Os dados relativos à subida dos preços dos cereais e das matérias-primas são muito preocupantes: no último ano o preço do trigo aumentou cerca de 80%; desde Janeiro o preço do arroz aumentou mais de 100%; o preço do petróleo bate recordes quase todas as semanas, o mesmo acontecendo com os preços dos metais.
A causa da escalada dos preços dos bens alimentares e matérias-primas é o extraordinário aumento da procura resultante da produção de biocombustíveis e, sobretudo, da procura dos países em vias de desenvolvimento. De entre estes destaca-se a China, o maior país do mundo em termos populacionais, representando 1/5 da população total mundial, o segundo maior em termos económicos (se o seu produto for medido em termos de paridade de poder de compra) e o terceiro em termos de área. No entanto, o recente processo de crescimento da economia chinesa, associado à erosão dos solos (a área arável per capita da China é cerca de metade da média mundial) e outros desastres ambientais, há algum tempo que tornaram evidentes as suas dificuldades em ser auto-suficiente em termos alimentares e em matérias-primas. Assim, a China é hoje o maior consumidor mundial de matérias-primas e o segundo maior consumidor de petróleo.
A grande procura de bens alimentares nos mercados mundiais reflecte o aumento do nível de vida da sua população. Calcula-se que o extraordinário crescimento da economia chinesa (e da economia indiana) retire anualmente milhões de pessoas de uma situação de pobreza. Nos últimos 50 anos a percentagem da população chinesa a viver em zonas urbanas aumentou de pouco mais de 10% para quase 50%. Este é um aspecto positivo da actual subida de preços. No entanto, há também aspectos muito negativos, não sendo as pressões inflacionistas que se fazem sentir nos países desenvolvidos as mais graves. De facto, nos últimos dias têm-se sucedido os avisos sobre os efeitos dos aumentos dos preços do bens alimentares nas populações mais pobres do planeta. Parece que pela primeira vez, desde os anos setenta, há situações de fome a ocorrer simultaneamente em vários países. De acordo com uma responsável das Nações Unidas, a situação é já muito grave: para os 2,5 mil milhões de pessoas, mais de 40% da população mundial, que vivem com menos de 2 dólares por dia, a actual subida de preços está já a obrigar as populações a reduzirem as despesas de saúde, a retirarem os filhos da escola, a eliminarem a carne e o peixe da suas dietas, ou mesmo a reduzirem o número de refeições.
A teoria económica diz-nos que a subida dos preços levará a um aumento da produção. Fala-se já no potencial agrícola de países como ao Cazaquistão ou do aumento da área cultivada na Rússia e no Brasil. No entanto, esse aumento da oferta implica investimentos e não poderá ser conseguido no curto prazo. O seu efeito mais directo poderá ser na contenção da especulação que parece explicar uma parte da recente subida dos preços. Mas até se alcançar o novo equilíbrio o mundo vai viver um processo de ajustamento que poderá ser doloroso.
Este processo de ajustamento poderá ter contornos do tipo identificado na obra do economista inglês Thomas Malthus, publicada no final do século XVIII, onde se argumentava que o crescimento da produção de bens alimentares não poderia acompanhar o crescimento exponencial da população. O resultado dessas diferenças na dinâmica do crescimento populacional e da produção de bens alimentares seriam fomes, revoltas sociais e guerras. Jared Diamond, o autor do extraordinário Guns, Germs and Steel, no seu mais recente livro Collapse, How Societies Choose to Fail or Survive, recuperou a teoria de Malthus para explicar os genocídios, em meados dos anos 90, no Ruanda e no Burundi, geralmente atribuídos a conflitos étnicos. O Ruanda e o Burundi são os países mais densamente povoados de África e antes do genocídio de 1994 existiam já situações de violência grave por disputas de terras. Os conflitos étnicos entre Hutus e Tutsis podem ter sido a acha que incendiou aqueles países causando um dos piores genocídios desde a 2ª Grande Guerra.
Notícias dos últimos dias relatam situações de fome e/ou de revoltas sociais provocadas pelo aumento dos preços do bens alimentares em países como os Camarões, no Haiti, na Costa de Marfim e Egipto. Num momento em que os países mais ricos se encontram concentrados nos seus próprios problemas, devido à grave crise dos mercados financeiros, é urgente que dêem também atenção aos apelos que têm sido lançados por várias organizações internacionais para a ajuda alimentar às populações afectadas pela subida dos preços dos bens agrícolas. Essa ajuda pode facilitar a convergência para o novo equilíbrio. Outra questão, com uma solução que me parece menos óbvia, é onde se situará o novo equilíbrio se a China a mantiver a actual trajectória de crescimento. Talvez convenha reler Thomas Malthus.

“O seu efeito mais directo poderá ser na contenção da especulação que parece explicar uma parte da recente subida dos preços.”
Creio que os stocks de matérias-primas e dos cerais estão a niveis bastante baixos, o que parece indicar que a especulação não tem grande influência na subida dos preços (se tivesse, veriamos grandes stocks a serem acumulados).
[O Paul Krugman escreveu algo sobre isso - os stock e a especulação - hoje]
Comment by Miguel Madeira — April 21, 2008 @ 3:44 pm
Isto faz-me lembrar as crises crealíferas da primeira metade do séc. XVII, que provocaram uma série de revoltas no sul de França, Espanha e em Portugal (como a de Évora 1637, entre outras). É curioso, e ao mesmo estranho, ler estas notícias… (e um bocado assustador para mim, confesso)
Comment by Ex-Anónimo — April 21, 2008 @ 7:56 pm
Já os pré-socráticos diziam: não há nada de novo debaixo do sol…
Comment by Pedro Teixeira — April 21, 2008 @ 10:31 pm
“A teoria económica diz-nos que a subida dos preços levará a um aumento da produção.”
Exactamente! Mas isso vai fazer-se à custa da destruição das florestas e do ambiente, precisamente o que este “combustível verde” visava evitar. Excelente texto! Apenas existe uma forma de melhorar o sistema capitalista: suprimi-lo! Não é pois por acidente que, hoje mesmo, mais um país da América Latina abraçou a solução bolivariana: da Venezuela, da Bolívia, e da Niquerágua, o Paraguai.
Excelente texto, Fernando Alexandre: assim, sim!!
MV
PS: A evocação de Malthus dispensa, de tão assertiva, qualquer comentário aos infelizes dizeres do pobre José Sócrates (mal empregue apelido…) em resposta às pertinentes dúvidas de F Louçã. Temos que dar a volta a isto!
Comment by Varatojo (Barreiro) — April 21, 2008 @ 11:08 pm
Lendo o comentário do amigo do Barreiro parece que de facto os textos são de quem os lê.
Os problemas da sustentabilidade do planeta e dos modos de vida que a espécie humana escolhe é um problema com uma história antiga, como é referido acima, e com finais muitas vezes trágicos. Muitas dessas histórias são contadas em Collapse de Jared Diamond. Esses colapsos resultaram muitas vezes da incapacidade das sociedades em escolherem um modo de vida compatível com os recursos disponíveis e, sobretudo, de ajustarem o seu modo de vida às alterações que se registaram no ambiente. Se nos concentrarmos só na época moderna, nenhum sistema foi tão destruidor do meio ambiente como o sistema socialista/comunista/totalitarista dos países do Leste da Europa. E talvez nenhum seja tão destruidor actualmente como a China, também comunista/totalitarista. Os países capitalistas e democráticos têm defendido formas mais amigas do ambiente, em parte porque a criação de uma forte consciência ambiental nas populações tem levado muitas empresas a incorporar essas preocupações nas suas decisões de investimento. Mas também há países capitalistas e democráticos devoradores de recursos como é o caso da Austrália. E os próprios Estados Unidos. O problema aqui tratado é claramente um problema da espécie humuna e não de um sistema. Mas o sistema capitalista e democrático (um verdadeiro sistema capitalista é um sistema democrático - veja-se a definição de J. Schumpeter) parece-me o melhor sistema para resolver o problema económico fundamental de fazer face às necessidades ilimitadas da espécie humana com recursos escassos.
Comment by Falex — April 22, 2008 @ 9:56 am
Falex, és um imperialista!!
Comment by LA-C — April 22, 2008 @ 11:23 am
Ainda ontem um amigo puxou este assunto de conversa exactamente com as mesmas linhas de pensamento. Sinceramente a mim parece-me que uma escalada tão grande e súbita no preço dos cereais é parcialmente especulativa. Claro que a procura aumentou para a produção de biodiesel. Claro que países como a China e a Índia com taxas de crescimento anuais perto dos 10% tornaram-se num mercado que há poucos anos era inexistente. No entanto, parece-me que não chega para explicar uma subida quase “repentina”. Já a crise nos mercados financeiros europeus, em que os investidores se encontraram sem alternativas onde apostarem para o lucro rápido, levou-os a investir nos mercados de ouro e futuros de produtos agrícolas.
Seria interessante saber até que ponto o aumento dos preços dos cereais é real e a partir de quando é meramente especulativo.
Quanto à fome que isto está a causar em África… este assunto dá origem a mais que uma infindável discussão. Os problemas estruturais de África são já tão profundos que não é com meia dúzia de anos de atenção que capte com os Millenium Development Goals que vão resolver. O mundo está ao avesso. Na Europa temos uma PAC ineficiente, que mantem os preços agrícolas artificialmente altos em prol dos rendimentos dos agricultores. Em África, uma situação assim, causa fome. Acho que o objectivo nr 1 africano deveria ser a ordenação e planeamento do território… mas quem de facto está preocupado com aquele continente de povos culturalmente tão divergentes que não se entendem??? Os seus dirigentes não são de certeza. Acho que nunca conheci povo mais ambicioso e subestimado que o africano. Os europeus gostam de se sentir bons samaritanos e enviar ajuda humanitária (remorso?) mas na política africana também não estão interessados em intrometer-se. Os americanos só se lembram que África existe quando lhes doi algures, ou para construirem mais uma plataforma petrolífera em alto mar.
Enfim… Nem vale a pena levantar este véu.
Comment by AEnima — April 22, 2008 @ 10:18 pm
“Seria interessante saber até que ponto o aumento dos preços dos cereais é real e a partir de quando é meramente especulativo.”
Para a subida do preço dos cereais ser especulativa, isso implicaria uma de duas coisas: ou havia quem estivesse a comprar cereais apenas para os vender mais tarde, a maior preço; ou haveria quem não estivesse a vender cereais, por estar à espera que o preço subisse. Ambas as hipoteses implicavam que se estivessem a acumular stocks de cereais, mas parece que não é o caso.
Comment by Miguel Madeira — April 24, 2008 @ 9:46 am
A respeito de ambiente, capitalismo, etc.:
O argumento de Falex, de que “um verdadeiro sistema capitalista é um sistema democrático” é como o argumento de que “o verdadeiro socialismo tem que ser democrático” - pode ser correcto ou não, dependendo do que se definir por “capitalismo”, “democracia” e/ou “socialismo”.
No entanto, neste questão da eventual escassez de recursos naturais, talvez a melhor análise não seja pela dicotomia “capitalismo”/”socialismo”, mas sim a de alguns autores do século XIX (Ricardo, Stuart Mill, Henry George…) que achavam que a tendência era para os proprietários de terras (numa prespectriva mais actualizada, os proprietários de recursos naturais) ficarem cada vez mais ricos, à custa tanto dos trabalhadores como dos capitalistas.
Comment by Miguel Madeira — April 24, 2008 @ 12:05 pm
“pode ser correcto ou não, dependendo do que se definir por “capitalismo””
De acordo, mas o fernando deixou claro qual a definição que estava a usar.
Comment by LA-C — April 24, 2008 @ 1:04 pm
Bolas, e eu que sempre estudei o Malthus como o tipo que “não tinha razão”. Em todo o caso, se não me falha a memória, quando a recta de crescimento demográfico de Malthus se cruzava com a linha de produção alimentar havia apenas um momento em que a ultrapassava, porque seria por resoluções inevitáveis que passariam por conflitos armados ou epidemias que reduziriam de novo a população. A minha questão é: Sendo um conflito armado contra as “potências” Europa, EUA (China e Índia cada vez mais) uma impossibilidade visto não me parecer que quem morra a fome tenha capacidade para conseguir armamento suficiente para sequer tentar, não estará o continente Africano condenado à aniquilação pela guerra e pela fome?
Millenium Goals e ajuda externa é tudo muito bonito mas enquanto os nossos noticiários abrirem com o Alberto João Jardim a falar das “criaturas” do continente ninguém se vai preocupar o suficiente. E no fundo a culpa é nossa e dos nossos avós.
Comment by Kordny — April 25, 2008 @ 2:11 pm
“Bolas, e eu que sempre estudei o Malthus como o tipo que “não tinha razão”.”~
É verdade, todos estudámos o Malthus nessa perspectiva, mas, de facto, essa perspectiva, em si mesma, é muito interessante. Se admitirmos que a História do Homo Sapiens tem cerca de 100 000 anos, podemos dizer que existem 99 800 anos de evidências a favor da teoria de Malthus. Só nos últimos 200 anos conseguiu a humanidade fugir ao seu decretado destino. Mas, de alguma forma, esses 200, em 100 000, foram suficientes para muitos de nós se convencerem de que Mathus estava errado!
Comment by LA-C — April 26, 2008 @ 8:59 pm
E onde se coloca a especulação financeira através dos futuros e warrants de matérias-primas? É que ninguém parece falar da causa principal que é essa especulação. Não a houvesse e as matérias-primas teriam subido muito menos. Até parece que é proibido falar nesta realidade.
Comment by M.G.R. — April 29, 2008 @ 1:16 pm
Caro M.G.R. ,
o que entende por especulação e como é que conclui que a causa principal da subida de preços é essa especulação?
Como é que responde ao comentário número 8?
Comment by LA-C — April 29, 2008 @ 1:48 pm