A dimensão que a actual crise financeira tomou nos últimos meses tem surpreendido muitos economistas e outros analistas. No final do Verão passado, poucas semanas depois da crise no mercado subprime se ter tornado visível nos mercados accionistas, vários economistas vaticinaram que lá para o Natal já ninguém se lembraria da crise financeira. De acordo com aquela visão, esta crise seguiria o caminho de muitas outras. Uma análise da História dos últimos vinte e cinco anos poderia conduzir-nos àquela conclusão.

Desde meados dos anos oitenta, a economia americana e dos países mais industrializados (com a excepção do Japão) caracterizaram-se por uma grande estabilidade macroeconómica e um forte crescimento económico. Este período, designado por alguns autores como a Longa Expansão, coincidiu com a globalização comercial e financeira e caracterizou-se por um aumento da volatilidade nos mercados financeiros, reflexo de vários ciclos de expansão e contracção que resultaram em várias crises financeiras: o crash bolsista em Outubro de 1987, que representou a maior queda do Dow Jones num só dia, a crise asiática em 1997 e 1998 e da dívida Russa em 1998, o crash do Nasdaq em 2000 e 2001, e actualmente a queda dos preços nos mercados imobiliários.

No entanto, até à presente crise, todos aqueles episódios de turbulência nos mercados financeiros foram ultrapassados sem um contágio significativo da actividade económica real. A aparente facilidade com a que economia americana e a economia mundial superaram várias crises nos mercados financeiros contribuíram para a crença na resiliência da economia americana, a expressão usada por Alan Greenspan para designar a capacidade da economia americana em adaptar-se a novas circunstâncias. É assim de alguma forma natural que muitos economistas acreditassem que a actual crise financeira fosse apenas mais uma crise passageira do tipo das anteriores. Carmen Reinhard and Kenneth Rogoff apresentam uma perspectiva diferente considerando um horizonte temporal mais longo (ver artigo publicado no NBER, “This time is different: a panoramic view of eight centuries of financial crises”).

A experiência passada tem mostrado que o impacto das crises financeiras sobre a actividade económica real depende das políticas seguidas pelos governos. Os economistas nas suas análises estão habituados a assumir um mundo ergódico, isto é, um mundo em que a média dos acontecimentos passados pode ser utilizada para calcular a média dos acontecimentos futuros. Dito de outra forma, o passado é utilizado para prever o futuro, porque de acordo com aquela hipótese o futuro pode ser uma projecção do passado. Mas muitas vezes não é. A duração e os contornos inesperados da actual crise, resultantes da inovação e complexidade dos produtos financeiros, têm alimentado os receios de que esta poderá não ser uma crise igual às dos últimos vinte anos, ou mesmo dos últimos oito séculos, e ainda de que a economia americana e mundial poderá não ser tão resiliente como se pensava.   

O consenso entre os economistas que estudam a relação entre os mercados de capitais e a actividade económica (dos quais Ben Bernanke é sem dúvida um dos mais notáveis) é que no seguimento de uma queda abrupta dos preços dos activos a política monetária deve ser fortemente expansionista, garantindo ao sistema financeiro a liquidez de que necessitam para fazer face aos seus compromissos de curto prazo. A Grande Depressão dos anos trinta e a longa estagnação da economia japonesa desde o início dos anos noventa são dois exemplos de políticas inadequadas face a uma crise financeira.

Assim, desde o crash bolsista de Outubro 1987, em que o Dow Jones caiu mais de 20% num só dia, a maior queda de sempre desse índice, que a estratégia da Reserva Federal face a crises financeiras ou ameaças de crises financeiras tem sido adoptar medidas que reforcem a liquidez do mercado. Esta tem sido também a estratégia da Reserva Federal na actual crise: desde Agosto de 2007 já reduziu a sua taxa de referência em 300 pontos base, de 5,25% para 2,25%. Para além das medidas que visaram o aumento de liquidez no mercado de capitais, e o que é um indicador da gravidade da actual crise, Ben Bernanke propôs ainda ao Congresso a adopção de políticas orçamentais expansionistas (o que é tanto mais insólito quanto os Estados Unidos estão há vários anos numa situação de défices elevados) e aos bancos que perdoassem até 25% das dívidas aos clientes em maiores dificuldades, dado que a alternativa poderia ser perder tudo.

A História e a teoria económica sugerem que as medidas tomadas pela Reserva Federal parecem ser as adequadas para evitar uma Depressão da economia americana, visto que a recessão, como foi recentemente anunciado por Ben Bernanke, é já bastante provável. Como o mundo não é ergódico e, por isso, o sucesso passado das medidas tomadas não nos permite prever o seu sucesso futuro, resta-nos acreditar, como Alan Greenspan, na resiliência da economia americana.