Suplemento Economia do Público

No dia 18 de Julho, comprei uma blusa para a minha esposa numa loja ‘Ana Sousa’, em Coimbra. No dia 21, dirijo-me à loja pedindo para a trocar porque tinha uma nódoa estampada. Não fazem a troca porque a blusa, apesar de nunca usada, já tinha sido lavada. Argumentei que qualquer pessoa com um mínimo de higiene lava a roupa antes de a usar e que pensava que estava a comprar a blusa numa loja reputada e não nos ciganos, não me passando pela cabeça que devia inspeccioná-la à cata de defeitos de fabrico. De nada me serviram os argumentos. Não trocaram.

Mea culpa, fui injusto com o Cigano. Quem compra no Cigano sabe ao que vai, não é enganado. Lembro-me de há uns meses, na Feira da Tocha, enquanto regateava um preço, ter perguntado a um cigano se aquela camisa era mesmo da ‘Hugo Boss’. O cigano desarma-me com a sua honestidade: “Acha? Acha que sim? Parece-lhe que se fosse, eu a vendia tão barata? E não se preocupe com o número da calça. O número da calça do cigano não diz nada. Compre. Se não servir, volte cá. A gente troca.” E a verdade é que trocou.

Abrindo o dicionário(*), vejo que não estou só no preconceito. Na definição de Cigano, leio um chorrilho de insultos: “Indivíduo que faz negócios de compra e venda de animais, mas sempre de má fé || Chicaneiro, trapaceiro, burlador || Impostor || Agiota || Astuto, velhaco, trapaceiro || Povo errante e miserável, de procedência indiana, que, fugindo à invasão mongólica, se distribuiu por todo o mundo, falando dialectos que são prácritos corrompidos e empregando-se ora em enganar vendedores ou compradores de gados nas feiras, ora na pirataria, no acrobatismo, etc.”

Em Portugal, muitas empresas usam as desculpas mais esfarrapadas para nos burlar. A ‘Ana Sousa’ foi apenas um exemplo. Posso dar outros, o de uma amiga que duas semanas depois de ter comprado um carro novo o viu ficar parado. O relatório da oficina da marca confirma que o carro parou porque gasolina suja o tinha entupido por dentro. A minha amiga dirigiu-se ao posto de gasolina, fornecido pela “BP”. Mandaram-na passear. Há meses que tenta que lhe paguem a factura de 170 euros, que foi o que custou o arranjo do carro. Mas, claro, burlão é o Cigano. Assinamos contratos onde o mais importante está escrito nas entrelinhas, ou em anexos que nunca são entregues. O agente diz-nos uma coisa e a letra miúda do contracto diz outra. Mas, evidentemente, quem faz negócios de má-fé é o Cigano.

Podemos ficar 5 horas parados na auto-estrada que, à saída, pagamos portagem como se nada fosse. Pagamos por serviços de internet que estão metade do tempo em baixo, mas, no fim do mês, pagamos como se o contrato tivesse sido cumprido à risca. É o Cigano o trapaceiro.

Assistimos ao circo montado à porta de casa dos pais de Madeleine McCann. A turba que antes os aplaudia em missas, que os beijava na rua, que lhes dava flores agora insulta-os gratuitamente, sem considerar a hipótese, óbvia, de estarem inocentes. Já decidiram as culpas. Mas, convém não esquecer, povo miserável é o Cigano.

Empresas de construção civil passam facturas falsas para fugir aos impostos. Grande escândalo, nada acontece. A Somague pagou uma conta do PSD no valor de 46 mil contos, pouco antes de Durão Barroso ser eleito primeiro-ministro. Agora que se sabe da ilegalidade, Durão, presidente da Comissão Europeia, diz que não sabe nada e passa as culpas para José Luís Arnaut, na altura secretário-geral do partido. Arnaut passa as culpas para o secretário-geral adjunto, impedido de se defender porque sofreu um derrame cerebral. Mas, como bem sabemos, velhaco é o Cigano.

(*) Grande Dicionário da Língua Portuguesa" elaborado a partir do “Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa” de António Morais Silva.