Luís Aguiar-Conraria, Público, Sexta, 25 de Abril de 2008
De acordo com o New York Times, entre doentes em estado terminal, houve mais 50 por cento de mortes na primeira semana de 2000 do que na última semana de 1999. O desejo de ver a madrugada do novo milénio levava os doentes terminais, num último fôlego, a adiarem o último suspiro. Este fenómeno alertou alguns economistas. Pelos vistos, o momento da morte era, parcialmente, uma decisão individual. Daí a questionarem-se se essa decisão respondia a incentivos económicos foi um passo. Na verdade, de certa forma, a questão nem sequer era original. Em 1999, já se tinha estabelecido que a data de nascimento dos bebés era fortemente influenciada por questões fiscais.
Wojciech Kopczuk e Joel Slemrod quiseram saber se alterações aos impostos sobre heranças influenciavam o momento da morte. A ideia é simples. Se num determinado dia vai entrar em vigor uma descida de impostos sobre sucessões, é possível que o futuro finado, num último esforço, sobreviva até essa data para beneficiar os herdeiros. Alternativamente, é também possível que os herdeiros dêem ordens aos médicos para prolongar a vida do doente. Finalmente, se não for possível manipular o dia da morte, há sempre a possibilidade de falsificar a certidão de óbito. Enfim, podemos encontrar mil e uma razões, mas a verdade é que os dois economistas concluíram, usando dados para a economia americana, que os impostos influenciavam o dia do óbito. E não se pense que é uma idiossincrasia americana, Joshua Gans e Andrew Leigh, professores em Melbourne, chegaram a conclusões similares para a Austrália.
Se o leitor não consegue olhar para o dia da morte como uma decisão individual, ou familiar, considere então o caso extremo do suicídio. Daniel Hamermesh e Neal Soss foram, provavelmente, os primeiros a aplicar a teoria económica para analisar o suicídio. Num artigo publicado em 1974, fugiram às explicações sociológicas tradicionais, grandemente baseadas nos trabalhos de Émile Durkheim desenvolvidos no fim do século XIX. Por exemplo, mostraram que há uma relação entre os ciclos económicos e o suicídio e que pessoas com menores rendimentos têm maior propensão para se suicidarem. Outros trabalhos mais recentes vieram confirmar e generalizar estas conclusões.
Como imagina o leitor, conhecendo eu esta literatura, já poucas análises económicas me surpreendem. Por mais esotérico que seja o assunto, espero sempre que algum economista o vá analisar. Apesar de tudo, tenho de confessar o meu imenso espanto quando li um artigo de Dave Marcotte, professor na Universidade de Maryland, sobre o suicídio, ou melhor, sobre as tentativas de suicídio. Na verdade, a maioria dos suicidas não são bem-sucedidos. Ao contrário dos trabalhos que referi no parágrafo anterior, Marcotte, ao aplicar a teoria económica, tem em conta que há uma grande probabilidade de a tentativa de suicídio fracassar. Assim, a típica análise de custo-benefício, que os economistas tanto gostam de fazer, tem de ter em conta o que acontece ao indivíduo a seguir a uma fracassada tentativa de suicídio.
Marcotte conclui que um suicídio, desde que fracassado, pode ser um bom investimento. O autor relata que o felizardo que sobrevive ao seu suicídio tentado vê o seu rendimento subir consideravelmente. Mas atenção: a tentativa de suicídio tem de ser credível. Aqueles que tomam meia dúzia de comprimidos e telefonam a um amigo a dizer que se vão suicidar, não obtêm grandes benefícios. Já os que por pura sorte escapam ilesos, como os que se atiram de uma ponte, vêem o seu rendimento aumentar em cerca de 40 por cento.

Por estes extos semanais estou é a ver que os economistas têm falta de “temas” para artigos… e gostam de entram pela psicologia, sociologia, medicina e ficção. O resultado é cómico.
Comment by Ex-Anónimo — April 26, 2008 @ 2:26 pm
Apoiado em 100%. Remetendo para a posta anterior sobre o PSD, julgo que apenas um economista poderia ser capaz de tomar a cargo o posto de Presidente do Partido: cómico por cómico que venha de Maryland em vez de Vila Nova de Gaia ou do Funchal!
Comment by Banana — April 26, 2008 @ 2:57 pm
Bem, há-de sempre haver gente com palas…
Mais um belo artigo Luís, parabéns.
Comment by Zé — April 26, 2008 @ 8:34 pm
‘Veronika Decide Morrer’ do Paulo Coelho trata desse assunto. Lá, para além do suícidio falhado e da quase-morte, ainda lhe é diagnosticada uma *spoiler* falsa *spoiler* doença de coração.
Comment by JLS — April 27, 2008 @ 3:55 pm
“Marcotte conclui que um suicídio, desde que fracassado, pode ser um bom investimento. O autor relata que o felizardo que sobrevive ao seu suicídio tentado vê o seu rendimento subir consideravelmente.”
Não consigo entender este dado empírico. A investigação demonstra que uma tentativa de suicídio aumenta a probabilidade de uma tentativa de suicídio posterior. Simultaneamente, o suicídio encontra-se intimamente relacionado com a doênça mental, em particular com a depressão. Tenho em dificuldade em perceber como é que nestas circunstâncias a tentativa de suicídio pode constituir um bom investimento.
Comment by PJ — April 27, 2008 @ 7:57 pm
JLS, obrigado pela achega. Não li o livro, mas nestes assuntos a ficção costuma estar perto de alguma realidade.
PJ, amanhã tentarei responder-te melhor, mas, para já, dir-te-ia que as tuas perplexidades são as minhas. Mas, como te disse, amanhã vou pôr os links para os papers relevantes.
Comment by LA-C — April 27, 2008 @ 8:00 pm
PJ, acrescentei os links ao texo. Procurei, sempre que possível, incluir links gratuitos, mas se houver algum artigo a que não tenhas acesso é só pedires que envio por email.
Comment by LA-C — April 28, 2008 @ 2:02 pm
denúncia:
Fizeram outro livro da guerra com a capa do Braço Tatuado…
Comment by José Manuel de Aguiar — April 28, 2008 @ 8:38 pm
livros com a mesma capa…
Comment by José Manuel de Aguiar — April 29, 2008 @ 9:58 am
“a tentativa de suicídio pode constituir um bom investimento.”
Só dei uma olhada no artigo de Marcotte, mas ocorre-me uma ideia: será que as suicidas tentam suicidar-se sobretudo nos seus piores momentos (no caso, económicos), logo é mais fácil o seu rendimento subir do que descer a partir daí?
Comment by Miguel Madeira — April 29, 2008 @ 10:09 pm
O meu “as suicidas” era para ser “os suicidas” - foi uma gralha e não uma tese sobre diferentes motivações do suicídio conforme o género
Comment by Miguel Madeira — April 29, 2008 @ 10:13 pm
Supostamente, estes suicidas são comparados com pessoas em situações similares.
Comment by LA-C — April 29, 2008 @ 10:32 pm
Entendi tudo, menos a razão porque “os que por pura sorte escapam ilesos, como os que se atiram de uma ponte, vêem o seu rendimento aumentar em cerca de 40 por cento”. Como assim e 40% porquê?
Comment by pepe — April 30, 2008 @ 10:00 am
Os 40% correspondem às estimativas que o autor fez.
Comment by LA-C — April 30, 2008 @ 10:11 am