Habituado à divertida obscuridade dos meus artigos de "Economia das Pequenas Coisas", fui apanhado de surpresa com todo o debate que se gerou à volta do meu último artigo.

Uma das reacções que li foi a do João Rodrigues, no blogue neo-realista “Ladrões de Bicicletas”. Não planeava responder, porque nenhum argumento é dado. João Rodrigues limita-se a etiquetar as intenções para desqualificar as opiniões.

Entretanto, Nuno Teles, no mesmo blogue, explica melhor. Afinal, as críticas que João Rodrigues me fez, não eram a mim dirigidas, mas, pelos vistos, ao artigo de Isabel Correia. Diz Nuno Teles que o artigo de Isabel Correia parte do pressuposto da imortalidade das famílias e que portanto é pura ficção.

Seria bom que Nuno Teles entendesse qual o papel das hipóteses simplificadores no desenvolvimento de uma teoria ou de um modelo económico (económico ou de qualquer outra ciência, como a Física ou a Sociologia). Qualquer hipótese simplificadora está errada. A questão é saber se é decisiva para a conclusão ou não. Se for decisiva então deverá ser questionada, testada, flexibilizada e, eventualmente, substituída por hipóteses mais realistas.

O modelo de Isabel Correia realmente assume vidas infinitas e é com isso que Nuno Teles desqualifica o artigo. Mas, caro Nuno Teles, não precisa de assumir tal disparate ficcional. Se assumir que as vidas são finitas, os resultados a que chega são os mesmos (com mais contas é certo). E se partir do princípio que cada pessoa acredita que pode morrer no dia com uma dada probabilidade (mas sem ter a certeza absoluta de que tal, de facto, acontecerá nesse dia) os resultados serão exactamente os mesmos (e as contas não serão muito diferentes). Pode ainda considerar outras hipóteses. Por exemplo, assumir que as pessoas sabem que vão morrer, mas que se preocupam com o bem-estar dos filhos. Os resultados serão os mesmos.

Se não acredita, sugiro-lhe que faça as contas e que tire as conclusões por si mesmo. Sempre é uma atitude céptica mais saudável do que partir do princípio que Isabel Correia, com dezenas de artigos nas melhores revistas científicas internacionais, é uma anormal que não sabe que as pessoas morrem.

O engraçado nisto é que o artigo tem várias hipóteses simplificadoras e há uma delas que é bem mais restritiva e que merece ser escrutinada com cuidado. Mas, claro, quando o objectivo é ridicularizar em vez de discutir, basta dizer: o artigo criticado parte do pressuposto da imortalidade das famílias. Se isto não é uma ficção, então eu quero saber o fantástico segredo que estes bloggers escondem.

Para terminar, Nuno Teles diz ainda, referindo-se a mim: fico muito contente em saber que os nossos ultra-liberais têm preocupações com a justiça social e fiscal. Pensava que defendiam que tudo o que ganho a mais comparativamente com os outros é merecido (o mercado funciona!) e tudo o que tiver que pagar a mais em impostos é puro roubo.

Permito-me perguntar: de onde é que o Nuno Teles me conhece para falar assim? Onde é que eu já escrevi que pagar mais impostos é um roubo? Onde é que eu já escrevi que tudo o que uns ganham a mais do que outros é merecido?

Que raio de argumentos são estes? Será apenas a arrogância de quem se julga moralmente superior aos outros?

À margem: um colega meu chamou-me a atenção para um pormenor. No texto de resposta a Vital Moreira escrevi a dado passo: “Essas teorias keynesianas (…) foram postas de lado em 1957, quando Milton Friedman demonstrou que o consumo é proporcional ao rendimento permanente”. Naturalmente em vez de “demonstrou que” deveria estar “argumentou que”. Fica a correcção feita.