Fico contente com as reacções que o meu artigo gerou. É bom saber que consigo despertar a atenção dos leitores mesmo quando não falo de assuntos microeconómicos, como a Economia do Sexo, a Economia das tampas de sanita, ou a Economia dos orgasmos dissimulados.
As diversas reacções (e, naturalmente, centro-me nas críticas) são bem espelhadas num comentário de Vital Moreira:
Eu defendi a abolição da generalidade dos impostos. Mas defendi a manutenção não de um (o IVA), mas sim de dois impostos: o IVA e um Imposto Negativo (ou seja uma transferência do Estado para as famílias). Esta transferência directa do Estado para as famílias é central no meu argumento. É aliás esse o principal ponto que me distingue dos textos que até hoje já vi a defender a flat tax, como o do Tiago Mendes. Eu aceito a taxa fixa, e única, desde que a ela esteja associado um subsídio fixo (precisamente para garantir que haja redistribuição do rendimento). Esta ideia no meu texto é tão central que a chamei ao título do artigo, pelo que não é aceitável que o artigo seja lido, e comentado, como se eu a ela não fizesse referência.
Escreve ainda Vital Moreira:
O pressuposto de que todos gastam a mesma percentagem do rendimento não é essencial, e nem sequer é importante. Foi dado a título meramente exemplificativo (para que qualquer um pudesse facilmente verificar as minhas contas). Desde os anos 60 do século XX que os macroeconomistas deixaram de assumir taxas de poupança exógenas. Não era eu que iria fazer com que a ciência económica recuasse 50 anos. Vamos por partes.
Primeiro. As contas que a Isabel Correia faz em lado algum assumem taxas de poupança iguais para todos. As conclusões a que ela chega são similares às minhas (deveria ter escrito o contrário: as minhas é que são iguais às dela, pois foi o artigo dela que me convenceu). Daqui se infere que, ao contrário do que diz Vital Moreira, este pressuposto não é essencial.
Segundo. As pessoas poupam para consumir no futuro. Com um sistema fiscal como o que proponho, esse consumo futuro será taxado.* Num artigo de jornal não é possível fazer contas pormenorizadas e explicar como calcular o valor actual dos impostos futuros (que até podem recair sobre os herdeiros). Mas o essencial não se altera: a poupança actual é consumo futuro (que será taxado). Portanto, ao contrário do que Vital Moreira escreve, a poupança não é isenta de impostos, pelo que não se pode afirmar, sem mais, que quem poupa mais paga menos impostos.
Terceiro. Diz-se (e Vital Moreira não é o único, longe disso) com demasiada facilidade que quanto mais se ganha mais se poupa (em termos percentuais). Esse argumento, tipicamente keynesiano, resulta de se confundir rendimento permanente com rendimento total (que é a soma do rendimento permanente com o rendimento transitório). Essas teorias keynesianas, popularizadas, por exemplo, por Kaldor e Pasinetti, foram postas de lado em 1957, quando Milton Friedman demonstrou que o consumo é proporcional ao rendimento permanente (ou seja, ao rendimento de longo prazo) e que as aparentes diferenças entre as taxas de poupança se deviam a alterações transitórias de rendimento.
Para o leitor que não está convencido (provavelmente porque olha para Friedman como um perigoso neoliberal que apoiou o regime de Pinochet), chamo a atenção para um facto: Se a hipótese de que famílias mais pobres têm taxas de poupança menores do que as mais ricas estivesse correcta, então sociedades com maiores desigualdades económicas seriam sociedades com maiores taxas de poupança. Tal previsão é desmentida pelos dados. E quando os factos desmentem as teorias, geralmente, devemos abandonar as teorias e não os factos, por muito contra-intuitivos que sejam. Devemos substituir opiniões por conhecimento.
Para concluir uma entrada já demasiado longa, resumo a minha resposta a Vital Moreira: (1) o pressuposto de que a poupança é proporcional ao rendimento não é essencial à tese, (2) poupança actual (ressalvando aqui os questões com a afectação inter-temporal de recursos) não é mais do que consumo futuro, pelo que paga impostos e (3) mesmo que vá contra a nossa intuição, está longe de ser um facto que as taxas de poupança sejam mais altas para rendimentos maiores.
* A não ser que gasto no estrangeiro, pelo que aqui seria necessário entrar com outras considerações, como, por exemplo haver coordenação ao nível da União Europeia.

Pois eu não digo esfola, mas digo que o exercício de IC não me convence.
É óbvio que sem coordenação a nível europeu a ideia do imposto único (mesmo que mitigado pelo subsídio único) proposta por IC não faria sentido porque deslocaria parte da despesa para os mercados não aderentes e mais próximos. A deslocação a Badajoz para encher o tanque de combustível, p.e., sendo o diferencial de 3 p.p., já hoje parece justificar a deslocação.
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Por outro lado, pensionistas alemães e ingleses a residir no Algarve, procurariam outras paragens.
Os pensionistas portugueses ou retirados com bons rendimentos iriam para a Flórida (alguns já vão). Ficariam os pensionistas sem rendimentos para a deslocação a pagar IVA sobre tudo quanto recebem.
A muito longo prazo o modelo funcionaria se funcionasse uma nova ordem fiscal internacional, isto é, se todo o mundo a adoptasse.
Alguém acredita que isso algum dia será possível?
O modelo de IC é demasiado simplificado e não conta com aquilo a que cada vez mais é determinante na competição entre mercados: a competitividade fiscal.
Comment by rui fonseca — May 27, 2007 @ 2:54 pm
“Pois eu não digo esfola, mas digo que o exercício de IC não me convence.”
Nao e’ um exercicio. E’ um artigo cientifico que, de certeza absoluta, dada a sua qualidade, vai ser publicado numa boa revista cientifica internacional. Exercicio foi o que eu fiz.
“É óbvio que sem coordenação a nível europeu a ideia do imposto único (mesmo que mitigado pelo subsídio único) proposta por IC não faria sentido porque deslocaria parte da despesa para os mercados não aderentes e mais próximos. ”
E’ interessante que sendo tao obvio, apenas depois de eu ter referido esse problema e a necessidade de coordenacao ao nivel da UE, aperece alguem a referir isso. Tao obvio nao e’? De qualquer forma, sim, estamos de acordo, uma proposta destas exige coordenacao ao nivel da UE.
“O modelo de IC é demasiado simplificado e não conta com aquilo a que cada vez mais é determinante na competição entre mercados: a competitividade fiscal. ”
Muito pelo contrario, isto que diz e’ um disparate, nunca vi uma proposta com maior competitividade fiscal. Tanto assim e’ que alguns paises da Uniao Europeia andam a tentar impedir que os novos paises da UE adoptem esquemas de “flat tax”
Comment by LA-C — May 27, 2007 @ 3:07 pm
Mea culpa. No meu comentario anterior deveria ter mostrado o meu espanto copm a ideia do Rui Fonseca sem ter dito que o que ele disse era um disparate. Afinal de contas, quando algo tao arrojado e contra-intuitivo como o artigo da Isabel Correia e’ posto a’ frente dos nossos olhos e’ normal que se estranhe durante uns tempos.
Comment by LA-C — May 27, 2007 @ 3:42 pm
Penso que não são comparáveis os efeitos do “flat tax” sobre os rendimentos com o “flat tax” sobre o valor acrescentado.
De qualquer modo espero sinceramente que o estudo científico (retiro exercício, que usei sem intenção depreciativa) de IC mereça acolhimento, e que eu esteja redondamente enganado.
Se estiver, e a proposta não tardar muito a ser adoptada, talvez eu próprio possa ainda recolher vantagens.
Apenas um comentário mais: Conclui IC que “se houver uma reforma que ao mesmo tempo que aumenta o imposto sobre o consumo se subsidia o trabalho, de modo a que o agente económico não sinta desincentivos a trabalhar, esta alteração financia os gastos públicos, assim como os subsídios ao trabalho, através da componente não distorcionária do imposto sobre o consumo, e por isso é um código fiscal óptimo”
Se bem percebo é neste ponto que IC inverte as perspectivas do senso comum: menos imposto sobre o trabalho, mais disponibilidade para trabalhar, mais produtividade, mais competitividade, mais produção, mais riqueza, mais consumo, mais imposto indirecto cobrado, e por adiante outra vez num ciclo cheio de virtualidades. Só não me envergonho de tanta falta de competência para lá chegar porque, pelos vistos, só muito poucos já deram com o truque.
Comment by rui fonseca — May 27, 2007 @ 7:43 pm
Peço o favor de uma correcção: Onde escrevi truque (última palavra) corrija para “subtileza” . Obrigado.
Comment by rui fonseca — May 27, 2007 @ 8:23 pm
A ideia defendida nos posts não parece, assim, tão moderna:
«Como se realiza uma repartição correcta do rendimento nacional? Que mais é necessário, para além de igualar os níveis de propriedade e de fazer incidir sobre os indivíduos impostos únicos?
Os mais perfecionistas dizem: em primeiro lugar, as pessoas devem continuar a auferir uma parte do seu rendimento sob a forma de salários mas, em segundo lugar, estas remunerações devem ser acompanhadas de um suplemento na forma de um dividendo social per capita, ou seja, de um imposto negativo sobre o rendimento. “Economia Samuels/Nordhaus – 1985”»
Comment by António — May 27, 2007 @ 8:32 pm
Um pouco de números:
- Os impostos (directos e indirectos) representaram, em 2006, 28% do consumo (privado e público).
- Se fosse concedido um subsídio de 100 euros/pessoa/mês, a taxa do imposto único deveria ser de 38%, assumindo inexistência de fraude fiscal.
Uma taxa tão elevada não seria um incentivo à fraude?
Permanece a necessidade de se reduzir o peso do Estado.
No entanto, esta não é a questão central mas antes, a possibilidade , demonstrada, de um imposto único sobre o consumo, ter as propriedades consideradas “justas”, de um sistema progressivo.
A contribuição deste tipo de propostas será não tanto a de nos convencer a adoptá-las, mas, antes, a de nos fazer caminhar nesse sentido. Não faltam por aí economistas e fiscalistas que demonstram à saciedade a infeciência do nosso regime fiscal.
Comment by Artur Rodrigues — May 27, 2007 @ 8:54 pm
Luís,
uma pergunta de um leigo: supondo que a ideia fosse possível, a necessidade de coordenação entre os países da UE devido ao consumo dos portugueses no estrangeiro, não seria compensada pelo consumo dos estrangeiros em Portugal? (Não faço ideia do que representa anualmente esse consumo)
Comment by Helder — May 27, 2007 @ 11:07 pm
1.Isabel Correia assume que os agentes apenas diferem na sua dotação inicial de riqueza logo está implícito que a taxa de poupança para os agentes (e consequentemente o Agente representante) são iguais.
2.É da sua convicção que, em média, alguém que ganhe 500 euros por mês poupa o mesmo, em percentagem do seu rendimento, do que alguém que aufere 3000 euros por mês (mesmas preferências).
3. Mesmo que tenha respondido que sim, quero-lhe dizer que as chamadas Precationary savings são posteriores ao Sr. Friedman e os dados protegem esta hipótese que implica poupanças diferentes para agentes com salários diferentes. Portanto abandonemos as teorias e não os factos.
Comment by Rui Cabral — May 28, 2007 @ 2:11 am
Eu acho uma perda de tempo a guerra entre tipo de impostos.
A simplificação que proponho é uma taxa única para o IRS, IVA e IRC, passando o sistema politico a discutir se seria 20% ou 21% ou 19%, etc.
Pelos menos tornaria mais clara as escolhas “democráticas” (dado a descer um para subir outro qualquer) e à partida diminuiria em muito a taxa marginal máxima de IRS (como ponto de partida 20% parece-me bem, esta é a taxa de retenção para os juros).
O que se simplifica aqui é a discussão e se calhar isso é mesmo o fundamental.
Depois o papel dos liberais seria propôr a descida gradual dessa taxa única.
Comment by Anonymous — May 28, 2007 @ 9:09 am
“uma pergunta de um leigo: supondo que a ideia fosse possível, a necessidade de coordenação entre os países da UE devido ao consumo dos portugueses no estrangeiro, não seria compensada pelo consumo dos estrangeiros em Portugal?”
Parece-me que o principal problema é que se Portugal tivesse uma taxa de IVA de 35% e a Espanha de 16% ninguém quereria cá vir fazer compras. Claro que tal seria compensado pelo facto dos produtos feitos em Portugal não terem incorporados no preço qualquer outro imposto, pelo que os nossos serviços hoteleiros poderiam ser mais competitivos.
A resposta, honesta, à tua pergunta é não sei. Teria de se estudar bastante bem antes de se avançar com uma medida deste género, naturalmente.
“1.Isabel Correia assume que os agentes apenas diferem na sua dotação inicial de riqueza logo está implícito que a taxa de poupança para os agentes (e consequentemente o Agente representante) são iguais.”
Para já não está nada implícito tal coisa, depois se o que se está a estudar são questões de equidade, queria que os agentes fossem diferentes em quê? Obviamente que é na sua dotação inicial de riqueza (e também de capital humano, parece-me que se está a esquecer deste ponto).
“É da sua convicção que, em média, alguém que ganhe 500 euros por mês poupa o mesmo, em percentagem do seu rendimento, do que alguém que aufere 3000 euros por mês (mesmas preferências).”
Mas quais mesmas preferências? Pode ter as mesma preferências e ter taxas de poupança para rendimentos diferentes! Se duas famílias têm as mesmas preferências apenas se conclui que se ambas ganhassem 500 poupariam o mesmo, e que se ambas ganhassem 3000 poupariam o mesmo, não lhe permite concluir que se uma ganhar 500 e outra 3000 que as taxas de poupança são diferentes.
Mas, pergunto-lhe, se o que se está a estudar é a equidade, o que é que se ganha em assumir que as preferências são diferentes? E ia assumir o quê? Que os pobres preferem Fiats Uno e os ricos preferem Ferraris? É falso, todos preferem os Ferraris, agora uns têm dinheiro para os comprar, outros não.
“os dados protegem esta hipótese que implica poupanças diferentes para agentes com salários diferentes. ”
Com certeza que o que concluem é que trabalhadores com salários mais voláteis poupam mais, em média.
Comment by LA-C — May 28, 2007 @ 9:14 am
“Se a hipótese de que famílias mais pobres têm taxas de poupança menores do que as mais ricas estivesse correcta, então sociedades com maiores desigualdades económicas seriam sociedades com maiores taxas de poupança”
Não - se a taxa de poupança for crescente com o rendimento, mas esse crescimento for muito decrescente, maior desigualdade pode levar a menores taxas de poupança.
Exemplo - imagine-se que as pessoas que ganham 100 contos poupam 0%, as que ganham 200 10% e as que ganham 300 12,5%; uma sociedade de 2 pessoas a ganharem 200 contos cada terá uma taxa de poupança (10%) maior que uma sociedade em que um ganha 100 e outro 300 (9,375%).
Comment by Miguel Madeira — May 28, 2007 @ 10:53 am
Tens razão, Miguel. Estava, como adivinhaste com toda a certeza, implicitamente a assumir algo mais perto do linear, de qualquer forma, o argumento implcito de quem levanta este ponto não é algo do genero que tu descreves (caso o fosse, esse ponto não seria assim tão importante) e, novamente repito, isto não é essencial na minha argumentação.
Comment by LA-C — May 28, 2007 @ 10:59 am
1.Pelo que pude ler quando os agentes diferem na sua eficiência de trabalho as conclusões não são as mesmas.
Quando a heterogeneidade não é apenas na riqueza financeira mas também na eficiência do trabalho, e estas duas dimensões estão perfeitamente correlacionadas, não existem efeitos na distribuição.
2.E o estudo ainda admite que se os agentes se diferenciarem exclusivamente em eficiência de trabalho a mudança para um sistema de impostos baseado exclusivamente no consumo a desigualdade aumenta.
3.Fiquei confuso com a sua exposição…o que tentei perguntar é se acreditava mesmo que dois agentes iguais apenas diferenciados pelo seu rendimento tinham taxas de poupança iguais. Pelo que entendi mesmo sendo assim teriam taxas de poupança diferentes o que contribui para o ponto que pessoas com rendimentos diferentes não têm taxas de poupança iguais logo sao taxadas de forma diferente e mais regressiva.
4.Também, mas o principal argumento das precautionary savings tem a ver com a incerteza dos choques. Desta forma estamos a falar de impactos da poupança devido aos níveis de salários e não à sua volatilidade. Embora a apreciação da volatilidade também esteja correcta.
5.Se se quiser tratar qualquer coisa convém fazer hipóteses simplificadoras, mas a sua adaptação à realidade tem de passar por pensar nestas hipóteses simplificadoras. Nós não nos diferenciamos apenas pela riqueza inicial, diferenciamo-nos também pelas nossas preferências, eficiência de trabalho etc. E estas diferenças têm impacto no que consumimos na forma como somos taxados. Vamos taxar quem consome mais em proporção do seu rendimento ou quem tem essa necessidade? Este modelo não é um overlapping generations logo assume que todos vão consumir os seus rendimentos e riqueza, logo são taxados à mesma taxa. Mas com Gerações que deixam parte da sua riqueza para gerações seguintes, uns mais que outros, todos acabam por ser taxados de forma diferente.
Lembro um caso prático de alguém em estado vegetativo ou coma, recebe o mesmo subsídio (ou imposto negativo) que eu e o eng Belmiro de Azevedo mas tem necessidades de consumo mais elevadas. Não faz sentido…
Mas é um óptimo paper.
Comment by Rui Cabral — May 28, 2007 @ 1:34 pm
Rui,
quarta-feira tentarei voltar cá para responder.
Comment by LA-C — May 28, 2007 @ 2:01 pm
Obrigado Luís e bom trabalho!
Comment by Rui Cabral — May 28, 2007 @ 6:08 pm
Não li o wp (nem tenho infelizmente disponibilidade para o fazer), mas não entendo como se pode considerar que a diferenciação de taxas de poupança seja irrelevante para avaliar da equidade de um imposto sobre o valor acrescentado.
Parece-me seriamente discutível dizer que, para determinado indivíduo/família, a poupança de hoje é o consumo de amanhã. É admissível que em parte assim possa ser. Mas porque não será de considerar que uma parte substancial da poupança seja permanentemente “renovada”, sobretudo quando estamos a falar de fundos que produzem um rendimento periódico significativo?
Quanto à questão do rendimento permanente, se percebi bem as suas palavras, não me parece que anule as objecções. A crer na hipótese do rendimento permanente, a poupança oscilaria no sentido de garantir aquilo que cada indivíduo/família consideraria ser as suas possibilidades de consumo em função do seu rendimento futuro previsível. Uma tal noção implica pelo menos dois pressupostos: que toda e qualquer família tenha perspectivas que lhe permitam planear com um mínimo de fiabilidade o seu futuro; e que tenham capacidade de endividamento. Parece-me que existe uma franja mais ou menos significativa de famílias para as quais não é possível planear as suas vidas face ao “risco social” que enfrentam (a menos que se considere que a “opção” por um nível de consumo compatível como o que reputamos de limiar de pobreza é uma forma de planeamento). Ainda que essas famílias fossem imunes ao risco (possibilidade de que as suas expectativas de rendimento futuro se frustrem), seria necessário que tivessem a possibilidade de se endividarem de forma a que o seu consumo seja compatível com um “rendimento permanente”…
Para além disso, há uma diferença “moral” que torna a tributação indirecta, desta forma, iníqua:
• Tributa mais fortemente as pessoas que poupam menos em razão de estarem em fase inicial das suas vidas “profissionais”, i.e., numa fase em que há teoricamente um maior risco de que as expectativas de vida das pessoas possam não se vir a concretizar;
• Tributa de forma superior aqueles que consomem todo o seu rendimento não em razão de uma escolha propriamente dita mas em razão de o seu rendimento ser pouco mais que suficiente para assegurar as suas necessidades básicas.
Para além disso, parece-me que tributar apenas o consumo com o argumento de que a poupança é consumo futuro que mais tarde ou mais cedo acabará por ser tributado equivale a dizer que é indiferente em termos de equidade o momento em que o imposto é pago. Se eu tiver essa possibilidade posso “optar por pagar mais tarde”, independentemente de ter ou não num dado momento o rendimento que o justifica. É uma escolha que nem todos, no entanto, poderão fazer…
Vamos taxar quem consome mais em proporção do seu rendimento ou quem tem essa necessidade?
Comment by Pedro Ribeiro — May 28, 2007 @ 9:59 pm