Empregabilidade de curta e longa duração dos licenciados no estudo do MCTES
Já aqui salientei a importância da divulgação do número de inscritos por curso e instituição pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (MCTES). Embora a avaliação dos cursos não possa ser reduzida à sua empregabilidade, esta variável é da maior importância para as escolhas dos candidatos ao ensino superior.
No entanto, há diversos aspectos a ter em conta na análise do relatório “A procura de emprego dos diplomados com habilitação superior”, publicado pelo MCTES.
Com base nos dados publicados, o indicador mais adequado do grau de integração dos licenciados no mercado de trabalho é, por analogia com a taxa de desemprego publicada pelo INE (rácio desempregados/população activa), a taxa de desemprego por curso/instituição, isto é, o número de licenciados desempregados sobre o número de diplomados por curso/instituição.
No entanto, a realização deste cálculo com a informação disponível no documento do MCTES coloca vários problemas, dada a descoincidência temporal entre o numerador e o denominador. Isto é, o número de licenciados desempregados registados nos Centros de Emprego refere-se a 2007, enquanto os diplomados se referem ao período 1996-2006. Esta discrepância temporal não seria muito grave se este período não tivesse sido afectado pelo Processo de Bolonha. As universidades que adequaram mais cursos em 2006/2007 (as Universidades de Aveiro, Lisboa, Nova, Minho, Técnico, Algarve e o ISCTE adequaram mais de 60% dos seus cursos em 2006/2007) e que reduziram a sua duração (por exemplo, Economia e os cursos da área das ciências sociais em geral) registaram, em 2007, um aumento muito significativo no número de licenciados, tendo este duplicado em muitos casos. Este facto por si só enviesa o número de licenciados inscritos nos Centros de Emprego, prejudicando as instituições que estiveram na primeira linha da adequação dos seus cursos aos princípios de Bolonha.
De facto, utilizando regressões simples, conclui-se que os cursos que aderiram a Bolonha em 2006 têm uma maior proporção de indivíduos à procura do primeiro emprego há menos de 12 meses no total dos desempregados. Este efeito deverá dissipar-se no curto prazo, dado que resulta do processo de transição entre o antigo formato (mais longo) e o novo formato (mais curto).
Uma forma de minorar o enviesamento acima referido seria não considerar no cálculo do desemprego os licenciados inscritos nos Centros de Emprego há menos de 12 meses e que procuram o primeiro emprego, ou seja o desemprego de curta duração. Nas licenciaturas em Economia a taxa de desemprego de longa duração não ultrapassa os 1,2% - também se pode fazer um ranking com estas taxas, mas como outros que já foram publicados não me parece que seja muito informativo. Mais informativa é a baixa taxa de desemprego de longa duração entre os licenciados em Economia e os baixos números dos licenciados nessa situação.

O meu forte não é estatística, apesar de a ter que utilizar em alguns dos meus trabalhos de investigação. Também não é a inserção de diplomados no mercado de trabalho. Todavia, parece-me que a única forma consistente e até diria séria de aferir sobre a empregabilidade dos cursos do ensino superior é através da realização de inquéritos através de estruturas normalmente designadas de observatórios de emprego. Na faculdade na qual trabalho já se realizaram dois estudos, um em 2002 e outro em finais de 2006, que inquiriram o universo dos licenciados das várias áreas académicas. Estes estudos permitiram avaliar, entre outras variáveis, o tempo de procura entre a obtenção do diploma e o primeiro emprego, o tipo de emprego, a adequação entre a formação académica e as exigências do posto de trabalho, o salário auferido, a satisfação com o nível salarial por comparação com outras formações similares, etc. Esta é a informação que deveria ser disponibilizada às famílias e aos candidatos ao ensino superior. É mais difícil de ler e de interpretar, mas parece-me inquestionavelmente mais sólida do que aquela que foi disponibilizada pelo MCTES.
Apenas ressalvo o facto de entender que não deveriam ser as instituições do ensino superior a realizarem estes estudos, mas instituições credíveis externas às faculdades ou universidades para evitar a tentação de “suavizar” os números, cenário que acredito não ter sucedido na faculdade na qual trabalho até porque o relatório não foi tornado público.
Comment by PJ — March 5, 2008 @ 3:13 pm
Mas um curso cuja taxa de empregabilidade é baixa é, à partida, mau aos olhos de Mariano Gago, não é?
Comment by Ex-Anónimo — March 5, 2008 @ 5:47 pm
“Mas um curso cuja taxa de empregabilidade é baixa é, à partida, mau aos olhos de Mariano Gago, não é?”
Penso que não só aos olhos do ministro Mariano Gago. Eu diria que aos olhos de qualquer pessoa.
Comment by LA-C — March 5, 2008 @ 6:07 pm
“Penso que não só aos olhos do ministro Mariano Gago. Eu diria que aos olhos de qualquer pessoa.”
Não sei se a expressão “o curso é mau” será a mais apropriada (a menos que estejamos a comparar cursos da mesma área, p.ex., Economia do ISEG com Economia do Algarve) - se um curso for, em termos técnicos/cientificos, bom mas tiver muitos alunos em comparação com a procura no mercado de trabalho e assim pouca empregabilidade, poderemos dizer que o curso é mau?
Comment by Miguel Madeira — March 5, 2008 @ 6:18 pm
Tal como o Fernando Alexandre, não penso que a empregabilidade seja o único factor relecante, mas não tenho dúvidas em considerá-lo como muito relevante.
Comment by LA-C — March 5, 2008 @ 8:23 pm
Portanto, os cursos de Linguas Clássicas, Filosofia, História ou eng. Química são todos uma valente porcaria.
Comment by Ex-Anónimo — March 5, 2008 @ 9:52 pm
“Portanto, os cursos de Linguas Clássicas, Filosofia, História ou eng. Química são todos uma valente porcaria. ”
Não tenho grande conhecimento de causa sobre os cursos em concreto que aponta (os únicos sobre os quais falo mais à vontade são os de Economia e, vá lá, de Gestão), mas parece-me que não. Estas análises são sempre feitas em termos comparativos e com certeza haverá uns bons e outros maus.
Se me diz que os licenciados de todos esses cursos de todas as universidades têm imensas dificuldades em encontrar trabalho… então nesse caso parece-me razoável concluir que há um desajuste entre oferta e procura em vez de se concluir que nenhum presta.
Sugiro-lhe a leitura do outro post do falex e, se tiver acesso, do artigo que lá está linkado.
Comment by LA-C — March 6, 2008 @ 12:14 am
Avaliar a empregabilidade dos licenciados (ou o desemprego em geral) com base no número de inscritos nos centros de emprego tem evidentemente debilidades. Por exemplo, os dados anteriores indicavam que haveria 60 000 licenciados desempregados e o número de inscritos nos centros de emprego não chega aos 40 000. É também verdade que alguns inscritos podem já ter emprego.
O uso de inquéritos tem muitas vantagens, sobretudo porque permite avaliar outras dimensões da empregabilidade e dos percursos profissionais dos licenciados. Nomeadamente, o tempo que demoraram a encontrar o primeiro emprego, em que local, sector e qual o salário, quantas vezes mudaram de emprego desde que acabaram o curso, a importância das competências adquiridas no curso para as funções que ocupam actualmente, etc. Foram essas as dimensões que a minha colega Carla Sá procurou avaliar no inquérito aos licenciados em Economia do Minho: http://www.eeg.uminho.pt/uploads/EEG12022007InqLicEcon.pdf.
É muito importante que as instituições de ensino superior realizem inquéritos desse género aos seus ex-licenciados, e se possível também aos empregadores, e que utilizem essa informação para avaliar e melhorar os seus curricula.
Em relação à importância da empregabilidade dos cursos, como disse o LAC, é uma variável de grande importância para a escolha do curso, dado que é para a maioria das famílias um investimento considerável.
Mas isso não significa que não possa haver procura e oferta de cursos de áreas com uma baixíssima empregabilidade. Por exemplo, em Inglaterra, o curso de História é um dos mais populares, mas os que o frequentam têm já outro curso e querem aprender história da Inglaterra e da Europa ‘for the sake of knowledge’. Se um dia houver este tipo de procura pelo curso de História, e uma oferta adequada a esse público, poderíamos resolver o problema grave da quase completa ignorância que existe sobre a história de Portugal. Ou seja, espero que os Departamento de História, e já agora de Filosofia, não desapareçam das nossas universidades (pelo menos da minha).
Comment by Fernando Alexandre — March 6, 2008 @ 10:47 am
Pois, na UMinho, se o reitor pudesse fechava, por exemplo, o curso de História hoje…
Comment by Ex-Anónimo — March 7, 2008 @ 10:45 am
Eu diria que a riqueza arqueológica e histórica, nomeadamente a relativa ao Império Romano, da cidade de Braga e Guimarães por si só justificam Departamentos/Núcleos de investigação na UMinho naquelas áreas.
Comment by Fernando Alexandre — March 7, 2008 @ 11:07 am
Apesar da falta de coincidência temporal entre os valores do numerador e do denominador, os rácios podem e devem servir de indicador, mas, como é óbvio, apenas até ao momento da reestruturação dos cursos pelo processo de Bolonha. Só a título de exemplo: os rácios de RI e Economia na Universidade do Minho são de 10% e 11% respectivamente. Os de Gestão e de Administração Pública são de 7%. Tanto RI como Economia não fizeram planos de transição e tiveram um pico de diplomados em 2006/2007. Já Gestão e Administração Pública têm planos de transição e o pico de licenciados deverá ocorrer no ano lectivo de 2007/08. Isto pode ajudar a explicar essas diferenças.
Por outro lado, e correndo o risco de me contradizer, incomoda-me que só nos concentremos em rácios. Os números absolutos também são relevantes. Economia na FEP tem 124 desempregados registados e 2333 licenciados no período de 1996/97 a 2006/07, o que corresponde a 5,3%. Economia no Minho tem 56 desempregados registados em 510 diplomados, uma taxa de 11%. Apesar da taxa do Minho ser o dobro da FEP, os números absolutos têm significado real para a vida destas pessoas. O facto é que existem mais 68 desempregados com o curso de Economia na FEP. Não fiz contas aos desempregados de longa duração, mas é possível que essas contas confirmem esta ideia… Em casos como este, não seria de reequacionar o número de vagas?
Comment by Fernando — March 7, 2008 @ 4:07 pm
A taxa de desemprego de longa duração mais elevada em Economia é 1,2% da FEP. Como já disse este valor é muito baixo para que o desemprego dos economistas possa ser considerado um problema muito grave. O Minho tem 3 alunos nessa situação, uma taxa de 0,6%.
Embora a FEP ainda não tenha adequado o curso de Economia a Bolonha, todos os outros adequaram e o ano passado o número de licenciados em Economia a entrar no mercado deve ter aproximadamente duplicado. Esse aumento na oferta afectou toda a gente.
Consideraste Gestão e Gestão de Empresas nas tuas contas?
Comment by Fernando Alexandre — March 7, 2008 @ 5:47 pm
“Tanto RI como Economia não fizeram planos de transição e tiveram um pico de diplomados em 2006/2007. ”
Que história é esta de dizeres que Economia não teve planos de transição´?
Comment by LA-C — March 7, 2008 @ 6:04 pm
Fernando: Estou de acordo contigo. O desemprego de longa duração é mais relevante em termos de empregabilidade.
Sim, Gestão+Gestão de Empresas = 710 diplomados.
“Que história é esta de dizeres que Economia não teve planos de transição´?”
Em 2006/07 foram definidos 3 planos para os alunos de AP, de modo a contemplar o estágio curricular:
-Os inscritos no 4º ano terminavam o curso com 4,5 anos (plano antigo);
-Os inscritos no 3º ano terminavam o curso com 4 anos (plano de transição 1);
-Os inscritos no 2º ano terminavam o curso com 3,5 anos (plano de transição 2);
-Apenas os alunos inscritos no 1º ano terminariam com 3 anos (plano de Bolonha).
Resultado: Os alunos que terminam Economia este ano têm um curso de 3 anos. Os alunos que terminam AP este ano têm um curso com 4 anos. Os nossos primeiros licenciados de Bolonha só sairão para o mercado em 2009/2010.
Comment by Fernando — March 7, 2008 @ 8:08 pm
Mas o que é que isso tem a ver com Economia ter tido plano de transição ou não?
Comment by LA-C — March 7, 2008 @ 8:40 pm
Ó Luís! Queres que te faça um desenho?! Sem planos de transição, Economia teve muito mais diplomados no ano de 2006/07 do que é habitual, o que significa que os valores de recém-licenciados desempregados estão inflacionados artificialmente pelo processo de Bolonha. Os de AP e Gestão não, porque o processo é muito mais faseado.
Comment by Fernando — March 7, 2008 @ 9:24 pm
Fernando, claro que houve plano de transicao! Houve ate’ dois. Houve um plano para os alunos que passaram para o terceiro ano e houe ouro plano para os alunos que passaram para o segundo. So’ nao houve plano de transicao para os alunos do primeiro ano porque para esses havia o novo plano totalmente adequado a Bolonha.
Haver planos de transicao, ou nao, nada teve a ver com o numero de diplomados desse ano excepcional.
Comment by LA-C — March 7, 2008 @ 10:45 pm
Ok, mas percebeste o que eu queria dizer…
Comment by Fernando — March 7, 2008 @ 11:01 pm
Confesso que, no inicio, nao.
Comment by LA-C — March 7, 2008 @ 11:15 pm
Sem querer entrar muito na questão das empregabilidades dos cursos, tenho algumas dúvidas que gostava de partilhar:
Qual é a definição de desemprego voluntário em termos exactos? Alguém que não procura emprego num raio superior a 20 km das suas casas deve ser considerado uma vítima do sistema ou das suas próprias limitações de visão e/ou ambição?
Isto para dizer que acabei o curso de economia na UM no ano passado, estou a trabalhar em Lisboa numa das maiores empresas do mundo da especialidade e, apesar de tudo, não fui um aluno brilhante durante todo o curso. Pelo que sei, uma grande maioria dos “desempregados” que se licenciou comigo, não procurou sequer emprego no Porto, quanto mais Lisboa. Por muito respeito que tenho para com essas pessoas como ex-colegas, não percebo como se podem queixar de desemprego. Eu sei que Lisboa não é o ideal de muita gente. Meu até. Mas viver à custa dos pais até aos 30, ou para que é muito mau, ou para quem quer. Lamento a frontalidade, mas é mesmo assim.
PS-Parabéns pelo reforço de primavera. Parece que os blogs tem épocas de contratações mais alargadas. Ainda bem!
PS2-Eu fiz parte do plano de transação! =)
Comment by Kordny — March 9, 2008 @ 3:45 am
“Qual é a definição de desemprego voluntário (…)?”
Excelente pergunta. Partilho das tuas dúvidas.
Comment by LA-C — March 9, 2008 @ 10:31 am