Pela argumentação que se ouve, quer dos comentadores institucionais quer dos dirigentes partidários relevantes, percebe-se que não vai haver referendo ao novo tratado.

Este tratado é o substituto da Constituição Europeia. É a Constituição, anteriormente chumbada em referendos, destituída de alguns simbolismos federais, como a bandeira, o hino, ou o próprio nome do tratado. Assim sendo, e depois das promessas de referendo ao tratado constitucional europeu, este Tratado de Lisboa não passa de uma manobra de políticos mentirosos e cobardes que fogem ao veredicto popular e fintam as populações que antes se manifestaram contra.

O argumento mais surrealista que ouço contra o referendo é o da ininteligibilidade do tratado. Ou seja, políticos e eurocratas escrevem um texto incompreensível e ilegível e depois argumentam que as populações não têm capacidade para o entender. Este é, aliás, um bom motivo para se votar contra e não um motivo para suprimir o referendo. Seria uma forma de obrigar os políticos a escrever um tratado claro e compreensível, em vez de um arrazoado eurocrático.

Outro argumento surrealista é o da incapacidade da população para perceber o que está em jogo e de escolher o melhor para o país. Como se votos de deputados que assinam de cruz e em obediência à cúpula e às cópulas partidárias fossem votos resultantes de uma reflexão profunda e cuidada. Na verdade, da população podemos esperar um voto bem mais responsável e cuidado do que da Assembleia da República. Enquanto os deputados votam em obediência canina, os eleitores tentarão esclarecer-se antes de votar e os não esclarecidos tenderão a abster-se. O problema de falta de quórum referendário que tal abstenção poderia gerar resolve-se com um compromisso político, tal como aconteceu nos três referendos anteriores.