Não considero que a anunciada descida do IVA de 21% para 20% pelo Governo de José Sócrates possa ser vista como uma medida eleitoralista. Pelo contrário, penso mesmo que se esta medida for bem explicada poderá contribuir para reforçar a credibilidade do Governo. Apresento três argumentos nesse sentido.

Os aumentos de 17% para 19%, durante o Governo de Durão Barroso, e de 19% para 21%, no Governo de José Sócrates, foram apresentados como medidas extraordinárias necessárias para que Portugal pudesse cumprir o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Dado o sucesso deste Governo na contenção do défice público, que atingiu em 2007 o valor histórico de 2,6% do PIB – histórico sobretudo porque é conseguido num contexto de baixo crescimento económico – baixar a taxa do IVA para 20% é antes de mais uma mensagem muito positiva relativamente aos compromissos que os Governos de Portugal assumiram com os portugueses. Dado que, de acordo com o anunciado, a razão para a anterior subida do IVA (o elevado défice das contas públicas) deixou de existir, o Governo pôde cumprir a promessa feita (se calhar já esquecida pelos portugueses). Assim, nesta medida do Governo destaco antes de mais o seu contributo para restabelecer a confiança entre os nossos Governantes e os cidadãos. Esta medida é tanto mais importante nesta altura quanto o Estado português enfrenta de acordo com muitos analistas (veja-se o documento recentemente publicado pela SEDES) uma das suas mais graves crises de credibilidade. O momento escolhido para anúncio da descida do IVA não podia por isso ter sido mais acertado. Ou seja, não é eleitoralista esta medida.

Num contexto de aumento de custos (subida do preço das matérias-primas e da energia) as margens das empresas terão com a descida do IVA um ligeiro bálsamo. Por esta via pode ser benéfico para os consumidores, dado que pode limitar a subida dos preços e ajudar a conter a subida da inflação. Se assim for, mais uma vez esta medida poderá contribuir para restabelecer ou reforçar a credibilidade do Governo, dado que ajudará a cumprir outra promessa: a de que os funcionários públicos não perderiam poder de compra em 2008. Mas os consumidores/eleitores não vão sentir nada, pelo menos directamente através de uma descida dos preços. Logo esta anunciada descida do IVA não é uma medida eleitoralista.

Finalmente, a descida do IVA e consequentemente das receitas fiscais, num quadro em que o Governo está obrigado aos compromissos do PEC, será mais uma restrição à subida da despesa. Esta descida dos impostos pode assim funcionar como um sinal de que o Governo pretende continuar com as suas reformas e reduzir o peso do Estado na economia, uma condição essencial para restabelecer a competitividade da economia portuguesa. Ou seja, esta medida será mais um travão ao crescimento da despesa e não poderá, também por isso, ser considerada uma medida eleitoralista.

Esclarecimento: nesta análise procuro apenas aplicar alguma teoria económica sobre os possíveis efeitos da descida do IVA. O meu comentário não deve ser entendido como um juízo das intenções do Governo.