Dada a confusão que vai nos comentários ao meu último poste, "Ambição", aqui e no Blasfémias, aproveito a síntese pelo Luís de uma das ideias nele contido:
"(…) imagina que um dos teus filhos pretende ser um jogador de futebol e que até tem talento para ser um dos melhores do Mundo. Tens dúvidas de que em Portugal (seja no Porto, no Algarve, em Lisboa ou na Madeira) há um conjunto de estruturas que lhe permitirão esse sucesso? E se, o teu filho quiser ser químico, ou violinista, ou médico, ou realizador de cinema? Essas estruturas existem?"
E acrescento, porque não existem, muitos filhos nem sonham. Sabem lá eles o que é ser o melhor do mundo. E porque não sabem, depois crescem, e pensam que há muitos portugueses melhores do mundo. Sim, temos grandes escritores, cientistas, há imensos produtos portugueses de marca vendidos pelo mundo fora (a Nestlé é de Avanca, ali ao pé de Aveiro, é portuguesa, não é?), os nossos bancos são dos melhores do mundo, os nossos vinhos são os melhores do mundo (pelo menos em alguns concursos e em alguns meses), e o nosso cinema é único. Mais ninguém faz filmes como nós.

Não tenho a certeza de ter percebido este último texto do Fernando, mas julgo ler nele uma nota irónica que vai ao encontro do que eu penso sobre a questão.
Comment by DK — May 14, 2008 @ 1:29 am
Não tenho a certeza de ter percebido este último texto do Fernando, mas julgo ler nele uma nota irónica que vai ao encontro do que eu penso sobre a questão.
Parece-me que o principal problema do provincianismo português reside neste discurso do «oito ou oitenta», nesta espécie de mistura entre um complexo de superioridade e um complexo de inferioridade. Por que razão havemos sempre de ser ou os melhores do mundo ou os piores do mundo?! Por que razão havemos sempre de ser excepcionais e únicos em tudo, para o bem e para o mal?!
O mais irónico, ou melhor, paradoxal no meio disto tudo é que a falta de ambição de que o Fernando fala conduz, justamente, à mediocridade. E a mediocridade tem a ver com o cinzentismo, a indiferença. Os medíocres não procuram distinguir-se em nada, pelo menos fora das suas quintazinhas ou capoeiras rigorosamente vigiadas. Buscam sobretudo o nivelamento (por baixo, claro) e estão determinados em que os outros sejam e procedam assim - daí o predomínio da inveja, da mesquinhez e do medo nas relações sociais.
Enquanto não ultrapassarmos esta mentalidade e nos convencermos de que não somos, à partida, melhores ou piores, como país, do que os outros, dificilmente ultrapassaremos o miserabilismo e os impasses que provocam o atraso económico - e cultural, acrescento - do país.
Comment by DK — May 14, 2008 @ 1:42 am
O que eu quero dizer é que esses discursos do «melhor/pior do mundo» assentam numa percepção distorcida da realidade. São, em suma, construções imaginárias, sem qualquer correspondência com essa realidade. A ambição não tem necessariamente de se concretizar no desejo de ser o/a «melhor do mundo». Tem, sim, que ver com a confiança que cada um tem nas suas capacidades e no valor do seu esforço e trabalho, e com a convicção de que estes serão, mais tarde ou mais cedo, devidamente reconhecidos. É isto que leva as pessoas a darem o seu melhor, em todas as circunstâncias, nas suas respectivas esferas de actuação. E é isto, infelizmente, que parece faltar em tantos portugueses.
Comment by DK — May 14, 2008 @ 2:00 am
A Daniela tem razão na intenção irónica do meu poste. No entanto, embora partilhe algumas das suas ideias, o meu ponto é anterior. Para termos ambição é necessário conhecermos os limites. Este é a justificação para a introdução do conceito do “melhor do mundo”.
A maior tragédia deste país é ser um espaço que não permite a realização de um grande número dos seus habitantes (a menos que queiram jogar futebol). Estas frustações resultam a maior parte das vezes em um de dois fenómenos: na emigração ou na mania das grandezas de que fala a Daniela. Há, no entanto, casos de protugueses que conseguem escapar a ambos; isto é, que ficam cá e são grandes.
Nas áreas onde isso acontece, são casos que merecem estudo.
Comment by Falex — May 14, 2008 @ 9:18 am
E eu que tinha esperança de que a intenção irónica se referisse sobretudo ao conceito de “melhor do mundo”! É que a expressão condensa justamente, a meu ver, todo um conjunto de atitudes irrealistas, etnocêntricas, fechadas sobre si próprias e, perdoe-se-me a franqueza, infantis que caracterizam um número preocupante de portugueses. Mas “maior do mundo” em relação a quê e a quem?!
Há conceitos totalizantes que podem funcionar bem no mundo acéfalo dos campeonatos de futebol, mas, felizmente, a realidade é bem mais complexa e (por isso mesmo) interessante.
Comment by DK — May 14, 2008 @ 10:35 am
Daniela, saber o que é o melhor do mundo ou o que de melhor se faz no mundo é importante como referência; para termos uma ideia de onde podemos chegar. Por exemplo, Portugal não tem uma única universidade entre as 100 melhores da Europa. Enquanto as universidades portuguesas não perceberem o significado disto é simplesmente rídiculo falar na possibildiade de algum investigador em Portugal ganhar um Nobel.
Comment by Falex — May 14, 2008 @ 10:45 am
O tipo de mentalidade pronvinciana que é mencionada existe em qq pais, não somos unicos nem os melhores… Tambem nao sei se estamos no top 100… E para produzir “nobeles” é preciso dinheirinho, coisa em que as nossas universidades tambem nao aparecem nos tops…
ps:a nestlé é Suiça
Comment by Miguel — May 15, 2008 @ 10:04 am
“O tipo de mentalidade pronvinciana que é mencionada existe em qq pais, não somos unicos nem os melhores…”
Exacto. É mesmo isso - ainda bem que percebeu a ideia principal, Miguel. Se ler alguns dos textos que tenho escrito aqui sobre o Japão, encontrará toda uma mentalidade e toda uma série de discursos em torno do carácter excepcional e único dos japoneses que tem alguns traços comuns com o nosso provincianismo (embora com consequências bem diversas). E o mesmo se poderia dizer, por exemplo, dos ingleses, dos escoceses, e por aí a diante. A questão principal é o modo como cada nação lida e age em conformidade com essas percepções distorcidas da sua própria excepcionalidade. Como se costuma dizer, aí é que a porca torce o rabo…
Comment by DK — May 15, 2008 @ 10:47 am