É possível definir provincianismo de diversas formas. Uma delas, talvez a mais literal, será dizer que quem não é da capital é provinciano. De certeza que o dicionário, que diz que o Cigano é trapaceiro, impostor, agiota, astuto, velhaco e miserável, gosta desta definição de provinciano.
Talvez uma melhor definição de provinciano seja a de alguém que está limitado às suas fronteiras. Alguém incapaz de ver e reconhecer o outro, que por conhecer apenas as suas fronteiras não reconhece as várias capitais que garantem a diversidade. Provinciano é o contrário de cosmopolita, é o habitante da Caverna de Platão.
Quando saí de Lisboa, há cerca de 10 anos, e disse que vinha para Braga, a reacção de muitos colegas foi espantosa. "Braga? Tão interior? Ainda se fosses para Coimbra, mas Braga, tão interior!!" Maravilhado, tentei explicar que Braga ficava mais ao menos à mesma distância da costa Marítima que Coimbra, pelo que dificilmente seria mais interior…
Explicação vã. Rapidamente percebi que, na cabeça daquelas pessoas, interioridade era sinónimo de distância da capital. Depressa compreendi que, se estivesse em Espanha, no interior estariam as praias da Galiza e no litoral estaria Madrid.
Vem isto a propósito de uma entrada de Filipe Moura sobre a praxe. Tal como o Filipe, considero a maioria das praxes absurdas e estúpidas. Pior do que isso, o carácter humilhante e vexatório das praxes ensina os recém-chegados, os caloiros, a andarem de cabeça baixa e a obedecerem cegamente. Ou seja, ensina-lhes o contrário do que devem ser: pessoas orgulhosas, que andam de cabeça levantada e que não se deixam intimidar.
O problema com o Filipe não é esse. O problema é ele criticar a praxe por ser provinciana (algo que não contesto), mas, depois, apresentar como único argumento o facto de não conhecer nenhum lisboeta, a estudar em Lisboa, que seja praxista. Ainda se falasse dos lisboetas que foram estudar para fora de Lisboa… Ou seja, naquela cabeça luminosa, provinciano é quem não é de Lisboa. Cosmopolita é o lisboeta que de Lisboa e de casa dos pais não sai.
Não discuto a qualidade da amostra de Filipe, nem a sua ignorância sobre o resto do país. O que me choca é mesmo esta incapacidade de passar da sua minúscula fronteira. De pensar que cosmopolitismo é ir à Festa do Avante e ter amigos do Bloco. Não é provinciano, afinal esse epíteto está reservado para a "interioridade", é mesmo pacóvio.

Eu acho que a praxe é um resquício de tempos muito antigos. O facto de ainda hoje ser praticada nos moldes que é, não tem tanto a ver com a idade, sexo, cor, origem, destino do praxador. Tem mais a ver com a incapacidade de por em causa os “dead ends” evolutivos. Porquê que, por exemplo, nos nossos dias continuamos a usar talheres para o peixe qd a razão que lhes deu origem há muito se extinguiu? Aceito que as praxes tenham eventualmente tido na sua origem uma razão de existência válida, embora a desconheça por completo, mas há muito que esta se extinguiu, pelo menos nos moldes cavernícolas em que hoje se pratica. Basicamente acho que os praxadores são castradores da sua própria capacidade de questionar e reflectir sobre as razões e intenções dos seus actos.
Comment by verónica — November 1, 2007 @ 11:11 am
“Tem mais a ver com a incapacidade de por em causa os “dead ends” evolutivos.”
Penso que não é o caso - a praxe desapareceu nos anos 60 e foi restaurada nos 80, portanto não é algo que se mantenha por “força do hábito”
Comment by Miguel Madeira — November 1, 2007 @ 12:57 pm
Interessante, não sabia que as praxes tinham desaparecido nos anos 60. Mas faz sentido…
E desapareceram mesmo por completo? Ou houve algum pequeno núcleo de resistência que tenha subsequentemente aumentado a partir dos anos 80 e degenerado devido a efeitos de consaguinidade?
Comment by verónica — November 1, 2007 @ 11:08 pm
O Filipe Moura talvez não seja provinciano; mas parolo é seguramente.
Comment by Flanger — November 3, 2007 @ 10:36 pm
Devo confessar que esta entrada me despertou especial curiosidade.
Depois de introduzir no Google a palavra ‘provinciano’ aprendi que existe uma distinção muito interessante a fazer: antes temos de considerar e distinguir provincial de provinciano.
‘Ser provinciano é uma coisa negativa. O provinciano é o homem sem perspectiva, que não conhece e não imagina nada além da pobre cerca de seu quintal. O resto do mundo não existe para ele.‘
‘Já o provincial é o homem que assume a identidade de sua província, e é capaz de confrontá-la com as outras províncias do mundo. O provincial alarga as fronteiras de sua provincialidade. O provinciano esgota-se no seu provincianismo.’
Não posso concordar mais com tal distinção!
Considero o Filipe Moura, a avaliar pelo seu artigo, um provinciano astuto… Se algum dia decidisse procurar elaborar sobre este assunto, o Filipe seria um excelente ‘case study’.
Nasci em Braga, cresci em Braga… [será que isso faz de mim um provinciano?]
Saí de casa tarde, não para Lisboa! Vivi primeiramente na capital de um país considerado 20 anos atrasado em relação a Portugal. Depois disso vivi no coração [geográfico] da Europa, num país considerado 20 anos adiantado em relação a Portugal. Pelo meio, ainda vivi no coração do Golfo Pérsico onde as diferenças são tão gritantes que não atrevo a mensurar temporalmente!
Como bracarense, não me considero – de todo – provinciano! Sinto-me sim ‘provincialista’, mas apenas em relação ao meu país, não em relação à minha cidade ou região. Adorava dizer aos outros, ‘Portugal é um país fantástico’, e, de facto, é!
Considero-me também, preconceituoso e conservador! [Mas afinal, nós portugueses, não o somos todos?]
Comment by Aníbal Figueira — November 5, 2007 @ 7:08 pm
“Penso que não é o caso - a praxe desapareceu nos anos 60 e foi restaurada nos 80, portanto não é algo que se mantenha por “força do hábito””
Isto não é verdade. O meu pai esteve em Coimbra e Porto nos finais de 60 e inícios de 70, e esteve na praxe.
Comment by Snow — November 6, 2007 @ 3:57 pm
Caro Snow
A ideia que tenho é que foi em meados dos anos 80 que a praxe se reavivou em Coimbra. Penso que em Coimbra ela nunca se terá apagado, mas a seguir ao 25 de Abril era visto como um resquício salazarento. Foi só nos anos 80 e 90 que voltou com pujança.
Eu, em Coimbra, não me posso queixar, Nunca fui praxista e não precisei de me declarar anti-praxe, ou outra palhaçada do género, para que me deixassem em paz enquanto caloiro.
Comment by LA-C — November 6, 2007 @ 4:02 pm
Bom texto. Republiquei no http://norteamos.blogspot.com
Comment by Pedro Menezes Simoes — November 6, 2007 @ 4:07 pm
provincianismo é gostar de ouvir os gato fedorento fazerem piadas regionalistas… ah, mas esses são de lisboa. balha-me Deus, que pacóvios que estes são!!
Comment by António — November 6, 2007 @ 6:05 pm
Já agora, permitam-me apontar com orgulho, o Aníbal Figueira foi meu aluno.
E tem toda a razão na destrinça que faz entre provinciano e provincial.
Acrescento mais uma acha, com bastante orgulho, o cosmopolitismo de uma universidade vê-se não pelas origens dos seus alunos, mas sim pelos seus destinos, como tão bem ilustra o Aníbal Figueira.
Comment by LA-C — November 6, 2007 @ 6:12 pm
Nunca comentei no seu blogue que muito aprecio, mas urge desta vez defender o Filipe, mesmo se para tal se abandonar o politicamente correcto.
Quem nasce em Lisboa diz-se lisboeta; quem nasce na Provincia diz-se provinciano; dar a tal adjectivo valor prejurativo cabe a cada qual e Filipe fica longe de o fazer. Quando o Luis chegou um meio rural como o de Braga decerto se sentiu inadaptado, pelo menos na primeira semana. O mesmo sucede a muitos e muitas jovens que, chegando da Provincia a Lisboa, encontram nas praxes forma de se integrarem mais rapidamente. Factos.
Mais, o Filipe fica muito longe de dizer que a praxis constitui algo de reprovavel pelo facto de ser cultivada por gente de fora de Lisboa. Ele
diz apenas que a praxe deixaria de existir se fossem dadas outras oportunidades de acolhimentoi aos ditos estudantes provincianos. Vejo isto como correcto.
Articulo igualmente um repto aos regionalistas inflamados que malham a bom malhar no (caloiro)Filipe. Os porblemas nacionais discutem-se no parlamento nacional: porque temem tanto vir a Lisboa e trazer a lume todos esses queixumes? Venham, aproveitem e contem aos vossos amigos de Braga o que viram. Pode ser que comecem a gostar mais da capital…
Comment by Jaime Ventura — November 6, 2007 @ 6:23 pm
Jaime Ventura,
Leio a defesa que faz do Filipe Moura e fico sem saber como reagir. Este comentário que escreveu é a sério ou é apenas uma maldade que está a fazer ao Filipe?
Comment by LA-C — November 6, 2007 @ 6:34 pm
O comentário do Jaime Ventura é muito bom e demonstra que entendeu onde eu queria chegar, sem preconceitos antilisboetas (que é o que há mais no norte, principalmente no Porto). O Jaime entendeu-me muito bem e não me fez maldade nenhuma. Chamou-me “caloiro”, sim, mas olha que antes chamarem-me “caloiro” do que “provinciano”, “ignorante do resto do país” ou “incapaz de passar a sua minúscula fronteira”. Obrigado, Jaime!
Comment by Filipe Moura — November 6, 2007 @ 7:54 pm
“olha que antes chamarem-me “caloiro” do que “provinciano””
Então assumes que provinciano é um insulto. óptimo. Então deixa-me lembrar-te uma passagem aqui do Jaime Ventura: “Quem nasce em Lisboa diz-se lisboeta; quem nasce na Provincia diz-se provinciano”.
Quanto à ignorância sobre o resto do país está bem espelhada neste trecho: “um meio rural como o de Braga”…
Reparo também que Jaime Ventura escreve ainda “a praxe deixaria de existir se fossem dadas outras oportunidades de acolhimento aos ditos estudantes provincianos”
Ou seja, e sem margem para dúvidas, vocês associam a provinciano a não lisboeta. Eu pensei que o Jaime Ventura estava a gozar contigo e estivesse a ser irónico ou sarcástico, mas não afinal vocês são mesmo assim.
Leiam o comentário do Aníbal Figueira e aprendam. Provinciano não é quem vai estudar para Lisboa. Provinciano é quem julga os outros pela bitola das suas minúsculas fronteiras.
Comment by LA-C — November 6, 2007 @ 8:42 pm
“sem preconceitos antilisboetas”
Já agora, só uma pergunta, onde é que viste no meu post preconceitos anti-lisboetas? Eu que já vivi em Lisboa e que não ponho de parte a hipótese de lá voltar a viver. Neste post, apenas falei de um lisboeta, tu mesmo, e, vá lá, em alguns dos meus colegas e amigos do IGCP. Já agora, outros colegas houve que me deram os parabéns por ir para a Univ do Minho, que, e lembro-me bem das palavras da Filomena Oliveira, “é a universidade mais dinâmica do país” (desconte-se o exagero motivado pela amizade…), ou das palavras de Eugénia, que me fez as primeiras descrições vivas da cidade.
Finalmente, não gostei que no teu post de resposta a este, escrevesses que eu tinha insinuado coisas a teu respeito. Insinuação é dizer que alguém é um satélite de outrem, eu não fiz nenhuma insinuação, fui muito claro no que escrevi e nas palavras que te dirigi.
Comment by LA-C — November 6, 2007 @ 8:49 pm
«olha que antes chamarem-me “caloiro” do que “provinciano”»
«quem nasce na Provincia diz-se provinciano»
(Filipe Moura)
Ou seja, para este parolo, não nascer em Lisboa é, mais do que um facto, um insulto. Este gajo, além de parolo, é burro: factos não são opiniões.
Comment by LPedroMachado — November 7, 2007 @ 2:02 am
Tipico de quem fala, comenta e critica (desmesuradamente) sem ter a minima noção e conhecimento do que e sobre o que está a falar. Reacção tipica do nativo lisboeta.
Comment by Sofia — November 7, 2007 @ 12:17 pm
Antes que alguém me acuse de ser “anti-lisboeta”, considero Lisboa uma das mais belas cidades do mundo (e já conheço algumas). Não posso, no entanto, deixar de dizer que alguns (repito alguns) dos lisboetas que conheci são tão provincianos como o Filipe Moura. Lembro-me, a título de exemplo, de uma colega lisboeta que, numa acção de formação em Lisboa, me disse: “como é que vocês conseguem viver no Porto sem metro?” Naquele tempo metro era símbolo de civilização…
Queria apenas chamar a atenção para o papel da comunicação social, em particular a televisão, em todo este provincianismo: (quase) só é noticia o que se passa no Terreiro do Paço, o resto é… “província”. Atropelamentos, radares (o país saberá que os há no Porto há muito mais tempo?) e podia continuar com uma lista imensa…
É mais ou mesmo o que se passa com os jornais desportivos e o Benfica…
Comment by Artur Rodrigues — November 7, 2007 @ 2:57 pm