José Pacheco Pereira, Público 3 de Maio
(…) Eu, que sou portuense, sabia que poucas coisas se abatem mais rapidamente do que as grandes fábricas. No Porto, tudo o que era amplo espaço urbanizável nas décadas de setenta e oitenta estava no lugar vazio de uma grande fábrica, quase sempre têxtil, e as novas urbanizações para a classe média alta tinham o nome das fábricas como a William Graham na Avenida da Boavista. Desaparecidas as fábricas têxteis de Salgueiros, da Torrinha, das Sedas, para além das fábricas de fósforos e de cerveja, a cidade substituía as imensas construções fabris por apartamentos. Num artigo do Expresso, um dos primeiros escritos em Portugal sobre a salvaguarda do património industrial, ainda tentei que se preservasse alguma coisa da Fábrica de Salgueiros, um exemplar típico da arquitectura industrial então em ruínas, mas o efeito do artigo foi que o que sobrava foi deitado abaixo logo a seguir, não fosse haver alguém que se lembrasse de prestar a atenção à nova (por cá) concepção de arqueologia industrial e dificultasse o caminho aos bulldozers.
Esta semana, com o despedimento de centenas de trabalhadores da Yasaki Saltano de Gaia, recordei-me de outra grande fábrica desaparecida, a Clark"s de Castelo de Paiva, uma daquelas onde estive "à saída da fábrica". Por muito boa vontade que se tivesse em fazer política, distribuir uns papéis, falar com pessoas, na "saída das fábricas", a Clark"s era um sítio péssimo para o fazer. A saída era espectacular, mas muito, muito, rápida. Nos breves momentos que durava, um mar de raparigas, mulheres jovens e na meia-idade, o maior número de gaspeadeiras que alguma vez vi na vida, saía como um mola das portas interiores e corria, literalmente corria, para os portões e desaparecia pelas ruas e caminhos, em motocicletas, algumas em carros. Dez minutos depois, não havia ninguém e os papéis dados à pressa no meio daquelas almas fugidias desapareciam com elas tão depressa como a noite se punha.
A corrida tinha uma razão de ser, iam para casa o mais cedo possível cuidar dos filhos e do marido, cuidar da casa, não tinham tempo a perder com políticas. Como na Yasaki Saltano, a maioria dos trabalhadores são trabalhadoras, mulheres, muitas bastante jovens, muitas com poucas qualificações e que abandonaram a escola antes do tempo, a face visível do "insucesso" e do "abandono escolar", para irem trabalhar e constituir família numa idade em que os mais abastados ainda se arrastam pelo 12.º ano ou pelos primeiros anos da universidade e vivem em casa dos pais. A atracção do emprego e da família, da "sua" família, marido e filhos, não é apenas motivada pela necessidade económica, mas sim pela procura de autonomia, de uma vida própria na teia demasiado densa das famílias ainda próximas da ruralidade. Castelo de Paiva não é propriamente o centro do mundo urbano e Gaia ainda tem muitas aldeias.
O desemprego é devastador para todos, mas é-o mais para estas mulheres jovens e de meia-idade. Não é apenas a sua condição económica, a sua condição de vida que é afectada, é também a sua autonomia como mulheres, a sua capacidade de terem no salário e no emprego uma vida e uma dignidade próprias como mulheres, num mundo em que esta afirmação ainda é crucial. Recebida a notificação do desemprego, passado o período da agitação, as notícias e contranotícias de que pode haver um plano de integração na fábrica ao lado, ou a cinquenta quilómetros dali, que pode haver um supermercado que as aceite prioritariamente, que a câmara vai cuidar delas, que os sindicatos vão obter uma melhor indemnização, etc., etc., chega uma altura em que acabou. Acabou mesmo, está desempregada.
Nesse momento, em que o dinheiro que se levava para casa começa a faltar, a mulher começa a fazer contas e a cortar nas despesas. E não corta no pão, no infantário, na luz, na casa, no telemóvel - há-de vir a cortar - corta nas suas despesas, nas despesas consigo. Vai menos vezes ao cabeleireiro, arranja-se menos, compra menos roupa, tudo coisas que parecem fúteis para quem tem tudo, mas que representam um caminho para uma menor auto-estima, um desleixo que pode vir a crescer com os anos, se passar definitivamente de operária a dona de casa. É um caminho invisível, um passo atrás em que ninguém repara a não ser as próprias.
Elas sabem o que é não ter emprego, ou ter que mudar para outro emprego menos qualificado, mais solitário, mais dependente, socialmente menos reconhecido. Elas sabem que podem fazer menos coisas sozinhas, com o seu dinheiro, sem prestar contas a ninguém. Elas sabem o que significa ficar mais dependente do marido ou dos pais, ter menos esperança para os filhos, desistir de coisas que achava até então possíveis (…)

Tenho de reconhecer que, na minha opinião, o texto está bom bom e muito bem escrito.
Comment by Ex-Anónimo — May 4, 2008 @ 6:32 pm
Com a concorrência internacional a aumentar a níveis impensáveis há alguns anos atrás pergunto-me como um país como o nosso, com baixos níveis de qualificação, com um tecido empresarial pouco produtivo e ainda menos empreendedor, poderá sobreviver. As estatísticas podem até ser interessantes (o défice diminui) mas o drama do desemprego, do emprego precário, do desemprego oculto pelas Novas Oportunidades e outros programas similares fazem-me colocar uma pergunta simples: Portugal será viável?
Comment by PJ — May 4, 2008 @ 8:52 pm
Excelente texto,
A realidade social portuguesa nua e crua, num texto que concilia a lógica dos argumentos com o fluir natural do contexto dos factos que descreve: o saber pensar aliado ao saber escrever! Raro nos dias que correm…
Banana
Comment by Excelente texto, — May 4, 2008 @ 11:07 pm
Excelente texto, tão excelente que quase me levou à loucura de pensar que Pacheco Pereira irá, no futuro, preconizar modelos sociais sustentáveis. Na análise do que está mal existe algum consenso, na hora de o corrigir é que “a porca torce o rabo”.
Comment by João Dias — May 5, 2008 @ 2:22 am
Concordo, J Dias:
Aí sim, a porca torce o rabo. Daí que, como alguém disse numa das postas abaixo, seja urgente encontrar ALTRUISMO suficiente para assumir a liderança mesmo que com risco da própria carreira privada. A propósito, e pegando noutra das postas abaixo, talvez seja necessário um líder que se imole (mas sem sucesso) para que as intenções de voto aumentem ne ordem dos 40%. Quem terá coragem para este hara-kiri salvador?
Banana
Comment by Concordo, — May 5, 2008 @ 2:41 am
O texto de JPP é interessante também pela ligação que estabelece entre a desoladora paisagem urbana do Porto e as profundas desigualdades sociais que esta reflecte. A paisagem portuense - e o mesmo se pode dizer do resto do país, I guess… - é hoje, mais que nunca, o espelho fiel da falta de visão, do deixa-andar, do abandono, da indiferença, do caciquismo, e do alheamento cívico não só da classe política como também dos cidadãos. É em grande medida devido a esta espécie de anestesia colectiva que me parece, em resposta ao comentário do PJ, que o país não é, de todo, viável. E a crença ingénua num líder providencial e sacrificial sugerida pelo Banana faz (e sempre fez), infelizmente, parte do problema, e não da solução. Mas, enfim, lá iremos sobrevivendo, entre lamúrias, suspiros e desenganos, e «apodrecendo [lentamente] ao sol», como dizia o outro…
Comment by DK — May 5, 2008 @ 4:03 am
“A paisagem portuense - e o mesmo se pode dizer do resto do país, I guess… (etc)”
Menina Danilela,
Julguei que apreciasse a paisagem dessa grande cidade: o Porto. A cidade onde a Menina conseguiu um prestigiado doutoramento celebrado, recordo-me, no Bom Sucesso! Falta-nos um Bossi para, como na Lombardia, derrotar diariamente o derrotismo que os midia de pendor sulista nos obrigam a engolir com o caldo verde e com a francesinha. Um Bossi que apele aquela vitalidade nortenha que enche de medo a corja de burocratas que teme e obstaculiza o progresso. Tal como a Liga Lombarda, tambem temos 300000 fusis (fusis intelectuais, entenda-se) apontados ao atraso de Portugal. Aguardamos pela ordem de fogo que nunca chega…
Aceito que falar do “deixa andar” aplica-se ao Porto de certo momento historico: o vergonhoso consulado de Fernando Gomes e seu lacaio Nuno Cardozo. Hoje, com o Dr Rui Rio, o Porto volta ao lugar cimeiro que sempre lhe pertenceu!
Quanto ao que diz o Banana pergunto-me: quem melhor que Rui Rio para resolver cabalmente a crise do PSD, livrar Portugal do “eng” Socrates e construir um “Porto” de abrigo seguro a partir do qual o desenvolvimento economico, de que tanto fala LA-C e o progresso cultural, ao qual a Menina muito bem se refere, possam prosperar. Venha a ordem de fogo, Dr Rio: estamos preparados!
Viva o Porto, a Lombardia da costa Oeste da Europa! Viva Portugal!
Cumprimentos,
J R Jr
PS: um alerta apenas para o muito interessante artigo de L AC sobre suicidas. A leitura desse texto pode levar a que leitores menos preparados se vejam impelidos a cometer o acto final na mira dos tais 40% de lucro estimado pelo artigo. Encontram-se bem documentados nas bulas da psicologia do desenvolvimento acontecimentos desse tipo.
Comment by Lombardo — May 5, 2008 @ 4:37 pm
Eu não percebi se o comentário anterior era a sério ou era sarcástico, quer nas referências à Lega Nord quer ao Rui Rio. Mas também ainda não sei se o que significaram os resultados das eleições italianas, em particular nas regiões do Norte…
Comment by Ex-Anónimo — May 5, 2008 @ 7:20 pm
um excelente texto - e a fazer-me interrogar sobre como irão os alérgicos ao jpp explorá-lo para a habitual maledicência
Comment by jpt — May 5, 2008 @ 10:37 pm
O comentário do Lombardo é tão ridículo que não merece qualquer resposta. Os leitores da Destreza saberão decerto tirar as devidas conclusões. Da minha parte, só digo: I have no time for fools…
Comment by DK — May 5, 2008 @ 10:40 pm
O desemprego é transversal e, quase, universal, no nosso país. O meu mais recente post é, precisamente, um apelo pessoal. Meu.
Quero trabalhar e, não obstante, não me poupar a esforços para o conseguir, ainda não voltei à vida profissional.
Comment by a.filoxera — May 23, 2008 @ 10:41 pm