décimo segundo ano e igual em todos os ramos.”
Certo, de acordo. Compreendo, até certo ponto, o pragmatismo, mas a tua perspectiva parece-me um pouco simplista, porque demasiado “one-sided”. A questão é bem mais complexa e, para ser devidamente formulada e compreendida, talvez devesse ter em conta outras realidades mais vastas. Será que a questão não se prenderá, em última instância, com a crescente inadequação da tradicional divisão - e consequente organização dos saberes/disciplinas/cursos - entre Ciências e Humanidades? A origem do tal “facilitismo” não residirá justamente aí, na sistemática recusa da auto-reflexividade, na incapacidade que grande parte dos professores e académicos demonstram em questionar os confortáveis limites das suas disciplinazinhas e especialidades e em pensar(em-se) fora desses limites? (atitudes estas que são transmitidas aos alunos, claro). Será que a crescente complexidade da sociedade contemporânea se coaduna com estas divisões e recusas? O mal-estar corrente nas escolas e nas universidades não terá algo a ver com isto?…
Comment by DK — May 23, 2008 @ 7:34 pm
“Será que a crescente complexidade da sociedade contemporânea se coaduna com estas divisões e recusas?”
em relação ao ensino secundário estou totalmente de acordo. Não me parece que haja grandes motivos para que, numa altur em que os alunos têm aos 15 anos de idade, o ensino secundário se desdobre em vários ramos.
Quanto ao ensino universitário, tendo a concordar contigo, mas penso que o assunto é um pouco mais complexo do que ao nível do liceu. Afinal de contas a esse nível já se justifica algum ensino especializado. Mas, como te disse, tendo a concordar contigo.
Comment by LA-C — May 23, 2008 @ 11:39 pm
“Quanto ao ensino universitário, tendo a concordar contigo, mas penso que o assunto é um pouco mais complexo do que ao nível do liceu. Afinal de contas a esse nível já se justifica algum ensino especializado.”
Mas o grande desafio que se coloca neste momento ao ensino universitário, e que determinará o seu futuro, reside precisamente aí, na complexidade do problema que apontas. Como conciliar a necessidade de manter um certo grau de especialização com a necessidade, não menos premente, de flexibilizar as formações e torná-las mais interdisciplinares (se não mesmo trans-disciplinares). Julgo que as universidades e os cursos que não conseguirem encontrar uma resposta adequada a este problema terão sérias dificuldades em sobreviver no longo prazo.
Comment by DK — May 24, 2008 @ 2:47 am
“Como conciliar a necessidade de manter um certo grau de especialização com a necessidade, não menos premente, de flexibilizar as formações e torná-las mais interdisciplinares (se não mesmo trans-disciplinares)”
Suponho que fazendo uma boa aplicação de Bolonha, i.e., existindo um bom primeiro grau de “base”, que seria tendencialmente monolítico e transversal (isto é, único e comum a diversos cursos) e um segundo grau de especialização, que seria mais específico.
Em relação ao ensino secundário, não vejo tantos problemas assim com uma “especialização” a partir do 10º ano. O problema é as disciplinas-base (Português e Matemática) não serem idênticas em todos os ramos, que deveriam ser.
Comment by Carlos Duarte — May 24, 2008 @ 9:22 am
“os cursos que dispensam a prova específica de Matemática são os que têm piores taxas de empregabilidade.”
Mas será que se Antropologia passasse a ter prova especifica de matemática a sua empregabilidade aumentaria? (nota: eu não sei se Antropologia tem prova de Matemática, e nem sei se tem muita ou pouca empregabilidade; estou-me apenas a guiar pelos estereótipos)
Comment by Miguel Madeira — May 24, 2008 @ 10:51 pm
“Mas será que se Antropologia passasse a ter prova especifica de matemática a sua empregabilidade aumentaria?”
Provavlemente sim. Os antropólogos licenciar-se-iam com mais competências e capacidades e essa versatilidade facilitar-lhes-ia a procura de emprego. (especialmente se, como imagino, a procura de antropólogos for relativamente baixa)
Comment by LA-C — May 25, 2008 @ 2:42 am
“A Matemática, tal como o Português, devia ser obrigatória até ao décimo segundo ano e igual em todos os ramos.”
Isto a mim parece-me uma posição deveras extremada.
Para já, não percebo por que motivo deva o Português ser obrigatório até ao 12º ano. Será que se aprendem nessa disciplina coisas tão fundamentais assim? Duvido.
Depois, não percebo por que motivo deva a matemática ser igual para toda a gente até ao 12º ano. Será que todos devem aprender a derivar e integrar, ou cálculo das probabilidades, ou a extrair raízes quadradas à mão, ou a saber o que é um logaritmo? Não me parece óbvio que isso sejam coisas de grande importância para muitas profissões.
Luís Lavoura
Comment by Luís Lavoura — May 25, 2008 @ 7:16 pm
Naturalmente que não é óbvio. Mas, felizmente, há pessoas que vão para além do óbvio.
Comment by LA-C — May 25, 2008 @ 7:20 pm
Caro Luís Lavoura,
O Português serve para desenvolver a capacidade interpretativa e analítica (exemplos “práticos”: saber ler e interpretar leis e documentos legais, tais como contratos), para melhorar a capacidade de expressão escrita e oral, para, em suma, dotar as pessoas de intrumentos que lhes permitam interpretar, ajuizar e emitir uma opinião ponderada e (espera-se) sensata quando confratadas com algo que não faz parte do dia a dia… como quando fazem um contrato de empréstimo para compra de algo, ou quando têm de verificar um PDM, ou quando vão a uma entrevista de emprego.
A Matemática serve para desenvolver as capacidades de raciocínio puro, de lógica, de capacidade de julgar dimensões. Sim, é importante “saber” probabilidades, ter uma ideia de um tamanho com uma “conta rápida”, saber como se chega ao cálculo de uma área, saber o que é uma progressão logaritmica ou aritmética ou geométrica. E isto aparece nos mais diversos campos. Quer melhor exemplo do que a subida das taxas de juro (um misero porcento) ter um efeito desmesurado no valor da prestação que paga?
Comment by Carlos Duarte — May 25, 2008 @ 9:44 pm
“Os antropólogos licenciar-se-iam com mais competências e capacidades e essa versatilidade facilitar-lhes-ia a procura de emprego.”
Realmente, eu conheço um licenciado em Antropologia que trabalha nos serviços de inventário de um hotel e antes era programador informático (profissões em que, realmente, a matemática é útil).
No entanto (seguindo o que diz o Luís Lavoura) não me parece que a matemática do 10-12º (ou melhor, o que entre 1988 e 91 era a matemática do 10-12º) tenha grande utilidade na busca de um emprego de recurso.
Em que empregos é necessário:
- multiplicar polinómios
- resolver sistemas de equações
- calcular limites de sucessões
- derivar funções
- logaritmos
- calculo probabilístico e combinatório
- conhecer os axiomas do corpo
- funções bijectivas e injectivas
- números complexos
- a representação em funções das parábolas e das elipses
Eu suspeito que (tirando talvez as probabilidades) esses conhecimentos só se aplicam em empregos que requerem formação especifica nessa área (ou seja, um licenciado em Filologia Romanica que não arranje emprego na sua área dificilmente vai usar o acima referido num emprego de 2ª escolha que lhe apareça)
Já agora (e em referência aos comentários do Luís Lavoura e do Carlos Duarte), no meu tempo extrair raízes quadradas à mão era matéria do 8º ano e calcular áreas do 5º ano; em compensação, aprendi a integrar no 2º ano da faculdade.
Para falar a verdade, suspeito que neste argumento “os cursos sem prova de matemática tem menos empregabilidade, logo se passarem a ter uma prova de matemática a empregabilidade aumentará” está-se um bocado a misturar correlação e causa (por outro lado, reconheço que talvez ter tido matemática no 10-12 seja útil para perceber o que isto quer dizer)
Comment by Miguel Madeira — May 25, 2008 @ 10:26 pm
Miguel Madeira, onde foste buscar o que escreveste entre aspas? Se puseste entre aspas deve ser uma citação, mas não me lembro de ter escrito tal.
Quanto ao emprego em que é necessário isso que dizes, como multiplicar polinómios, tens toda a razão. Não deve haver muitos. Por isso é que estas coisas não são óbvias. Já agora há assim muitos empregos que necessitem que nós tenhamos lido os Lusíadas, ou o Eça, ou que necessitemos da fórmula quadrática, ou que precisemos de saber quais os reis de Portugal, ou uma série de outras coisas que se aprendem nas escolas? Espero que não pretendas dizer que tais coisas são irrelevantes.
Comment by LA-C — May 25, 2008 @ 11:15 pm
De facto, não é uma citação.
Comment by Miguel Madeira — May 25, 2008 @ 11:23 pm
Miguel, obrigado pelo esclarecimento.
Já agora, quanto ao que se aprende no liceu que é directamente relevante para a nossa vida profissional. Na Alemanha, o Latim é obrigatório no liceu. O alemão nem sequer é uma língua latina, pelo que pergunto, haverá muitos empregos na Alemanha que necessitem do Latim? Será que o ensino do latim na Alemanha existe apenas porque eles são tontos?
Comment by LA-C — May 25, 2008 @ 11:30 pm
Concordo com o LA-C no que diz respeito ‘a obriogatoriedade da matematica e portugues ate’ ao fim do liceu. E’ irrelevante saber se as alineas detalhadas dos respectivos programas encontram aplicacao nos empregos ‘a’, ‘b’ ou ‘c’.
O que e’ verdadeiramente importante de atingir no fim do liceu e’ (lista nao exaustiva) : (i) uma consideracao e respeito pelas actividades intelectuais por elas proprias; (ii) desembaraco e auto-confianca na resolucao de problemas, ultrapassar dificuldades e habitos de trabalho (estes ultimos adquirem-se apenas se existir um grau minimo de dificuldade); (iii) libertar o indigena do seu estado natural de incultura e bocalidade.
Por fim, e’ importante compreender que mesmo apos a frequencia de um curso superior (que e’ mais especializado do que o liceu…), grande numero das pessoas vai ter de trabalhar em profissoes que nao estao directamente ligadas ‘a sua primeira area de ‘especialidade’.
Comment by MP-S — May 28, 2008 @ 3:01 pm
já cansa ouvir falar do ensino secundário sem conhecimento do seu funcionamente. Há já muitos anos que o portugu~es é obrigatório até ao 12º ano em todos os cursos
Comment by lena andrade — May 29, 2008 @ 12:21 pm
Cara Lena, a mim cansa-me ler comentários estúpidos de pessoas que nem ao trabalho se dão de ler o texto que comentam com um mínimo de atenção.
Comment by LA-C — May 29, 2008 @ 1:02 pm