A grande estratégia do actual Governo, quando chegou ao poder há três anos, era dar uma nova dinâmica à economia portuguesa aplicando-lhe um Choque Tecnológico. Este conceito tem um significado muito preciso na literatura económica. De uma forma simplificada, um choque tecnológico positivo, pode representar aumentos na produção, sem que seja necessário aumentar a quantidade de capital e a quantidade de trabalho. Ou seja, o Governo apresentou-se ao país com o objectivo de aumentar a produtividade da economia.

Essa estratégia pareceu e parece adequada a muitos economistas, porque atacaria o principal problema da economia portuguesa, isto é, a baixa produtividade dos seus factores produtivos. Aumentos da produtividade são o único caminho possível para aumentar o crescimento da economia portuguesa no longo prazo e esta retomar a convergência para os níveis de rendimento dos países mais ricos da Europa.

No fundo, o objectivo assim anunciado não era mais do que uma nova forma de enunciar um velho problema da ciência económica e também da economia portuguesa: como é que podemos tornar-nos tão ricos como os países mais ricos?

Um primeiro comentário a fazer a este objectivo é que o seu cumprimento não pode ser avaliado no final de uma legislatura de quatro anos. Aumentar a produtividade de um país, ou seja, ter trabalhadores, empresas e um Estado mais eficiente, não pode ser conseguido em tão curto período. O Governo não pode ser avaliado pelo cumprimento deste objectivo.

No entanto, podemos discutir o que tem sido feito para conseguir aumentar a produtividade dos portugueses e se as medidas tomadas nos colocam no bom caminho. De entre essas, destacam-se as tentativas de reforma do sector da educação nos seus diferentes níveis. Os esforços neste sentido por parte do Governo são evidentes. Do ensino básico ao secundário, e no ensino universitário foram e estão a ser feitas reformas muito profundas.

No entanto, a manifestação da semana passada não é um bom indicador de que as reformas estejam a ser feitas da melhor maneira – embora pudesse ser. A manifestação foi despoletada pela introdução do sistema de avaliação, mas foi o resultado do acumular de tensões resultantes das mudanças que têm sido introduzidas nas escolas e que têm afectado a vida dos professores (estes têm sido, por exemplo, uma classe muita penalizada em termos de perda de poder de compra). Muitas dessas mudanças introduzidas pelo Governo têm sido positivas, das aulas de substituição ao prolongamento dos horários, mas também o novo modelo de gestão das escolas.

Já o processo de avaliação dos professores me parece que enferma de alguns dos defeitos mais evidentes deste Governo: a incapacidade de descentralizar, de explicar e de definir os prazos de implementação das reformas. Que sentido faz iniciar um processo de avaliação a meio do ano lectivo? Que sentido faz querer avaliar os professores sem primeiro fazer uma cuidada avaliação das escolas? Como é que se podia esperar que fosse aceite um processo de avaliação dos professores quando as avaliações públicas que existem das escolas portuguesas têm sido feitas por jornais? Onde está o papel das autarquias? Estas deviam ser as primeiras a exigir ao Estado que as escolas do seu município apresentassem bons resultados em avaliações nacionais, e deviam querer ter um papel directo na sua gestão.

O que interessa aos pais, e ao país é a qualidade das escolas e não a avaliação de um professor específico. Essa avaliação devia ser um problema de gestão das escolas. O Governo ao não dar mais autonomia às escolas antes de iniciar o processo avaliação dos professores tornou este problema num problema nacional e pode ter posto em causa a reforma de um sector essencial. Com isto pode adiar para um futuro longínquo a chegada do Choque Tecnológico.