Há um mês apresentei pela primeira vez uma comunicação numa conferência no Japão, da Japanese Society for Kansei Engineering (JSKE). A JSKE é uma peculiar invenção nipónica (já com ramificações na Europa) que pode traduzir-se por «Engenharia Sensória». Estando mais vocacionada para a concepção e design de produtos, possui também uma vertente filosófica – marginal, é certo – que se tem vindo a tornar crescentemente interdisciplinar em anos recentes. A minha participação foi neste último domínio, com um paper sobre as relações entre a literatura, a paisagem e o design dos museus literários.
Apesar da insistência prévia de alguns colegas, não me atrevi ainda a apresentar a comunicação em japonês. Dez minutos estritamente cronometrados é pouco, muito pouco tempo para se conseguir falar de uma forma pausada e perceptível numa língua complexa que domino no dia-a-dia, mas que ainda me causa dificuldades substanciais a nível académico. Preferi não arriscar e optei pelo inglês. As questões, porém, foram-me colocadas em japonês (e também estritamente cronometradas, claro). Um professor de Arquitectura pergunta-me qual é a modernidade do conceito de paisagem que acabo de apresentar. Estranho a questão e vejo-me forçada a devolvê-la: qual é o conceito de «modernidade» que ele tem em mente? (E isto para já não falar das dificuldades acrescidas que a questão da configuração histórica da modernidade japonesa coloca, com a abertura tardia – e forçada – ao Ocidente na segunda metade do séc. XIX). Entretanto, por limitações de tempo e para preencher o silêncio gerado, vou adiantando que, no que à teoria da paisagem diz respeito, o Romantismo constitui um marco importante na Europa, com consequências profundas e ainda hoje visíveis nos mais variados domínios, desde a Poesia à Arqueologia. E acrescento que a «modernidade» do conceito poderá talvez relacionar-se com o sentido de perda, separação e nostalgia que a paisagem evoca no sujeito – com a ressalva de que se trata aqui de uma perspectiva muito ocidental ou, pelo menos, europeia…
Nota sobre a foto: Templo xintoísta de Iwashimizu Hachimangu, em Iwata, Kyoto.
(cont.)

Eu nem sei o que dizer. Apenas que me delicío a ler estas crónicas. Esquece o Campo Alegre, Daniela. Parece-me que estás a ter uma experiência extraordinária.
Comment by Hugo — April 2, 2008 @ 1:55 pm
“Esquece o Campo Alegre”…
Campo Alegre?… Mas de que é que estás a falar?! O único Campo de que me recordo, e sem saudades, é um Campo Triste, que, pelo que ouço, anda cada vez mais deprimido e cabisbaixo… Hopeless.
“Parece-me que estás a ter uma experiência extraordinária.”
Then wait till you read Part II… “;o)
Comment by DK — April 2, 2008 @ 2:14 pm