O Cinismo da Ciência Económica
20.07.2007, Suplemento de Economia do Público
A Ciência Económica, pelo menos a mais ortodoxa, tem uma visão cínica da sociedade, assumindo que cada pessoa actua essencialmente no seu próprio interesse. Não nega a existência de acções puramente altruístas, mas para cada acção observada o economista pergunta sempre se não haverá por detrás algum motivo egoísta. Este modelo de análise, de acordo com o qual se presume que cada pessoa actua de acordo com os seus próprios interesses (e não por motivos altruístas), foi adoptado por outras ciências, como a Psicologia, a Biologia ou a Ciência Política.
Peguemos nesta última. Dificilmente haverá alguma classe que autoproclame tão alto o seu altruísmo como a classe política. Os políticos estão sempre preocupados com o interesse nacional, nunca com o seu próprio interesse. O governante manifesta sempre a sua vontade de governar para o bem do país e nunca, por nunca, para assegurar a reeleição. Já a teoria económica diz-nos que o político no poder governará no seu próprio interesse e manipulará as suas políticas de forma a ganhar as eleições seguintes. É possível testar esta predição economicista. Se estiver correcta, as despesas públicas aumentam e os impostos baixam com a proximidade de eleições. Levando o cinismo um pouco mais longe, concluiremos que serão os gastos públicos em obras de maior visibilidade que aumentarão.
A Linda e o Francisco Veiga, meus amigos e colegas na Universidade do Minho, recolheram e analisaram dados de todos os municípios de Portugal Continental de todas as eleições autárquicas entre 1979 e 2001. Com esses dados estudaram e testaram a hipótese de os nossos Presidentes de Câmara terem um comportamento oportunista. As suas conclusões, publicadas este ano em duas prestigiadas revistas científicas, não deixam margem para dúvidas. A visão cínica ganhou. Por regra, em anos pré-eleitorais, os impostos municipais diminuem e a despesa aumenta. Os aumentos da despesa servem para construir obras de forte visibilidade, como mercados municipais, estradas e rotundas. Simultaneamente, despesas em maquinaria e outros equipamentos diminuem. Ou seja, os políticos manipulam os instrumentos de política económica que têm à sua disposição em proveito próprio. Concluíram ainda que esta estratégia tem resultado: a eficácia das políticas oportunísticas tem aumentado ao longo dos anos. Por outras palavras, os políticos têm vindo a aprender cada vez melhor a manipular votos.
Não saindo da política, podemos testar esta visão cínica noutras situações. Por exemplo, sabemos que os partidos de direita dão menos importância que os de esquerda aos bens e serviços públicos. Dado que é eleitoralmente perigoso acabar com certos serviços públicos (como escolas e maternidades), um cínico dirá que os partidos de direita, quando no poder, acumularão défices orçamentais. Assim, quando a situação se tornar insustentável, o Estado terá de reduzir a oferta de serviços públicos. Já um governo de esquerda, se valoriza os serviços públicos, não pode permitir que as contas públicas entrem em descalabro. Ou seja, será de esperar que os governos de direita acumulem défices e que os partidos de esquerda se vejam obrigados a corrigi-los. Estará esta predição correcta?
Em Portugal, a experiência diz-nos que sim, afinal todos os governos socialistas (à excepção do de Guterres) foram obrigados a “meter o socialismo na gaveta”, adoptando políticas restritivas para corrigir os défices que vinham dos governos do PSD. Song, Storesletten e Zilibotti (professores de Economia) estudaram os dados para os países da OCDE. As conclusões são claras: em regra, quando estão governos de direita no poder, os défices orçamentais aumentam e a dívida pública acumula-se.
A Ciência Económica pode ser cínica, mas os factos encarregam-se de lhe dar razão.

A ideia do altruísmo e da decisão política no interesse público ou “vontade geral” tem raiz filosófica na concepção normativa de Rousseau. Os autores da Public Choice são sobretudo críticos da concepção dual do ser humano presente em muitos autores, sobretudo europeus, da Ciência Política. Se, nas suas relações diárias em contexto de mercado, os indivíduos tomam decisões para promover os seus próprios interesses, por que razão actuariam no “interesse público” a partir do momento em que são eleitos? Por outras palavras, se na economia os actores se comportam com o objectivo de maximizar o lucro, por que motivo agiriam de modo altruísta quando passam para o domínio da política? Não diria que a Public Choice é cínica. É simplesmente lúcida.
Comment by Fernando — July 20, 2007 @ 7:24 pm
Lendo o seu interessante artigo, somos (aqueles que prezam os valores democráticos) inevitavelmente assaltados por uma sensação de frustração inquietante: de que a demagogia (pois é disso que estamos a falar: acção que se utiliza do apoio popular para a conquista ambiciosa ou corrupta do poder) está, cada vez mais, a sobrepor-se à democracia.
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Ainda que as conclusões do estudo que refere (a propósito, está disponível na Net?) confirmem o sentimento muito generalizado, mas, pelos vistos, pouco apreendido nas suas consequências negativas, por parte das populações relativamente ao oportunismo com que são geridos os fundos públicos, são mais que pertinentes o estudo e a divulgação das suas conclusões. Tão pertinentes, que merecem que volte, logo que possa, ao tema. A bem da democracia.
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Há, contudo, dois pontos que me suscitam algumas questões:
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Adam Smith preconizou que, actuando os indivíduos segundo a prossecução dos seus interesses próprios (propensão egoísta) dessa actuação resulta, inevitavelmente, o benefício dos outros indivíduos, globalmente considerados.
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Ora, no caso da gestão municipal, parece estarmos perante uma anulação dos efeitos da mão invisível: os autarcas, ao intervirem segundo os seus próprios interesses (de sustentação no poder) delapidam, sem contrapartidas, frequentemente, os interesses das comunidades que governam.
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Tal derrogação da Lei de Smith não parece senão resultar do facto de não se estabelecer na relação autárquica uma acção negocial. Os autarcas intervêm no corpo social anestesiado porque aos munícipes não são cobrados directamente pelos autarcas os impostos com realizam os seus malabarismos demagógicos. Esta questão tem sido já levantada mas, como a poeira, volta ao mesmo sítio.
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Por outro lado, tenho alguma dificuldade em perceber o salto dedutivo que, no seu artigo, faz dos autarcas para os governos centrais.
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Porque, se o que explica o ciclo do oportunismo, é a propensão egoísta dos indivíduos, não sujeita aos freios dos negócios, teríamos que, para aceitar a tese da segunda parte, contraditar a tese da primeira.
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Explico-me melhor: Se a esquerda é menos egoísta que a direita, forçosamente essa diferença deveria também ser ressaltada nas conclusões do estudo de Linda e Veiga. É? V. não refere.
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Se não é, não deverá atribuir-se a outras razões?
Comment by rui fonseca — July 21, 2007 @ 6:13 pm
“A ideia do altruísmo e da decisão política no interesse público ou “vontade geral” tem raiz filosófica na concepção normativa de Rousseau.”
Não sei se terá - eu nunca li o “Contrato Social”, mas li um texto sobre ele (já há muitos anos - em 1993), segundo o qual Rosseau defenderia que, para o voto dos “cidadãos” na assembleia conduzir ao “bem geral”, não poderia haver grandes diferenças entre ricos e pobres, caso contrários, os cidadãos iriam votar a pensar nos seus interesses de classe e não no interesse geral.
Ou seja, parece-me que Rosseau também achava que, no fundo, as pessoas iriam votar de acordo com o seu interesse individual; o que ele achava era que, nas circunstancias apropriadas (uma sociedade de pequenos proprietários), isso iria conduzir ao “bem geral”, já que a maneira de cada eleitor defender o seu bem particular seria votar nas leis que fossem melhores para todos.
Comment by Miguel Madeira — July 23, 2007 @ 12:02 am
“Os autarcas intervêm no corpo social anestesiado porque aos munícipes não são cobrados directamente pelos autarcas os impostos com realizam os seus malabarismos demagógicos. Esta questão tem sido já levantada mas, como a poeira, volta ao mesmo sítio.”
Mesmo que os municípios fossem financiados com impostos cobrados e fixados localmente, acho que isso não afectaria muito - os autarcas continuariam à mesma a programar as obras de forma a estarem prontas no último ano do mandato.
Comment by Miguel Madeira — July 23, 2007 @ 12:09 am
já agora, uma questão um pouco paralela: há algum estudo sobre as motivações dos governadores dos bancos centrais?
É que dá-me a impressão que, se há grupo social que tende a ser visto (até - ou, se calhar, sobretudo - pelos economistas) como intrinsecamente altruístas (uma espécie de “ditador benevolente”) são os “banqueiros centrais”.
Comment by Miguel Madeira — July 23, 2007 @ 12:18 am
“já agora, uma questão um pouco paralela: há algum estudo sobre as motivações dos governadores dos bancos centrais?
É que dá-me a impressão que, se há grupo social que tende a ser visto (até - ou, se calhar, sobretudo - pelos economistas) como intrinsecamente altruístas (uma espécie de “ditador benevolente”) são os “banqueiros centrais”. ”
Excelente questão. Penso que não, mas se encontrar algum digo-te.
Comment by LA-C — July 23, 2007 @ 9:41 am
Volto para pedir um favor e comentar o comentário de Miguel Madeira.
Peço a L-AC o favor de eliminar um dos comentários que coloquei, por o ter, involuntariamente, repetido. Se um comentário não é pertinente, dois iguais são intoleráveis.
Quanto ao comentário de Miguel Madeira,
“Mesmo que os municípios fossem financiados com impostos cobrados e fixados localmente, acho que isso não afectaria muito - os autarcas continuariam à mesma a programar as obras de forma a estarem prontas no último ano do mandato”
situa-se no campo das suposições.
Suposição por suposição, eu suponho que os munícipes se sentirem a dor da agulha, protestarão contra a injecção.
Comment by rui fonseca — July 23, 2007 @ 12:40 pm
“Suposição por suposição, eu suponho que os munícipes se sentirem a dor da agulha, protestarão contra a injecção.”
Mas em que é que o facto dos autarcas programarem as obras para estarem prontas no final do mandato em vez de distribuídas pelo mandato todo afecta a “dor da agulha” (os impostos) sentida pelos contribuintes?
Comment by Miguel Madeira — July 23, 2007 @ 3:14 pm
Miguel Madeira,
As conclusões do estudo referem que “Os aumentos da despesa servem para construir obras de forte visibilidade, como mercados municipais, estradas e rotundas. Simultaneamente, despesas em maquinaria e outros equipamentos diminuem…”
O facto da conclusão das obras se encostar sistematicamente à época eleitoral é, sem dúvida nenhuma, geralmente oportunista. E, neste caso, o contribuinte é embalado pela obra inaugurada.
Mas, porque não há um nexo visível entre o pagamento dos impostos e as obras que vão sendo construídas ao longo do mandato, o munícipe não se apercebe que o dinheiro gasto em obras de mérito duvidoso também é seu.
O problema, caro Miguel Madeira, do meu ponto de vista, não está tanto no período em que as obras são inauguradas mas do real interesse de muitas delas.
Se as obras fossem sempre as que, servindo os objectivos dos autarcas (manterem-se no poder), de real interesse para os munícipes, observar-se-ia o cumprimento da Lei de Smith, e os interesses de todos estavam garantidos.
Ora se os munícipes sentissem que eram eles que pagavam as rotundas e as estatuárias, certamente que muitos formariam opinião diferente ao longo do mandato e votariam em conformidade, independentemente da época da caça ao voto.
Não lhe parece?
Comment by rui fonseca — July 23, 2007 @ 7:40 pm
Miguel Madeira,
Correndo o risco de voltar a comentar em duplicado, mas não querendo deixá-lo sem resposta, digo-lhe que não é por os autarcas encostarem as inaugurações à época das eleições que os munícipes são lesados. Se fosse só essa a questão de algum modo cumpria-se a lei de A. Smith: Os interesses dos autarcas (de preservar ou conquistar o poder) conjugavam-se com os interesses dos munícipes através de realizações vantajosas para eles. O período de inaugurações não influencia, por si, a qualidade da obra
Acontece que, como se refere no “post” de L-AC “os aumentos da despesa servem para construir obras de forte visibilidade, como mercados municipais, estradas e rotundas. Simultaneamente, despesas em maquinaria e outros equipamentos diminuem ”
Se os munícipes tivessem a real percepção que o dinheiro gasto em obras de fachada também era deles, formariam a sua opinião ao longo do mandato e, na altura da caça ao voto, votariam em conformidade com a apreciação que tinham feito durante o período todo.
Seguramente que muitos não apoiariam obras de rotundas e estatuárias que manifestamente não lhes interessam.
Não concorda?
Comment by rui fonseca — July 23, 2007 @ 10:32 pm
Nada como o original para tirar dúvidas:
“Enquanto vários homens reunidos se consideram como um corpo único, eles têm uma única vontade, relativa à conservação do bem comum e ao bem-estar geral. Então, todos os mecanismos do Estado são rigorosos e simples, as suas ideias mestras são claras e luminosas, não há interesses duvidosos ou contraditórios, o bem comum aparece sempre com evidência e não é necessário mais do que simples bom senso para o apreender.” (”O Contrato Social” Livro IV, Capítulo I - Da Indestrutibilidade da Vontade Geral)
Se isto não é uma concepção ingénua da política e dos homens que gerem os assuntos do Estado (o tal “ditador benevolente”) não sei o que seja.
E a ideia que, sob determinadas condições, “a maneira de cada eleitor defender o seu bem particular seria votar nas leis que fossem melhores para todos.” não é de Rousseau. Soa estranhamente próxima do argumento do “véu de ignorância” de John Rawls.
Comment by Fernando — July 23, 2007 @ 11:42 pm
O veu de ignorancia nao representa “votar no que se mostra melhor para todos” mas antes votar no que se apresenta melhor para “o mais pobre de todos”: isto constitui uma diferenca fundamental.
Comment by Gungunhana — July 24, 2007 @ 12:21 pm
“Se, nas suas relações diárias em contexto de mercado, os indivíduos tomam decisões para promover os seus próprios interesses, por que razão actuariam no “interesse público” a partir do momento em que são eleitos?” — Fernando
Precisamente.
“de que a demagogia (…) está, cada vez mais, a sobrepor-se à democracia” Rui Fonseca
Não me parece. Parece-me é que nos estamos a tornar mais pragmáticos e que conseguimos fazer estas análises com um mínimo de juízos de valor.
“Tal derrogação da Lei de Smith não parece senão resultar (…)” Rui Fonseca
A mim parece-me que a argumentação de Smith não se aplica ao mercado político, digamos que este é um mercado peculiar.
“Por outro lado, tenho alguma dificuldade em perceber o salto dedutivo que, no seu artigo, faz dos autarcas para os governos centrais.” Rui Fonseca
Não fiz tal coisa. Limitei-me a analisar os dois casos partindo do princípio que os governantes governam com o objectivo de ganhar eleicções. A análise resultou em duas predições diferentes (uma para cada caso) ambas confirmadas pelos estudos empíricos dos autores citados.
“Explico-me melhor: Se a esquerda é menos egoísta que a direita, (…)” Rui Fonseca
Não percebo como chega a essa conclusão. Do que eu disse não pode inferir tal coisa, de certeza. Já agora, e este foi um aspecto que não referi no artigo, os estudos do casal Veiga concluem que os autarcas de esquerda se comportam de forma ligeiramente mais oportunista que os de direita.
“Se as obras fossem sempre as que, servindo os objectivos dos autarcas (manterem-se no poder), de real interesse para os munícipes, observar-se-ia o cumprimento da Lei de Smith, e os interesses de todos estavam garantidos. ” — Rui Fonseca
O teorema da impossibilidade de Arrow (de que já faleui algures no blog, penso eu) demonstra-nos, basicamente, que é impossível encontrar um processo político que revele as preferências de uma dada base eleitoral. E isto não é uma questão de boas vontades, é uma impossibilidade matemática.
Comment by LA-C — July 24, 2007 @ 6:57 pm
»“Se, nas suas relações diárias em contexto de mercado, os indivíduos tomam decisões para promover os seus próprios interesses, por que razão actuariam no “interesse público” a partir do momento em que são eleitos?” — Fernando»
Se considerarmos que a melhor maneira dos governantes defenderem os seus interesses (serem reeleitos) é fazendo a melhor politica possível, a contradição está resolvida.
Comment by Miguel Madeira — July 25, 2007 @ 12:37 am
“Já agora, e este foi um aspecto que não referi no artigo, os estudos do casal Veiga concluem que os autarcas de esquerda se comportam de forma ligeiramente mais oportunista que os de direita.”
O estudo foi controlado para o grau de competitividade eleitoral (p.ex., diferença, na eleição anterior, entre o mais votado e o segundo mais votado), que suponho que seja maior para as camaras PS do que para as PSD ou CDU?
Comment by Miguel Madeira — July 25, 2007 @ 12:39 am
“O estudo foi controlado para o grau de competitividade eleitoral ”
Não tenho os papers aqui à mão, para poder confirmar isso, mas de certeza que sim. De qualquer forma este resultado não era particularmente importante, por isso não o referi no artigo.
Comment by LA-C — July 25, 2007 @ 7:45 am
Pode ser que interesse.
http://caldeiradadeneutroes.blogspot.com/2007/07/teorias-econmicas.html
Comment by Tarzan — July 26, 2007 @ 5:02 pm
Caro LA-C,
A afirmação que fz de que em Portugal os governos PS (com excepção do de Guterres) “foram obrigados a meter o socialismo na gaveta, adoptando políticas restritivas para corrigir os défices que vinham dos governos do PSD” é completamente abusiva e sem constataçõ prática. O único exemplo que tem é o de Mário Soares em 83. Curiosamente em coligação com o PSD… O caso de Sócrates é claramente resultado do que se passou no consulado guterrista, herdado anteriormente por um governo PSD que simplesmente não o resolveu. E convém lembrar que Guterres aprece a beneficiar das políticas de 10 anos de um governo maioritário… do PSD!
Cumprimentos,
José Mário
Comment by José Mário — July 27, 2007 @ 9:15 pm
Caro LA-C,
A afirmação que faz de que em Portugal os governos PS (com excepção do de Guterres) “foram obrigados a meter o socialismo na gaveta, adoptando políticas restritivas para corrigir os défices que vinham dos governos do PSD” é completamente abusiva e sem constatação prática. O único exemplo que tem é o de Mário Soares em 83. Curiosamente em coligação com o PSD… O caso de Sócrates é claramente resultado do que se passou no consulado guterrista, herdado anteriormente por um governo PSD que simplesmente não o resolveu. E convém lembrar que Guterres aparece a beneficiar das políticas de 10 anos de um governo maioritário… do PSD!
Cumprimentos,
José Mário
Comment by José Mário — July 27, 2007 @ 9:20 pm
Caro José Mário
Permita-me que seja sincero. Conseguiu, na minha opinião, dar destaque à frase mais irrelevante de todo o meu texto. Mas claro, isto é apenas a minha opinião.
Se o seu único problema com o texto é essa frase que cita, sugiro-lhe que a apague e leia o resto.
Comment by LA-C — July 28, 2007 @ 12:27 am
O suposto de que o indivíduo age sempre no seu interesse é redutor: para tornar aceitável este princípio, algumas disciplinas tiveram de supor a existência de um inconsciente específico, interessado exclusivamente na propagação do seu património genético. E, a seguir, tiveram de fazer toda a espécie de piruetas para encaixar nesse paradigma tudo o que suscitava dúvidas. Teoricamente é uma doutrina que não vai longe e é constantemente desafiada pelo trabalho de campo das mais variadas disciplinas.
Porque motivo a economia aceita tão candidamente esta tomada de posição, é o que não percebo.
Comment by Tacci- — July 29, 2007 @ 11:11 pm
Caro LA-C,
O relevante no meu comentário não é a maior ou menor importância da frase que citei. A questão é que essa frase serviu-lhe para exemplificar uma parte da teoria que defendeu, especificamente a de que, pela lógica que expôs, seria de esperar que os governos de direita acumulassem défices e que os partidos de esquerda se vissem obrigados a corrigi-los. Ora o que eu quis mostrar foi que, independentemente da veracidade ou não da teoria, ela não encontra eco nos 33 anos de democracia em Portugal. Precisamente o contrário do que o LA-C quis exemplificar ao referi-la.
Cumprimentos,
José Mário
Comment by Anonymous — July 30, 2007 @ 12:47 pm
Caro José Mário
Veja os dados sobre os défices (ncluindo os do governo de Cavaco). Concluirá que, no estudo que citei, Portugal está longe de ser um outlier.
Comment by LA-C — July 30, 2007 @ 1:04 pm
Caro LA-C,
Terei todo gosto em ler o estudo que refere. Não sei se por lapso meu, não vejo no texto que cita o nome do paper em questão para que possa pesquisá-lo. Agradecia que o indicasse, caso não o tenha feito já.
Arriscando-me contudo a falar sem conhecimento de causa (uma vez que como já disse não li o texto) indico-lhe a leitura do seguinte artigo de Miguel Frasquilho ( http://quartodarepublica.blogspot.com/2006/01/paternidade-do-dfice.html )e em especial a observação dos quadros e figuras que nele constam. Julgo que em termos de análise dos défices nos governos de Cavaco (direita) e de Guterres (esquerda) contrariam claramente o que refere no seu texto.
Reservo-me naturalmente para mais comentários após ler o paper que refere.
Deixo-lhe contudo uma “provocação”: não se poderá entender como altruista uma política eleitoralista que vise ganhar eleições quando se acredita que a alternativa será pior para os eleitores… De outra forma, estará um governo a ser necessariamente egoísta ao praticar uma política eleitoralista no fim do mandato, se acreditar que a vitória do adversário será pior
que os eventuais malefícios desse eleitoralismo?
Cumprimentos,
José Mário
Comment by Anonymous — July 30, 2007 @ 1:54 pm
Caro José
A lista dos défices em Portugal de 1990 a 2005 está aí em baixo. (fonte é a OCDE) Já agora uma análise séria não se compadece com análise gráfica ou co mtabelas como as que deixo aí em baixo. Para se fazer análise de dados a sério usam-se as técnicas estatísticas adequadas.
A tese do artigo do Público é que com partidos de direita no poder os défices aumentam. O paper referido pode ser encontrado aqui: http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=996388
Agora, vai-me desculpar, sinceramente. Estou muito ocupado e não me interessa perder muito tempo com uma frase do meu texto que considero tão irrelevante que disse que a podia apagar.
1990 -6.3
1991 -7.2
1992 -4.5
1993 -7.7
1994 -7.4
1995 -5.2
1996 -4.5
1997 -3.4
1998 -3
1999 -2.7
2000 -3
2001 -4.3
2002 -2.9
2003 -3
2004 -3.2
2005 -6
Comment by LA-C — July 30, 2007 @ 2:01 pm
Peço desculpa, esqueci-me de responder à sua “provocação”. A interpretação que faz, de que os políticos no poder fazem eleitoralismo porque acreditam que é mau para o país (ou para a autarquia) se perderem implicando que têm um ego um desmesurado, é compatível com os dados que referi.
Comment by LA-C — July 30, 2007 @ 3:35 pm
Caro LA-C,
Se está muito ocupado, não serei com certeza eu quem o pretenderá distrair. Não posso aceitar contudo que insinue que eu quero fazer qualquer análise empírica com base em simples tabelas. O que quis, clarifico, foi mostrar que a análise de uma questão como a do défice obriga a bastante cuidado. Claro que inferir conclusões empíricas obriga a utilização de correctas técnicas estatísticas muito bem diz. Mas antes há que escolher uma série sobre a qual se efectuará tal análise. E essa escolha é sempre discricionária e subjectiva, por muita “cientificidade” a que depois seja submetida. Neste caso, fazer estudos olhando para o défice “bruto”, até pode ir de encontro à tese que defende. Mas que sentido terá colocar na mesma análise dados sobre as contas públicas que não levem em linha de conta p. ex. o ciclo económico? A tabela que Miguel Frasquilho cita tem como fonte a Comissão Europeia, descontando do défice os juros da dívida e as oscilações inerentes ao ciclo económico. Se foi essa a série (que me parece a correcta) que deu origem às conclusões do estudo que refere, serei o primeiro a admiti-lo e a mudar a minha opinião. Caso não seja talvez fosse bom perder um segundo a admitir que as conclusões não se adaptam muito bem ao caso português. A não ser, claro, que com estes dados e aplicando-lhe as “técnicas estatísticas adequadas” demonstre o contrário. Ou que argumente de forma consistente contra a utilização da série que defendo.
Seja como for, uma coisa é para mim claro. Ao contrário do que repetidamente afirma, não estou a pegar apenas numa frase “irrelevante” do seu texto. Estou apenas a querer alertá-lo para o facto das conclusões que tira simplesmente poderem não se aplicar ao caso português, quando analisadas séries limpas de efeitos não imputáveis às políticas seguidas.
Não o querendo importunar mais, termino a minha participação neste “debate” e apresento-lhe os meus cumprimentos,
José Mário
Comment by Anonymous — July 30, 2007 @ 3:40 pm
PS: Respondendo só à sua consideração sobre a minha “provocação”: responder que a hipótese que coloquei resultaria simplesmente de uma questão de dimensão de ego arrisca-se a ser tão simplista quanto a básica observação de tabelas o é para inferição de conclusões empíricas.
Comment by Anonymous — July 30, 2007 @ 3:44 pm
“Estou apenas a querer alertá-lo para o facto das conclusões que tira simplesmente poderem não se aplicar ao caso português, quando analisadas séries limpas de efeitos não imputáveis às políticas seguidas. ”
Aplica, aplica. Olhe para os dados e faca as contas.
“simplesmente de uma questão de dimensão de ego arrisca-se a ser tão simplista quanto a básica observação de tabelas o é para inferição de conclusões empíricas”
Evidentemente. Mas nao mais simplista do que prsumir que tal aconteceria por altruismo. Enfim, isto nao passa de um jogo de palavras.
Comment by LA-C — July 30, 2007 @ 4:03 pm
“A tese do artigo do Público é que com partidos de direita no poder os défices aumentam”
Verifico o artigo que refere. Utiliza o rácio da Dívida Total sobre o PIB. Diferente portanto do saldo orçamental primário ciclicamente ajustado. Para este (em % do PIB), os números são:
Governo Cavaco (direita):
1986: 2.3
1987: 1.2
1988: 2.2
1989: 1.5
1990: 0.2
1991: -0.8
1992: 2.2
1993: 0.7
1994: 0.9
1995: 2.1
Governo Guterres (esquerda):
1996: 1.7
1997: 1.1
1998: 0.0
1999: -0.6
2000: -1.8
2001: -2.7
2002: -1.0
Fonte: CE
Se, com estes números, chega, analiticamente, às conclusões que refere na frase acima citada, dou-lhe razão. Não foram estes os usados no estudo, mas se refez as contas… Eu manifesto a minha incapacidade para analiticamente o demonstrar. Mas que parece estranho parece…
Cumprimentos,
José Mário
Comment by Anonymous — July 30, 2007 @ 4:33 pm
Caro Jose’ Mario
Dois pontos:
1) Se quer fazer ajustamentos de ciclo deve usar todos os dados disponiveis. Os valores de 2006 vao afectar as contas dos anos anteriores. Ja’ agora, para si nao tem significado o facto de os economistas, quando fazem trabalhos cientificos prefiram usar a divida total em vez de usar dados que sao politicamente mais faceis de manipular?
2) Dando de barato o facto de se dever usar a Divida Publica, em que e’ que esses numeros desmentem o que eu disse no artigo?
Comment by LA-C — July 30, 2007 @ 4:54 pm
“Ja’ agora, para si nao tem significado o facto de os economistas, quando fazem trabalhos cientificos prefiram usar a divida total em vez de usar dados que sao politicamente mais faceis de manipular?”
Percebo a preferência académica por um indicador menos politicamente manipulável. O que não invalida que, da sua utilização, não possam resultar conclusões simplesmente falsas. Tudo se resume, no final, a uma questão de crença. A mim, parece-me que a análise do saldo primário ciclicamente ajustado é mais correcta, não só porque corrige os efeitos de ciclo, como tb limpa os dados do peso dos juros da dívida.
“Dando de barato o facto de se dever usar a Divida Publica, em que e’ que esses numeros desmentem o que eu disse no artigo?”
Dando de barato o facto de ir fazer uma análise muito simplista o que os números mostram é que no Governo Cavaco (direita) o saldo manteve-se praticamente constante entre 86 e 95 (era interessante saber o valor de 1985, ano de entrada em funções desse Governo). No Governo Guterres (esquerda) passou de um superavit de 2.1 para um déficit de -2.7 (Guterres demitiu-se em Dezembro de 2001). Recordo a sua frase no artigo do Público:
“(…)será de esperar que os governos de direita acumulem défices e que os partidos de esquerda se vejam obrigados a corrigi-los.”
No caso Cavaco-Guterres não se confirma (repito, numa análise muito simplista e directa; estou obviamente disponível para que me contrarie usando técnicas estatísticas). No resto, citando de memória, só tem 1 caso em que isso se passou: o fim da AD a que se seguiu o governo de Mário Soares. Que era, contudo, de coligação com o PSD…
Cumprimentos
José Mário
Comment by Anonymous — July 30, 2007 @ 5:36 pm
Meu caro, quanto a Cavaco, nao se esqueca de que com ele os defices atingiram os 7%. Independentemente disso, eu no texto disse que Guterres era uma excepcao. Lamento que nao tenha ficado claro no texto.
Comment by LA-C — July 30, 2007 @ 6:12 pm
Como se diz na minha terra, voltamos à vaca fria: o déficit de 7% com Cavaco (1991) que refere é de apenas 0.8% se analisado o saldo orçamental primário ajustado do ciclo. Sob este prisma Cavaco é tb excepção (mas, aceito, é uma questão subjectiva de escolha de indicador). Cavaco + Guterres são 16 anos de democracia (metade da amostra). Parece-me muita excepção para uma teoria…
Daqui já não vamos sair. Agradeço-lhe a paciência para o debate.
Cumprimentos,
José Mário
Comment by Anonymous — July 30, 2007 @ 6:29 pm
“Cavaco + Guterres são 16 anos de democracia (metade da amostra).”
Precisamente, finalmente chegou aonde eu queria que chegasse. Se olharmos apenas para Portugal, apenas temos meia dúzia de observações. Se descontar os anos 70 (anos pós revolucionários), ficamos com meia dúzia de observações de alternância de poder. Ou seja, nenhuma inferência estatística é válida. Por isso é que lhe disse tantas vezes que tal frase é apenas um pequeno fait-divers, ao qual não devia atribuir importância. (e isto apesar de conisderar que Cavaco não constitui nenhuma excepção, bem pelo contrário)
Para testar uma teoria (que é geral) precisa de observações, por isso os autores usaram a base de dados alargada a vários países europeus. Testaram uma teoria e chegaram aos resultados a que chegaram.
Daí podemos concluir que os resultados se aplicam aos políticos portugueses? A não ser que tenha algum motivo especial para o negar (como por exemplo a composição genética dos nossos políticos) não vejo porque não. Se se concluir, usando dados para outros países, que beber cerveja causa cancro da bexiga, a não ser que haja motivos fortes para o negar, partimos do princípio que em Portugal a cerveja terá o mesmo efeito. (repare que tal não invalida que depois se obtenha dados e se chegue à conclusão contrária — seja porque a nossa cerveja é diferente, seja porque a nossa bexiga é diferente).
Comment by (uLA-C — July 30, 2007 @ 6:59 pm