Gostei da entrada anterior do Fernando. E gostei porque não é sobre futebol, algo que parece ter passado despercebido a alguns dos nossos comentadores e a quase todos os comentadores do Blasfémias. A entrada também podia ser sobre a pequena inveja que muitas vezes nos menoriza. Talvez concorde com a Daniela quando se queixa da ambiguidade de se falar do melhor do mundo. Provavelmente seria mais apropriado falar em excelência. Mas não estou particularmente preocupado com a terminologia.

O que me parece mais relevante na entrada do Fernando é a forma como o nosso provincianismo nos leva a exacerbar qualidades que não temos ao mesmo tempo que menorizamos aqueles que se elevam acima da mediania.

Sempre que trago a Portugal um dos meus antigos colegas de doutoramento, são bombardeados com um provincianismo galopante. Temos os melhores vinhos do mundo (mas ninguém gosta de Vinho do Porto), as melhores azeitonas do mundo, a melhor comida do mundo, o melhor café expresso/cimbalino/bica do mundo. Uma vez vi um amigo alegar que Portugal tinha o mais extraordinário sal do mundo. Simultaneamente, há uma dificuldade imensa em reconhecer a excelência onde ela existe.

Quem nos EUA nasça num berço de pau e se torne milionário é imensamente respeitado na sociedade. É o self-made man. Em Portugal, alguém com um percurso similar, é um bronco. Até temos um termo para tal gente: pato-bravo.

Nos EUA, quem parta do nada para chegar a presidente é alguém que cumpriu o sonho americano (o tal American dream). Em Portugal é um provinciano que deve apagar as suas raízes e que é desprezado nos nossos salões de chá onde dificilmente alguém o acompanhará num bolo-rei.

Em Portugal, José Saramago, viu um dos seus livros ser censurado por um secretário de estado da cultura. O Festival de Cinema de Cannes vai abrir com um filme baseado num dos seus livros. O filme é de Fernando Meireles, realizador da “Cidade de Deus”, e conta com Julianne Moore num dos papéis principais. Em Portugal quase não é notícia.

A verdade é que tratamos mal aqueles que mais do que sonhar têm a ambição de atingir patamares de excelência. Independentemente de sermos os melhores do mundo ou não, desde há pelo menos uma década que estamos em patamares de excelência no futebol mundial. Rui Costa, Figo, Baía, Ronaldo, Simão Sabrosa, Mourinho, Manuel José, Jorge Costa, Nani, Paulo Sousa e muitos outros são, ou foram, reconhecidamente excelentes. O G-14 engloba 14 dos mais importantes clubes de futebol da Europa. Entre eles está um clube de bairro, o FC Porto, que nos últimos 20 anos ganhou três finais e duas supertaças europeias e foi por duas vezes campeão mundial. O Sporting e o Benfica não têm o mesmo destaque internacional, mas regularmente conseguem derrotar algumas das melhores equipas europeias. Quer se queira quer não, se todos os nossos sectores económicos fossem tão pujantes e competitivos como o futebol, Portugal seria um dos países mais competitivos do mundo.

Não considero o futebol particularmente importante, nem o considero um bom indicador do desenvolvimento de uma sociedade, mas parece-me que em vez de se desvalorizar os feitos que vamos conseguindo nessa área, devíamos era ter a mesma ambição em outros sectores e trabalhar para isso.