Em qualquer Economia, os preços são um indicador importante. É com base nos preços que nos podemos aperceber da escassez relativa de qualquer bem ou serviço. Preços a subir indicam que a escassez aumenta, preços que descem indicam o oposto. E se os preços em dinheiro são controlados, então tomam outras formas, como, por exemplo, bichas enormes à entrada das lojas. Deixa de comprar quem tem mais dinheiro para passar a comprar quem tem mais tempo e paciência. O preço está lá sempre.

O ministro da saúde veio há dias dizer que queria multiplicar o número de estudantes de medicina. Logo vêm os aprendizes de médicos (que aprendem depressa as vantagens do corporativismo, ou não fossem excelentes alunos de uma universidade de excelência), dizer que o problema em Portugal não é o da falta de médicos.(*) É sim um problema de distribuição dos mesmos. O seu argumento preferido é o rácio de médicos por habitante, valor particularmente elevado em Portugal, quando comparado com o resto da Europa.

O argumento não colhe. Basta perceber um pouco de mercados e olhar para os preços. O primeiro preço é a nota de entrada na Universidade. Para se entrar num curso de medicina os alunos têm de ter médias absurdamente altas, perto dos 20 valores, que não são comparáveis às de qualquer outro curso. Um estudante que queira seguir medicina pura e simplesmente deixa de ter vida pessoal entre os 15 e os 17 anos. A sua única vida é estudar. Um preço tão absurdo, de tão elevado que é, indica que o número de vagas nas universidades é escassíssimo.

Podemos observar um segundo preço. O preço das consultas de qualquer especialidade. Por mais curta que seja, muitas vezes não mais do que 10 minutos, é caríssima. E nos restantes países europeus, ao contrário do que seria de esperar, não é mais cara. A conclusão, óbvia, é a de que em Portugal há poucos médicos para a quantidade de doentes.

Há ainda um terceiro preço. Os salários dos médicos. Não tenho dados, mas conheço o que toda a gente conhece. Os médicos espanhóis que trabalham nos nossos hospitais, quando entrevistados, são unânimes a declarar que aqui ganham mais do que em Espanha. Mesmo não tendo dados salariais, basta olhar para os movimentos migratórios para perceber este ponto. Enquanto que cada vez mais portugueses fogem para Espanha em busca de melhores salários, pelo contrário, são os médicos espanhóis que vêm para Portugal. A única explicação plausível para este movimento em contra-corrente, reside no facto de os salários dos médicos em Portugal serem maiores do que em Espanha. Como o rendimento médio espanhol é bastante mais alto que o português, tal é sintoma de que, em termos relativos, os salários dos nossos médicos são elevadíssimos.

Claro que preços nos consultórios privados tão elevados também indiciam que o Sistema Nacional de Saúde não funciona e que por isso muita gente tem de recorrer a serviços privados. Mas, sinceramente, não vejo nenhum motivo para acreditar que o SNS vai melhorar na próxima década. Muito pelo contrário.

Assim sendo, a actual, e futura, escassez de médicos só pode ser resolvida de duas formas. (1) Abre-se (ainda mais) a profissão a médicos estrangeiros. Com certeza que entre polacos, checos, espanhóis, ucranianos e russos (entre outros) será possível encontrar médicos competentes que permitam colmatar as nossas falhas. (2) Aumenta-se o número de vagas de medicina no ensino superior. De preferência permitindo a abertura de mais cursos e não recorrendo aos actuais que, possivelmente, já estão perto do seu limite. (Esta última solução tem um problema: alunos que entrem agora no Ensino Superior nem daqui a dez anos terminaram a sua formação.)

Já agora, há algum motivo especial para, com tanta procura, não haver nenhuma universidade privada que ofereça o curso de medicina? Haverá alguma explicação corporativa que explique esta óbvia esquisitice do mercado?

PS Luís Lavoura tem uma opinião semelhante

PPS O AAA faz, com outras palavras, uma análise idêntica à minha. É mais assertivo e certeiro do que eu nas acusações à Ordem dos Médicos.

PPPS Recordo o que há um ano escrevi sobre corporações, como a Ordem dos Médicos

(*) Pedro Morgado, em comentário, já esclareceu que escreveu o texto antes das palavras do Ministro da Saúde. Agradeço a correcção.