Num comentário ao meu poste anterior, sobre a revisão das previsões do Governo para o crescimento do PIB em 2008, Rui Fonseca coloca a seguinte questão: se a revisão anunciada não trouxe novidades, quais foram as decisões económicas a ser afectadas por este anúncio? Ou seja, o Rui parece sugerir que a revisão das previsões, em si mesma, não foi muito importante. Esta posição foi partilhada por vários comentadores. Muitos referiram que o que terá sido grave foi a revisão das previsões não ter sido acompanhada de medidas que visassem alterar a situação em que a economia portuguesa se encontra há já vários anos.

No meu poste anterior sugeri que a forma como este Governo, e Governos anteriores, utilizam as previsões económicas não é adequada e tem consequências graves para a economia portuguesa. Aqui procuro explicar porque é assim.

As expectativas são uma variável fundamental para as decisões dos consumidores e das empresas. Nos anos 30, Keynes utilizou o termo ‘animal spirits‘ para classificar a influência de factores como as expectativas nas decisões económicas. Entre nós utiliza-se com frequência a palavra confiança. Por exemplo, as decisões de investimento dependem das condições presentes da procura e dos mercados do crédito, mas dependem também das expectativas em relação à evolução das rendibilidades futuras dos capitais (isto é, da confiança dos empresários).

A importância das expectativas para as decisões económicas colocou a formulação de previsões económicas no centro da actualidade. Veja-se, por exemplo, a importância que tem para a economia americana ou alemã a publicação das estatísticas mais recentes relativas à evolução da actividade económica e as projecções para a sua evolução futura, bem como a publicação de índices de confiança dos investidores e consumidores.

Em Portugal, a publicação de estatísticas daquele tipo não tem o mesmo relevo, em parte porque não existe no nosso país nenhum instituto não público (os famosos think tanks) que produza previsões sobre a situação e evolução da economia portuguesa de forma regular. Há várias explicações para aquela ausência, sendo a dificuldade de acesso aos dados relativos à economia portuguesa certamente uma delas.

Esta insuficiência de informação sobre a realidade económica portuguesa é em si mesma um problema grave da nossa economia porque resulta num conhecimento limitado da sua dinâmica. No entanto, o problema das previsões relativas à evolução da economia portuguesa tem também uma dimensão política. 

O Governo actual andou até recentemente a anunciar que a economia portuguesa ia resistir à crise internacional, e que ia voltar a crescer mais do que a média da Zona Euro (embora esta seja sempre referida como média europeia). Oiçam-se, por exemplo, as declarações de há menos de um mês, à Rádio Clube, do Ministro Manuel Pinho. O Primeiro-Ministro José Sócrates, pela mesma altura, conseguia ser ainda mais optimista em relação à resiliência da economia portuguesa.

No entanto, é importante lembrá-lo, esta dificuldade em ler a realidade da economia portuguesa é um problema antigo dos nossos governantes. Por exemplo, em 2004, pouco tempo depois de tomar posse como Primeiro-Ministro, também Pedro Santana Lopes proclamou o fim da crise. Indo um pouco mais atrás, António Guterres, quando interrogado, em Abril de 2001, sobre a possibilidade de uma crise na economia portuguesa, respondeu que um milhão de portugueses de férias no Algarve era evidência suficiente para negar aquela hipótese. Recuando a 1992, podemos recuperar a célebre teoria do oásis do então Ministro das Finanças Braga de Macedo.

O objectivo deste tipo de declarações é, dizem os seus defensores (e há muitos na sociedade portuguesa), incutir confiança na economia portuguesa, via expectativas. No entanto, o que os nossos Governos parecem esquecer é que para se poder usar as expectativas como instrumento de política económica é necessário ser credível. E quando se erra sistematicamente nas previsões perde-se toda a credibilidade e a possibilidade de utilizar as expectativas como instrumento de política económica.

Este problema da perda de credibilidade facilmente se estende a toda a acção política.