Tinha jurado que tão cedo não voltaria ao tema, mas este texto publicado no The Guardian fez-me mudar de ideias. O artigo dá conta de uma interessante iniciativa da Agora, um fórum e think tank que, nas palavras dos seus membros, visa promover o debate sério e profundo sobre o Ensino Superior e o seu papel na sociedade.
A iniciativa mais recente colocou frente a frente duas facções (aparentemente) antagónicas, os anti- e os pró-Humanidades, que se degladiaram em torno das implicações desta afirmação provocatória: «Renaissance Man is dead. Education should be about training in subjects that will boost the economy». Não tive, hélas, acesso ao debate, mas a avaliar pelo habitual aperitivo servido pelo Guardian, com o resumo das posições em confronto, sou levada a pensar que se tratou de mais um diálogo de surdos. De um lado, estão os que defendem o fim do financiamento público para os cursos de Humanidades, com base na baixa empregabilidade e, logo, inutilidade dessas formações. Do outro, estão os que defendem a continuação – se não mesmo o reforço, através da abertura a novos públicos com apetência para a «lifelong learning» – do financiamento estatal, aduzindo aristocraticamente para o efeito argumentos baseados nos excelsos valores e qualidades humanas que uma formação em Humanidades supostamente incute nos que têm a honra de serem expostos ao ambiente de uma Faculdade de Letras: espírito crítico e perspicácia a rodos, refinamento, cosmopolitismo, generosidade, compaixão pelo semelhante, e por aí fora…
Curiosamente, ambas as posições acabam por convergir no reconhecimento da imprestabilidade das Humanidades em termos profissionais. As «Letras» são puro entretenimento: um passatempo para ociosos que vivem de rendimentos e uma espécie de ATL para adolescentes em férias e para donas de casa e reformados com aspirações intelectuais – é, pois, como tal e para tal que devem funcionar e orientar as suas formações. Se este tipo de discurso não surpreende quando provém de mentes mais tecnocráticas, ele já se torna verdadeiramente preocupante quando encontra crescentes defensores junto dos académicos das Humanidades, os quais, a este respeito, são tudo menos ingénuos e altruístas. Por muitos discursos grandiloquentes que produzam sobre a nobreza e imprescindibilidade das suas respectivas disciplinas para o futuro espiritual da humanidade, torna-se demasiado óbvio que a preocupação central é, cada vez mais, não a de repensar de forma séria o papel do ensino e da investigação nas Humanidades, mas sim a de assegurar que tenham alguma coisa para ensinar, para assim justificarem a manutenção dos seus empregos e respectivos departamentos académicos. De facto, como é sabido, as universidades existem acima de tudo para dar emprego aos srs. Professores e respectiva entourage. A formação dos estudantes fica, obviamente, fora da equação.
A pretensão acima descrita é, sem dúvida, compreensível nos tempos de crise que atravessamos (ou em que nos instalámos?). Não deixa, porém, de ser uma pena que o oportunismo (agora disfarçado de auto-vitimização) subjacente a tais atitudes defensivas vá previsivelmente conduzir a um progressivo isolamento, lilliputianização e descrédito das Humanidades, com ou sem financiamento público. Mas terá de ser mesmo assim?… Será que as tão (auto-)elogiadas capacidades dos académicos e estudantes de Letras não poderiam encontrar outras direcções mais imaginativas e produtivas para se repensarem na sua relação com a acção e o mundo lá fora?… Apesar do cinismo reinante em certos meios universitários e do desânimo de amigos e colegas que dizem sentir-se cada vez mais desgastados por estes pseudo-debates infrutíferos, continuo ingenuamente a achar que vale a pena o exercício de pensar em alternativas ao actual cenário e às consequências trágicas que se lhe adivinham.
(cont.)

Cara Daniela Kato,
O muito longo comentário que dediquei ao Fernando Alexandre sobre um assunto tão economicista como a crise financeira actual não tem esperança de persuadir. Mas por que o tema que a Daniela Kato escolheu é tanto mais difícil, hesitei antes de escrever.
Não foi a quebra do seu juramento que me motivou. Nem foi a sua frontalidade ao tratar-me justamente como um “ocioso que vive dos rendimentos” e “um reformado com aspirações intelectuais”. Foi a chamada para a leitura do escrito de A.C. Grayling. De quem já li algo e que me deixa sempre o desejo de voltar. Há pouco tempo foi a biografia fascinante sobre “Descartes”. Agora, leio “Towards the Light: The story of the struggles for Liberty & Rights that made the Modern West” que só posso recomendar vivamente como indispensável.
Só entende o valor das Humanidades no mundo de hoje quem conseguir entender a razão economicista da Vida Moderna. Pode então depois justificar o curriculum humanista como ganho em eficiência social.
Há anos, o senador Daniel Patrick Moynihan de Nova Iorque justificava o financiamento público do ensino da música em razão da total ineficiência da música enquanto actividade. Pois mais de 200 anos depois da sua composição inicial, os quartetos de Haydn ou Mozart continuam a ser tocados por dois violinos, uma viola e um violoncelo, sem qualquer melhoria na velocidade do “tempo”. Sempre os mesmos 12 a 15 minutos. (Só quebrados pela velocidade sempre excitante de Thomas Zehetmair que consegue cobrir a peça de memória e em pouco mais de 10 minutos.)
A Sociedade Moderna na sua suprema inteligência e com o seu instinto de sobrevivência vai por isso continuar a destinar os dinheiros públicos necessários para o estudo das Humanidades. O dilema do gestor de hoje em embarcar numa nova linha de produção não se resolve com o seu conhecimento da taxa de rentabilidade ESPERADA. Porque é um dilema igual ao que Íon enfrentou entre o futuro prometedor na “polis” de Palas com a Mãe re-encontrada, Creúsa, ou continuar a limpar os degraus do templo de Apolo com a vassoura feita de galhos de loureiro.
Perdi a força para persuadir mais. Mas não reconheço a “imprestabilidade” das Humanidades em termos profissionais.
Muito obrigado.
Comment by F — April 12, 2008 @ 12:00 am
Caro F,
Antes de mais, agradeço o seu comentário, que muito prezo. Noto, porém, desde logo uma grande diferença entre as nossas perspectivas: o F vê as Humanidades em abstracto e a sua perspectiva é, de certo modo, atemporal; da minha parte, não consigo deixar de encarar as Humanidades de uma forma situada, pragmática e condicionada pelas - ou melhor, responsiva às - grandes mudanças que a nossa sociedade atravessa. E é por isso que, relendo agora o meu texto, entendo que não coloquei bem a questão essencial. A principal divisão não é entre os que defendem o fim do financiamento público e os que defendem a sua continuação para as formações de Humanidades. O que divide, de facto, as opiniões, é se o ensino das Humanidades deve permancer inalterado - nomeadamente com base em aulas expositivas de estilo magistral e abordagens humanistas dos textos literários -, ou se deve mudar, em resposta às transformações e novas exigências sociais e económicas. Como espero dedicar a próxima entrada a esta questão, não adiantarei para já muito mais. Apenas relatarei um episódio recente que explica a ironia irritada que aparentemente dirijo aos “ociosos que vivem de rendimentos” e às “donas de casa e reformados com pretensões intelectuais”, e de que o F tomou nota.
Numa das últimas vezes que me desloquei à biblioteca da minha ex-Faculdade de Letras, havia numa das salas contíguas uma algazarra ensurdecedora, que tornava impossível a concentração na leitura. À saída, e perante o meu protesto, um funcionário informa-me de que se trata de uma das iniciativas da “Universidade Júnior”, que ministra cursos de inglês para adolescentes em férias. Pelos vistos, os ditos cursos são dados em registo eufórico e condescendente, com base em canções entoadas aos berros, lanchinhos de chá e scones, etc.
De outro lado, constato que os “novos” cursos de doutoramento em Letras são cada vez mais - eu arriscaria mesmo a dizer quase exclusivamente…- frequentados por senhoras de meia idade já na reforma (ou perto dela), que procuram legitimamente ocupar os seus tempos livres e ampliar os seus horizontes culturais, sem grandes preocupações com performances e avaliações. Na verdade, a maior parte, economicamente abastada, demorará muito mais do que o tempo regulamentar para concluir a tese (e alguns não chegarão sequer a entregá-la…). A Faculdade, é claro, sedenta do dinheiro das propinas (que na FLUP ronda os 2.500 Euros por ano), trata estes alunos séniores com alguma condescendência e não lhes coloca grandes entraves ou exigências.
Tudo isto para dizer que, em princípio, não tenho nada contra a presença crescente de alunos júniores e séniores nas FLs. O que me preocupa, sim, é a condescendência com que estes são tratados e que levará, IMHO, a uma descida gradual dos padrões de exigência do ensino e da investigação.
Parece-me que o problema reside na forma acrítica e precipitada como estes novos públicos estão a ser integrados nas FLs. Do mesmo modo como, durante décadas, as FLs exploraram ávida e irreflectidamente o filão “formação de professores”, preparam-se agora para deitar a gadanha ao novo filão, convencidas de que é aí que reside a sua sobrevivência futura. Os sinais de discussão crítica, de auto-reflexão serena e honesta continuam, como sempre, NULOS.
É, pois, contra esta desonestidade intelectual que a minha ironia se dirige, e não contra os tais novos públicos júniores e séniores. Mas a este tema voltarei em breve.
Muito obrigada, mais uma vez.
Comment by DK — April 12, 2008 @ 2:51 am
“É, pois, contra esta desonestidade intelectual que a minha ironia se dirige”…
Contra esta desonestidade intelectual E oportunismo, acrescento.
Comment by DK — April 12, 2008 @ 3:54 am