Há uns dias perguntava-me se haveria entre os leitores da Destreza alguém que ainda se recordasse destes velhos contos japoneses, Manga Nippon Mukashi-banashi, que passavam na televisão portuguesa em inícios da década de oitenta. Apareceram algumas respostas, mas ninguém referiu, hélas, qualquer memória mais marcante evocada por essas histórias. Pois eu tenho várias, que nos últimos tempos venho reavivando através dos vídeos que um ou outro nostálgico coloca regularmente no YouTube.
Quando me perguntam de onde vem o meu interesse pela(s) cultura(s) do Japão, lembro-me sempre das paisagens sobrenaturais das mukashi-banashi, povoadas de fantasmas, deuses, demónios, espíritos e animais com estranhos poderes mágicos como a raposa (kitsune), a garça (tsuru), o gato (bake-neko), ou o divertido cão-guaxinim (tanuki). Estas histórias de bakemono (ou obake) – a expressão japonesa usada para referir genericamente entes sobrenaturais dotados de poderes de metamorfose – foram o meu primeiro contacto com o Japão e, como acontece com tantos primeiros encontros, deixaram em mim uma impressão indelével, que mais tarde procuraria aprofundar através de leituras, filmes, viagens.
Cedo descobri que não estava só neste fascínio pelos bakemono e pela sua relação simbólica com um Japão antiquíssimo, rural e, sobretudo, fantasmagórico, porque em vias de extinção. Na realidade, este «tale of the vanishing Japan», como lhe chama Roger Pulvers, tem dominado as percepções da nação pelo menos desde há um século. Lafcadio Hearn (1850-1904), o escritor greco-irlandês que viveu no Japão entre finais do séc. XIX e inícios do XX, constitui um dos exemplos mais emblemáticos da pulsão utópica (ou talvez hetero-tópica, se a entendermos como desejo de um lugar outro) que levou tantos ocidentais a rejeitarem os valores da sua civilização, identificada com a modernidade capitalista e com um concomitante sentido de perda e nostalgia, para se agarrarem a aspectos da cultura japonesa que encaram como tradicionais e pré-modernos, mas que, ironicamente, grande parte dos japoneses já abandonou ou a que só de forma muito superficial adere hoje em dia. Hearn, que viria a adoptar a nacionalidade japonesa e o nome Yakumo Koizumi, continua significativamente a ser mais conhecido no Japão do que no Ocidente, sendo considerado por muitos japoneses como o supremo intérprete ocidental da cultura nacional. A cultura é, sem dúvida, uma galeria de espelhos, onde cada um busca no outro - e procura dar de si - a imagem que mais lhe convém, num jogo infinito de reflexos.
A verdade é que, como vários estudos mais ou menos recentes têm vindo a demonstrar (cf. Nota 1), as dinâmicas do fantasmagórico e do monstruoso configuram todo o complexo processo de recepção da modernidade no Japão, ora colidindo com esta modernidade, ora confirmando-a. E dizendo os bakemono respeito a tudo aquilo que está em mutação e ameaça as certezas tranquilizadoras do quotidiano e as estruturas que impomos à realidade, não surpreende, pois, que estas fantasmagorias continuem a de-formar as percepções internas e externas do Japão.
Os obake das mukashi-banashi, símbolo de uma cultura japonesa rural, marginal e perdida no tempo, constituirão hoje pouco mais do que uma vaga reminiscência ou uma mera curiosidade para alguns nostálgicos. E talvez assim seja porque esses bakemono já há muito se metamorfosearam e integraram, como mercadorias, numa sofisticada cultura urbana de consumo exacerbado e pouco dada à nostalgia – ou melhor, numa cultura que encara a nostalgia como mero tique de estilo «retro». Mas se os obake perderam a dimensão nostálgica de outras épocas, eles continuarão a povoar os imaginários nipónico e ocidental, na manga e na anime, de Godzilla/Gojira a Ghost in the Shell – e a assombrar um Japão que só muito dificilmente se libertará um dia dos seus fantasmas e monstros.
Notas:
1. Para os interessados em aprofundar o tema, deixo algumas sugestões de leitura:
- Gerald Figal, Civilization and Monsters: Spirits of Modernity in Meiji Japan (Durham: Durham UP, 1999).
- Marilyn Ivy, Discourses of the Vanishing: Modernity, Phantasm, Japan (Chicago: U of Chicago P, 1995).
- Susan Napier, The Fantastic in Modern Japanese Literature: The Subversion of Modernity (London: Routledge, 1996).
E recomendo também, é claro, as obras de Hearn sobre o Japão, muitas das quais estão agora disponíveis gratuitamente online, como é o caso dos fantásticos contos de Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things e de In Ghostly Japan. Alguns dos contos de Kwaidan foram adaptados ao cinema por Masaki Kobayashi, num filme que cedo se tornou num clássico do género - e que está igualmente disponível online no YouTube, em vinte (!) partes. Aqui fica o link para a primeira parte.
2. Sobre a imagem: Cem Histórias de Demónios e Espíritos de Kitagawa Utamaro; xilogravura de inícios do séc. XIX.
*Versão ligeiramente editada (05/01).

“mas ninguém referiu, hélas, qualquer memória mais marcante evocada por essas histórias.”
o único que eu me lembro era a de um monstro do pantano que foi capturado pelos camponeses (que ele costumava afogar, parece-me) e posto numa espécie de paliçada.
Entretanto, houve uma enorme seca e os camponeses puseram-se a rezar para que chuvesse (e o monstro também).
Finalmente choveu e os camponeses subiram à paliçada e encontraram o monstro morto, em posição de reza.
Comment by Miguel Madeira — April 30, 2008 @ 1:49 pm
Obrigada, Miguel. Não me lembro dessa história, mas, sim, é verdade que alguns dos monstros que aparecem nas mukashibanashi não são inteiramente maus… A maior parte, porém, parece querer simbolizar aquilo que na tradição japonesa - em grande medida por influência do xintoísmo - é tido por «impuro». Uma das lendas mais curiosas a esse respeito é a de Momotaro, o Rapaz-Pêssego (http://www.youtube.com/watch?v=dcgI82MLKqQ). Momotaro nasce de um pêssego e é criado por um casal de velhos camponeses, tornando-se num herói decidido e corajoso, que repele sem medo os demónios (oni) que regularmente invadem e pilham a aldeia. A certa altura, Momotaro constitui um pequeno exército e invade a ilha dos oni (Onigashima), infligindo-lhes uma pesada derrota e obrigando-os a devolver as pilhagens…
Esta lenda é ainda hoje lida por muitos como uma alegoria do imperialismo e militarismo do Japão, em que os oni corporizam o estrangeiro que ameaça a integridade e pureza da nação. Durante a Segunda Guerra a história aparecia nos manuais escolares e constituía leitura obrigatória para as crianças japonesas. Em alguns cartoons, os oni eram apresentados como o Churchill e o Roosevelt… “;o)))
Trata-se, é claro, de apropriações nacionalistas de tradições antigas (e, nesse aspecto, o Japão está longe de ser um caso único), mas o certo é que muitas destas histórias têm uma inegável dimensão político-ideológica e constituem, por isso, um interessante objecto de estudo.
Comment by DK — May 2, 2008 @ 12:31 am