A taxa de pobreza em Portugal ronda os 20%. Na União Europeia, o mesmo índice queda-se pelos 16%. Os dados foram apresentados por Carlos Farinha Rodrigues que nos disse mais. Disse-nos que, antes de distribuídos os apoios sociais, a taxa de pobreza portuguesa é similar à europeia (pouco mais de 40 por cento). A conclusão é óbvia, as políticas de redistribuição em Portugal são pouco eficazes.

A definição do salário mínimo representa um dos aspectos fulcrais nas políticas de combate à pobreza e de redistribuição do rendimento. Quando se impõe um salário mínimo, suficientemente alto para que um número relevante de trabalhadores dele beneficiem, os custos salariais das empresas aumentam, os lucros diminuem e os efeitos redistributivos são imediatos.

Infelizmente, a existência de um salário mínimo tem custos. O aumento dos salários torna as empresas menos competitivas nos mercados internacionais e é um estímulo a que se desloquem para o estrangeiro em busca de menores salários. É assim possível que o salário mínimo prejudique quem mais devia beneficiar dele: os trabalhadores desqualificados, indiferenciados e sem poder negocial, que se podem ver atirados para o desemprego.

Há ainda outro problema. Sendo o salário mínimo uma política de combate à pobreza, os encargos a ele associados são totalmente suportados por uma minoria. Imagine-se uma empresa onde trabalham 100 pessoas que recebem o salário mínimo. Um aumento do salário mínimo de apenas 20 euros traduz-se num aumento dos custos de 34 650 euros anuais. Do ponto de vista desta empresa, a situação é equivalente a um aumento de impostos de quase 35 mil euros. Ao se aumentar o salário mínimo penalizam-se empresas e empresários que exercem uma acção social muito importante que é a de empregar trabalhadores pouco qualificados, muitas vezes envelhecidos e sem hipóteses de requalificação profissional. Negar esta evidência é negar a realidade do nosso país.

Economistas de diversas ideologias (desde o liberal Milton Friedman ao social democrata Edmund Phelps) propõem uma alternativa mais eficiente. Que não haja um salário mínimo, mas que os trabalhadores com salários mais baixos vejam os seus rendimentos complementados com um subsídio. Este subsídio pode tomar diversas formas, desde abonos de família a taxas de imposto negativas para os escalões mais baixos de IRS. Do ponto de vista do trabalhador é equivalente à existência de um salário mínimo, mas esta política de redistribuição de rendimento é paga por todos nós e não por cada empresa individualmente. Desta forma, a protecção social não é conseguida à custa da competitividade das empresas e não causa uma maior rigidez no mercado de trabalho. Pelo contrário, uma política deste tipo facilita o emprego dos trabalhadores não qualificados. Reforça a coesão nacional, aumentando as transferências das regiões mais ricas para as mais deprimidas.

O defeito desta proposta é que se corre o risco de se subsidiar empresas especializadas em mão-de-obra barata. Uma solução equilibrada passaria pela existência de um salário mínimo bastante moderado contrabalançado com um subsídio aos salários mais baixos, minimizando-se os efeitos perversos associados a cada uma das soluções.

Com as eleições que se aproximam e os défices orçamentais em queda, cada vez é mais provável que o governo baixe os impostos. Discute-se se a descida dos impostos deve incidir sobre o IVA ou sobre o IRS. Tanto uma hipótese como a outra passam ao lado dos dois milhões de pobres que nos deviam envergonhar. Um subsídio aos salários mais baixos ou, em alternativa, a criação de um escalão de IRS com taxas de imposto negativas seria socialmente mais equitativo e economicamente mais eficaz.

Público, Sexta, 28 de Março de 2008

P.S. Apesar de publicado depois, este artigo foi, obviamente, escrito antes do anúncio da descida do IVA. Para manter a sua actualidade onde está "Discute-se se a descida dos impostos (…)" deve ler-se "Discute-se se futuras descidas de impostos devem (…)"