Falta menos de um mês para começar o Euro-2008. A nação espera que cheguem pelo menos tão longe quanto chegaram no Euro de 2004. Cristiano Ronaldo, Nani e Carlos Queiroz ganharam mais um título inglês – nos últimos quatro anos houve sempre portugueses a festejar o título inglês. Também nas vitórias dos campeonatos espanhol e italiano têm estado quase sempre jogadores portugueses: Pepe, Deco e Figo são alguns deles. Este último foi o melhor jogador do mundo em 2001 e Cristiano Ronaldo é cada vez mais o melhor jogador do mundo. Rui Costa, outro brilhante jogador do futebol português, abandonou ontem a carreira de jogador e iniciou a carreira de dirigente. Nos últimos 25 anos, houve clubes portugueses em 8 finais europeias, tendo ganho 3. Desde 1996, a selecção nacional só falhou a fase final do mundial de 1998. Estes feitos são tão mais notáveis quanto Portugal é um pequeno país, e dos mais pobres da Europa.
Não há na sociedade portuguesa outra actividade ou sector que tenha alcançado semelhantes feitos. Nem durante a ditadura de Salazar, nem depois do 25 de Abril.
A primeira razão para este sucesso é a paixão dos portugueses pelo futebol. A segunda razão é uma gestão ambiciosa, eficiente e profissional das estruturas do futebol nacional. Os nossos jogadores ambicionam ser os melhores do mundo e trabalham para ser os melhores do mundo. Os clubes portugueses têm criado as estruturas que permitem aos nossos jovens ter e concretizar aquelas ambições. Por exemplo, a estrutura das famosas escolinhas permite aos clubes identificarem jovens talentos e dar-lhes os meios para se tornarem competitivos em termos mundiais.
Em que outros sectores isso acontece em Portugal? Quantas empresas ou instituições portuguesas ambicionam ser as melhores do mundo e garantem aos seus colaboradores as condições para terem esta ambição?
O sucesso do futebol português nos últimos 25 anos é indissociável do sucesso do Futebol Clube do Porto. Tudo o que disse antes, em relação ao sucesso e ao exemplo de excelência do futebol português, se aplica por maioria de razão ao Futebol Clube do Porto. O que o Futebol Clube do Porto conseguiu alcançar nos últimos 25 anos é absolutamente notável. Um clube periférico, de um país periférico, duma cidade ainda hoje periférica em termos económicos e políticos, tornou-se num clube de referência na Europa e no mundo.
Os resultados que o Futebol Clube do Porto alcançou só são possíveis com verdadeira ambição e com uma extraordinária capacidade de gestão. Acho notável que alguém no Porto, no início dos anos 80, tivesse definido o objectivo de ser não só o melhor de Portugal, mas também de estar entre os melhores do mundo. Ainda mais notável é ter conseguido concretizar aquele objectivo.
Infelizmente, o exemplo do Futebol Clube do Porto não foi copiado noutros sectores. Eu gostava, por exemplo, de ver os nossos governantes garantirem nas nossas escolas estruturas que permitissem aos nossos alunos ambicionarem estar entre os melhores do mundo. Em particular, gostava que os autarcas do Norte do país definissem objectivos para as escolas dos seus concelhos em termos de posições nos rankings das escolas nacionais. Gostava ainda de ver o Governo português definir objectivos e estratégias para colocar os estudantes portugueses entre os melhores nos exames internacionais PISA.
A falta de ambição é para mim a principal causa do atraso económico português. Não sei como é que se torna um povo mais ambicioso, mas sei que não é desvalorizando os feitos daqueles que deveriam merecer a nossa admiração. Talvez neste aspecto estejamos também entre os melhores do mundo.

Pois,
No Brasil o futebol tambem constitui, conjuntamente com mulheres bonitas e paisagens naturais, o maior sucesso jamais almejado. O mesmo sucede com muitos dos paises sub-desenvolvidos e pobres onde se joga o desporto-rei. Do mesmo modo, nos EUA, a pobre comunidade negra consola-se por liderar (apenas) no desporto. Portugal, o Porto dos anos 80 e o resto limita-se a seguir a tendencia geral: reparou que, na Europa, excluindo o recente sucesso do RU, desenvolvimento se relaciona negativamente com sucesso futeboleiro?
Pinto da Costa, Valentim Loureiro e outros foram ambiciosos: comprando arbitragens, roubando aqui, enganando ali, fugindo aos impostos… Espero que as nossas escolas, autarquias,etc tenham melhores exemplos para seguir que esta corja de bandalhos.
Comment by Banana — May 12, 2008 @ 2:47 pm
Tens razão quanto à ambição como razão para o sucesso. Mas parece-me que há outros dois elementos ainda mais importantes. O primeiro é a abertura do sector ao exterior: há décadas que Portugal recebe treinadores e jogadores estrangeiros, muito antes da adesão do país à EFTA, que marca o início da abertura da economia portuguesa ao exterior. Creio que o futebol é o único sector onde ninguém questiona as vantagens da entrada de estrangeiros. Compare-se com o que acontece noutros sectores, onde a resistência à concorrência externa continua em força.
O segundo factor é a elevada concorrência, não só entre clubes ao nível dos resultados (concorrência ao nível do produto), mas também entre clubes ao nível dos factores de produção (técnicos, jogadores,…).
De resto, parece-me que a análise da competitividade do sector “futebol” futebol se encaixa muito no model “diamante” de Porter (ainda há pouco, numa aula, usei o exemplo do futebol para ilustrar o modelo de Porter, e parece-me que funcionou bem).
Comment by João Cerejeira — May 12, 2008 @ 3:07 pm
O post é um pouquinho falacioso. Põe no mesmo patamar actividades relacionadas com o lazer e actividades que exigem estudo e esforço. O futebol é actividade de lazer preferida dos portugueses. Futebol é sinónimo de prazer para quem o pratica e para quem assiste ao jogo. Talvez seja mais correcto concluir que os portugueses estão mais vocacionados para a borga do que para trabalhar com profissionalismo.
Comment by Seven Dub — May 12, 2008 @ 5:22 pm
A ambição só existe porque há um mercado livre e competição feroz. Pode-se despedir e contratar livremente, aliás é o povo que exige o despedimento do treinador/jogador/dirigente quandos os resultados são maus ou abaixo das expectativas. Onde isso existe na actual economia?
Comment by lucklucky — May 12, 2008 @ 11:21 pm
Lucky Luck, o mesmo povo que exige o despedimento é o mesmo povo que tolera resultados negativos nas ligas dos mais fracos. Veja na RTP. Porque esses treinadores e jogadores e dirigentes que se exige que sejam despedidos, ganham milhões, não tostões.
Comment by Rataplan — May 13, 2008 @ 2:23 am
Não sabe como é que se torna um povo ambicioso ? Ora, esperimente pagar o mesmo que pagam a esse jogadores e não os ordenados miseráveis que se vai vendo por aí. Que pergunta mais simples de se responder.
Imagine que lhe diziam ” Se te esforçares muito e fores muito ambicioso, vais ganhar duas vezes o ordenado minimo, se trabalhares o dobro . Se pouco fizeres ganhas o ordenado minimo e tens que ter dois empregos para ter dois ordenados minimos.”
Quando é que passam a dizer coisas com sentido é que eu gostava de saber. Por exemplo, quando é que os empresários portugueses, já que compara, passam a ganhar bem dar excelentes condições de trababalho, serem ambiciosos sem ser pagando mal a quem trabalha para eles, etc etc etc. E já agora, terem um bocado de instrução, que metade só sabe fazer contas de mais e menos. Os TOC são reis e senhores, sabem lá o que andam a fazer.
Comment by Pedro — May 13, 2008 @ 2:28 am
Que grande post! Magnifico.
Comment by Vasco Gabriel — May 13, 2008 @ 9:14 am
Bulshit.
Comment by tonibler — May 13, 2008 @ 10:39 am
Parabéns ao autor do comentário nº1 pela sua lucidez
Comment by O.Pina — May 13, 2008 @ 11:38 am
“A segunda razão é uma gestão ambiciosa, eficiente e profissional das estruturas do futebol nacional. Os nossos jogadores ambicionam ser os melhores do mundo e trabalham para ser os melhores do mundo. Os clubes portugueses têm criado as estruturas que permitem aos nossos jovens ter e concretizar aquelas ambições.”
Devemos viver em países diferentes. A esmagadora maioria dos clubes de futebol tem salários em atraso. As dívidas acumulam-se e o Boavista, por exemplo, arrisca-se a implodir como aconteceu há alguns anos ao Salgueiros, um dos clubes emblemáticos do Porto.
O sucesso do futebol português circunscreve-se aos três grandes, em especial o Futebol Clube do Porto.
Não sou economista mas esta situação não pode sequer ser considerada um cluster.
Comment by PJ — May 13, 2008 @ 6:25 pm
PJ, em todos os sectores económicos há, constantemente, empresas a ir à falência. Qualquer comparação a esse nível só favorece o futebol.
Parece-me é que a questão é outra, diz-me um sector de actividade relevante onde empresas portuguesas apareçam, sistematicamente, entre as melhores 15 da Europa ou do Mundo.
Agora, objectivamente, imagina que um dos teus filhos pretende ser um jogador de futebol e que até tem talento para ser um dos melhores do Mundo. Tens dúvidas de que em Portugal (seja no Porto, no Algarve, em Lisboa ou na Madeira) há um conjunto de estruturas que lhe permitirão esse sucesso? E se, o teu filho quiser ser químico, ou violinista, ou médico, ou realizador de cinema? Essas estruturas existem?
Comment by LA-C — May 13, 2008 @ 6:41 pm