Bolonha vista pelos bares e discotecas de Braga
Desde que se falou na introdução do paradigma de Bolonha no ensino superior que se houve falar depreciativamente na "Bolonha à portuguesa". Muitas vezes ouvi o argumento de que Bolonha serviria, essencialmente, para reduzir os custos do ensino superior sem qualquer melhoria no ensino. Que em Portugal flexibilidade era sinónimo de displicência. Que os novos cursos de três anos valeriam o mesmo que os antigos bacharelatos e que os novos mestrados não valeriam mais do que as antigas licenciaturas.
Nunca fui dessa opinião. Falo em particular do curso de Economia da minha Univerisidade, sempre considerei que Bolonha era um excelente pretexto para rever os cursos de alto a baixo. Uma bela ocasião para corrigir erros estruturais que dificilmente são corrigidos com pequenas revisões. Uma oportunidade para responsabilizar o estudante pela sua formação. Sempre defendi que, com o enquadramento correcto, era possível fazer muito mais em três anos do que o que era feito nos antigos cursos de 4 ou 5 anos.
Lembro-me das primeiras reacções de quem viu os novos horários de Economia: “os estudantes praticamente não têm aulas!! Vão sair daqui sem saber nada…”. Acreditar que a redução da carga lectiva seria mais do que compensada pelos trabalhos que os alunos teriam de fazer sozinhos, ou em grupo, entrava no campo da fantasia. Agitava-se o eduquês (que também me desagrada) como o espantalho dos novos tempos. Enfim, todos conhecemos o discurso.
Na última edição do “Académico”, vejo que, afinal, os lunáticos irrealistas tinham razão. Pelo menos aqui na Universidade do Minho, o processo de Bolonha não foi sinónimo de facilitismo, nem de irresponsabilidade, ou de preguiça. Pelo contrário. Num inquérito aos negócios da noite, bares e discotecas, os jornalistas descobriram que “os bares estão vazios. Apesar da música e das luzes continuarem a convidar à visita, em alguns dos bares mais conhecidos da comunidade académica, a verdade é que cada vez menos gente passa pela porta de entrada.” Diz o gerente do Face Café “fizeram bem em adoptar o modelo de Bolonha mas ele está mal estruturado, porque é em demasia. Por aquilo que eu tenho conhecimento, há cursos que numa semana têm uma data de trabalhos, frequências e exames para fazer. É tudo muito esgotante”. Acrescenta ainda que viu tal estado na noite. Nem mesmo a quarta-feira, dia académico por excelência, se salva deste cenário de crise. Ana Catarina, estudante do terceiro ano de Direito, explica que “Bolonha veio estragar a noite aos estudantes. O regime de testes e trabalhos não dá para conciliar com a noite. Temos que ir às aulas, porque conta a assiduidade, os trabalhos são quase semanais sempre com apresentações e os testes também são praticamente semanais. Quase não sobra tempo para a vida social”.
Mas claro, como em tudo, há quem se saiba adaptar aos novos tempos. Nas palavras de Mónica Afonso, do Café Terminal, nem tudo é mau: “muitos estudantes ocupam o seu lugar na mesa de café ao início da tarde, para estudar, e aí permanecem até ao final do dia.”

Embora reconhecendo mérito na conclusão do “Académico” e desconhecendo os actuais meandros da vida académica universitária, gostaria de sugerir que, provavelmente, a ausência dos estudantes dos habituais zonas de convívio nocturno se deve em parte ao apertar do cinto que muitos que obriga muitos a absterem-se de veleidades.
Comment by Octávio Lima — December 10, 2007 @ 12:06 pm
Essa possibilidade é explorada pelos jornalistas que a rejeitam. Claro que, na minha opinião, não pode ser posta completamente de lado até termos uns anos de maior desafogo económico. Posso no entanto dizer-te que os alunos, em geral, consideram que trabalham muito mais com os cursos adequados a Bolonha do que trabalhavam antes. Eu tenho a mesma opinião, claro, caso contrário não teria aqui dado destaque a esta notícia.
Comment by LA-C — December 10, 2007 @ 12:21 pm
Infelizmente, acho que a abordagem que tivemos na nossa Escola (pelo menos em Economia e Gestão) é claramente minoritária no panorama da UMinho e mesmo das nossas áreas no contexto nacional. Sintoma disso são:
a) Os mestrados como clara continuação (às vezes com o mesmo nome) das licenciaturas.
b) Os mestrados integrados inenarráveis no contexto europeu.
c) Os pedidos de equivalência que recebemos nos mestrados, com o argumento “5=3+2″.
Em muitos lugares fez-se isso mesmo: pegou-se em “5″ e dividiu-se em “3+2″. Ora isso não é Bolonha. Eu estou convencido que, a manter-se o “momentum”, em que a maioria dos docentes alterou de facto o processo de ensino-aprendizagem, os nossos novos licenciados aprendem muito mais do que os licenciados pré-Bolonha (”3>4/4,5″).
Comment by Artur Rodrigues — December 10, 2007 @ 12:47 pm
Folgo muito com a forma como o Prof. Doutor LA-C deixa claro que aqui ninguem venha a contar com facilidade. Nem com facilidades, nem com noitadas nem comportamentos viciosos que noutras paragens (pelo meu tempo falo…) constituem a regra! Quando a UM abriu, foi muito contestada a poltrona do Senhor Arcebisbo que se encontra na sua sede. Ora esta visa mostrar aos forasteiros que a UM tem moral, pudor e respeito para juntar ao seu saber livresco. Muito bem, LA-C!
Ramiro Paes da Silva
Comment by Joaquim Paes da Silva — December 10, 2007 @ 1:33 pm
Ramiro, Prof. doutor aqui no blogue não. Agradeço-lhe o cuidado, mas gosto de manter alguma informalidade na Destreza das Dúvidas.
Comment by LA-C — December 10, 2007 @ 1:55 pm
Parece que aqui no Porto encontraram outra maneira de acabar com a noite: rajadas de metralhadora! Venha Bolonha que doi menos!
Comment by Rui Cavaco — December 11, 2007 @ 1:49 am
Do ponto de vista pedagogico, eu entendo a enfase na avaliacao continua. Contudo, nao estarao a correr o perigo de se tornarem uma universidade “teaching-oriented” em prejuizo da investigacao? digo isto sabendo que, ao contrario dos EUA ou dos UK, nao deve haver dinheiro para teaching assistants…
Comment by Vasco Gabriel — December 11, 2007 @ 6:55 pm
O perigo para que alertas e’, obviamente, real. Mas desde ha’ alguns anos que tem vindo a ser desenvolvidas estrategias para evitar esse perigo. Desde ha’ 4 ou 5 anos para ca’ ques as cargas lectivas medias por docente tem vindo a baixar.
Comment by LA-C — December 11, 2007 @ 7:28 pm
«gostaria de sugerir que, provavelmente, a ausência dos estudantes dos habituais zonas de convívio nocturno se deve em parte ao apertar do cinto que muitos que obriga muitos a absterem-se de veleidades.»
Octávio, acho que ficaria estupefacto com os preços praticados na noite universitária bracarense, durante a semana. Acredite que não é por aí!
No geral tem havido mais trabalho. Ou antes, o trabalho está mais distribuído ao longo do ano e não concentrado nas épocas de exames.
Comment by Jam — December 12, 2007 @ 12:25 am