Partirei do princípio de que escrevo para leitores que estão, ou estiveram em tempos, imbuídos do devido espírito de ambição. O primeiro dever de um homem – de um jovem, a bem dizer – é ser ambicioso. A ambição é uma paixão nobre que pode legitimamente assumir várias formas; havia algo de nobre na ambição de Átila ou de Napoleão, mas a mais nobre das ambições reside em deixar atrás de si algo de perene.

     Aqui, no liso areal 
     Entre o mar e a terra, 
     Que poderei erigir ou escrever 
     Contra o cair da noite?

     Conta-me de runas a gravar,
     Que suspendam a onda na rebentação,
     Ou de baluartes a erguer
     Para tempos bem mais longos que o meu. (1)

A ambição tem sido a força motriz por detrás de quase todas as grandes obras. Em particular, praticamente todos os contributos substanciais para a felicidade humana têm sido dados por homens ambiciosos. Para pegar em dois exemplos célebres: não foram Lister e Pasteur ambiciosos? Ou, a um nível mais modesto, King Gillette e William Willett? (2) Em tempos recentes, quem mais do que eles tem contribuído para o conforto humano?

A fisiologia proporciona exemplos especialmente bons, na estrita medida em que se trata de um tipo de estudo tão obviamente «benéfico». Temos de nos precaver contra uma falácia muito comum entre os apologistas da ciência: a falácia de supor que os homens cuja obra mais beneficia a humanidade pensam nisso enquanto trabalham, que os fisiólogos, por exemplo, são dotados de almas particularmente nobres. Um fisiólogo pode até ficar satisfeito por saber que o seu trabalho beneficiará a humanidade, mas os motivos que inspiram e dão força a esse trabalho não se distinguem dos do humanista clássico ou do matemático.

Havendo, é certo, muitos motivos respeitáveis que levam os homens a fazer investigação, três há que sobrelevam todos os outros. O primeiro (sem o qual os restantes não fariam sentido) é a curiosidade intelectual, o desejo de conhecer a verdade. Em seguida, o orgulho profissional, a ânsia de satisfação com o seu próprio desempenho, a vergonha que ultrapassa o respeito próprio de qualquer artesão quando a obra final não está à altura do seu talento. E, por último, a ambição, o desejo de estabelecer uma reputação, assim como a posição, ou mesmo o poder e o dinheiro, que esta granjeia. Pode ser muito agradável sentir, uma vez concluído o trabalho, que contribuímos para a felicidade dos outros ou para aliviar o seu sofrimento, mas não será esse o principal motivo por que o realizámos. Assim, se um matemático, ou um químico, ou até um fisiólogo, me dissesse que a força inspiradora do seu trabalho fora o desejo de beneficiar a humanidade, não acreditaria nele (nem tão pouco teria melhor opinião dele se acreditasse). Os seus motivos preponderantes terão sido os que acima referi, e em relação aos quais nenhum homem precisa de se sentir envergonhado.

Notas:
(1)   Here, on the level sand, / Between the sea and land, / What shall I build or write / Against the fall of night? // Tell me of runes to grave / That hold the bursting wave, / Or bastions to design / For longer date than mine.
(2)   King Gillette (1855-1932) foi o empresário americano que inventou a lâmina de barbear descartável. William Willett (1856-1916) foi quem primeiro propôs em Inglaterra a adopção da chamada «hora de Verão» (DST – Daylight Saving Time). (N. da T.)

In G. H. Hardy, Apologia de Um Matemático, trad. Daniela Kato / rev. cient. Jorge Nuno Silva (Lisboa: SPM / Gradiva, 2007), pp. 67-69.