(continuação)
A conversa prolonga-se pelo jantar, numa mistura de japonês e inglês. Dizem-me outros académicos japoneses que os nossos conceitos e formas de nos relacionarmos com a paisagem parecem não coincidir. Ninguém se atreve, contudo, a fazer generalizações. Na semana seguinte, uma viagem de trabalho pelas regiões de Kyoto, Nara e Hyôgo, no contexto de um projecto dedicado ao estudo do espaço na cultura japonesa que o meu departamento coordena, ajuda-me a articular melhor as perplexidades geradas pelo debate. O projecto tem assumido principalmente a forma de «fieldworkshop» (FWS),  uma espécie de workshop/seminário itinerante que tem por objectivo experimentar, discutir e compreender in situ a estrutura do espaço japonês. A abordagem tem decerto longas tradições na Ásia, nas viagens e peregrinações dos poetas e monges budistas, mas ocorre-me também, a propósito, a imagem dos filósofos gregos da escola peripatética, reflectindo e ensinando enquanto caminhavam. (Comentei isto com um companheiro de viagem, que anotou entusiasticamente a ideia num pequeno caderno).

Neste último FWS privilegiou-se a visita a templos xintoístas (grande parte deles hoje periféricos e fora dos habituais circuitos turísticos), pois a sua localização – face aos cursos de água, por exemplo –, história(s) e relações com as comunidades locais são tidas como fundamentais para se compreender o modo como os japoneses se foram relacionando com a paisagem e o lugar ao longo dos tempos. E é no decurso destas caminhadas que me vou apercebendo de diferenças radicais entre as atitudes que observo nos meus companheiros de viagem – académicos e estudantes das mais variadas formações: Filosofia, Antropologia, Estudos Budistas, Arquitectura, Engenharia Fluvial… – e as dos universitários com quem até agora convivi na Europa.

Na altura abstenho-me de fazer comentários comparatistas, mas, em silêncio, com os meus botões, não resisto. Desde logo, o diálogo inter-, ou melhor, trans-disciplinar, fora do ambiente claustrofóbico e egocêntrico das conferências e seminários académicos, constitui novidade para mim. Para além disso, a generalidade da literatura académica sobre a paisagem sempre me pareceu demasiado abstracta, desenraízada, distante da experiência do corpo e dos sentidos. Paisagens de papel, em suma, com um predomínio esmagador da visão em detrimento dos outros sentidos. Em contraste, os meus companheiros não discutem sofisticadas teorias à ocidental: contam e ouvem histórias sobre os deuses (kami-sama) do lugar, desenham, fotografam,  especulam sobre o significado e acerto das alterações no curso de um rio em resposta às sucessivas cheias na região. Fico com a convicção de que os japoneses privilegiam muito mais a intuição do que a lógica nas suas formas de pensar e de que têm uma enorme relutância em deixar o racionalismo levá-los ao ponto de tomarem demasiada consciência da sua separação face às pessoas e às coisas que os rodeiam.

Procuro resistir ao juízo inicial de que estas atitudes são pouco «científicas» e cheias de lacunas metodológicas, face aos pontos de vista que me foram incutidos durante a minha formação escolar e académica. E, aos poucos, procuro também ver as tradições ocidentais com algum distanciamento, no que têm de mais admirável – e detestável.

PS Para os eventuais interessados, postei mais imagens aqui: FWS 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14.