Ciganos, missionários do comércio livre
A Sandra foi à Feira. Aqui na Tocha, todos os Domingos, temos feira. Domingo de Páscoa não é excepção. Entre imensos vendedores, encontram-se uns tios do Quaresma, o jogador cigano do Porto. O tio é benfiquista, já a tia só quer que o sobrinho ganhe. Fui-lhes dar os parabéns depois daquele golo à Bélgica.
Estes ciganos são os contrabandistas do nosso tempo. Talvez por ter família na Raia, ali mesmo ao lado de Espanha, sempre tive um grande respeito por contrabandistas. O meu avô fez contrabando. Dezenas de quilómetros a pé com sacos de mercadoria às costas. O seu filho mais novo, o meu tio Jaime, seguiu-lhe as pisadas. O meu tio mais velho, o tio Manuel, degenerou, e foi guarda-fiscal. Pediu transferência para Lisboa, para evitar conflitos de interesses.
No tempo em que as nossas fronteiras estavam fechadas, antes de entrarmos na CEE, o meu tio ia a Espanha comprar gado. Trazia-o a pé pelas montanhas e vales, atravessando as fronteiras gélidas das noites de Inverno. No Verão tinha a companhia do meu irmão Artur. Pelo caminho perdiam-se sempre algumas ovelhas. Muitas vezes vinham vender as ovelhas a Coimbra. À feira dos 7 ou à feira dos 21. Quando era apanhado, a mercadoria era apreendida, pagava pesadas multas e arriscava prisão.
Nunca ninguém me conseguiu explicar que crime era esse, o de ir comprar ovelhas a Espanha para vender barato em Portugal. Na altura, como hoje, o Estado dedicava-se a manter os preços artificialmente altos. Na época, recorria-se a uma burocracia alfandegária de assustar, aliada a fortes impostos aduaneiros. As tácticas não mudaram muito. Hoje recorre-se a uma miríade de impostos, directos e indirectos, que impedem os preços baixos e que asfixiam o pequeno comerciante.
Os contrabandistas eram os missionários do mercado livre, que mitigavam as consequências nefastas das políticas dos nossos governantes. Concorrência desleal? Com certeza. Tal como é concorrência desleal todos os subsídios e isenções que são dados às grandes empresas. A diferença é que num caso a deslealdade é legal e apoiada por políticos e partidos que procuram financiamentos e empregos. No outro caso, são as populações que agradecem. Já antes do 25 de Abril os contrabandistas tinham sido essenciais para ajudar os foragidos do regime a fugirem de assalto para França. Também nessa altura, foram os contrabandistas missionários da liberdade.
Agora, com as fronteiras abertas, os ciganos correm as feiras deste país. São eles que desempenham a missão dos contrabandistas. Não estando institucionalizados, garantem preços acessíveis. O cigano enfrenta o poderio das grandes marcas, que conseguiram desenhar um sistema jurídico internacional que as protege e lhes dá o direito exclusivo de escrever um dado nome numa etiqueta.
Quem vai à feira sabe ao que vai. Não é enganado. O Cigano é honesto. Ainda na semana passada ouvi um cliente a perguntar a um cigano se aquela camisa era mesmo da ‘Hugo Boss’. Ao que o cigano respondeu:
- Acha? Acha mesmo que sim? Parece-lhe que se a marca fosse verdadeira eu a vendia tão barata? E não se preocupe com o número da calça. O número do cigano não diz nada. Leve as calças, se não servirem, volte cá para a semana. A gente troca.
A nossa GNR, como se a soldo das grandes marcas, vai-lhes confiscando a mercadoria sempre que pode. Encurralam o cigano, roubam-lhes o modo de vida, privam povoações inteiras dos seus produtos baratos. Tudo em nome do combate à Economia Paralela e à fuga aos impostos. Mas em vez de combaterem a economia paralela, estimulam uma economia subterrânea: a do tráfico de drogas.

1) Bom texto. Pena que tenha incluído a última frase, desculpabilizante para os sujeitos da acção. Por que é que a alternativa à venda em feiras tem de ser o tráfico de drogas ?
2) E já agora: à luz da tese que se defende ao longo do seu texto (satisfação da procura), em que medida é que o tráfico de drogas (como actividade subterrânea, ilegal) difere da venda de produtos contrafeitos ?
Comment by AS — April 8, 2007 @ 3:45 pm
Subscrevo as perguntas que antecedem, e acrescento mais duas:
- Se aos ciganos (segundo a sua tese) deve ser consentido o comércio paralelo, isto é, dispensado de impostos em artigos contrafeitos, por que não a todos os comerciantes em geral, incluindo o maior deles?
- E por que não a mim, que não faço contrafacção alguma? E a si, que certamente também paga impostos?
Segundo gente tida como competente na matéria ( a Mckenzie, p.e.) o crescimento económico em Portugal poderia ser outro (muito mais elevado, entenda-se) se fosse reduzida a importância da economia paralela na nossa economia. A economia paralela corrói o tecido económico.
Que me diz a isto?
Comment by rui fonseca — April 9, 2007 @ 2:44 pm
Eu de ciganos percebo pouco, agora de comércio livre, um pouquito mais
O cartão do telm que tenho por ex o Optimus pioneiros, é um exmplo disso concorrência e resposta com melhores soluções. neste caso o tarifário é super baixo para garantir a satisfação é prai 0,02€ mais coisa menos coisa, podem ver no site deles. http://www.lojaoptimus.info/
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Comment by net-woman — April 9, 2007 @ 7:29 pm
“Por que é que a alternativa à venda em feiras tem de ser o tráfico de drogas?”
Não me parece que tenha escrito isso.
“E já agora: à luz da tese que se defende ao longo do seu texto (satisfação da procura)”
Que raio de tese!
“em que medida é que o tráfico de drogas (como actividade subterrânea, ilegal) difere da venda de produtos contrafeitos ?”
Se não vislumbra qual a diferença entre vender um um par de calças e umas doses de heroína, não sou eu que lhe vou explicar.
“- Se aos ciganos (segundo a sua tese) deve ser consentido o comércio paralelo, isto é, dispensado de impostos em artigos contrafeitos, por que não a todos os comerciantes em geral, incluindo o maior deles?”
Bolas!, quando falei nos contrabandistas que existiam devido ao fecho das fronteiras, pensei que era claro que aquilo que eu defendia não era o contrabando, mas sim a abertura de fronteiras, que se veio a verificar.
Quando falo na Economia paralela que existe por causa da excessiva burocratização e do nível absurdo de impostos que pagamos (que chega a ser verdadeiramente tortuoso para o pequeno comerciante e para o pequeno industrial), o que defendo é que toda a nossa actividade económica seja desburocratizada e não que nos dediquemos todos a actividades ilegais.
“Segundo gente tida como competente na matéria ( a Mckenzie, p.e.) o crescimento económico em Portugal poderia ser outro (muito mais elevado, entenda-se) se fosse reduzida a importância da economia paralela na nossa economia. A economia paralela corrói o tecido económico.
Que me diz a isto?”
Quando fala em gente tida como competente na matéria… tida por quem? Compreenderá que não é um qualquer relatório feito pela Mackenzie, encomendado pelo nosso governo, cheio de lugares comuns, contradições e disparates que ia alterar a minha opinião sobre estes assuntos. Apesar de tudo, e, para ser sincero, parece-me que fazemos interpretacoes diferentes do relatório que refere. (Pelo menos se é o relatório que eu penso, mas posso estar enganado, obviamente.)
Comment by LA-C — April 9, 2007 @ 11:57 pm
“Por que é que a alternativa à venda em feiras tem de ser o tráfico de drogas?”
Não me parece que tenha escrito isso.”
Pode não te parecer mas foi exactamente isso que escreveste. Caso não falasses em ciganos, grupo associado ao tráfico de drogas, ainda poderia ser aceitável a tua frase. Assim, para ser brando, foi uma frase infeliz.
Comment by Anonymous — April 10, 2007 @ 9:56 am
“Pode não te parecer mas foi exactamente isso que escreveste. ”
Pode ser mais preciso? Onde é que escrevi tal coisa?
Comment by LA-C — April 10, 2007 @ 10:06 am
Uma vez que o LA-C se recusa a responder a perguntas tão fáceis, vou meter o bedelho.
«Mas em vez de combaterem a economia paralela, estimulam uma economia subterrânea: a do tráfico de drogas.» A seguir a um texto sobre a actividade cigana de venda de contrafacção, é óbvio que esta frase só pode ser interpretada como: “se o cigano não vende contrafacção, resta-lhe partir para outras actividades”. Parece-me que foi isso que o LA-C quis dizer o que não significa que concorde necessáriamente com a bondade das opções. O LA-C limitou-se a analisar uma realidade. O mercado tem uma grande força que se nota tanto mais quanto maior e insensivel for a intervenção estatal. Insensível no sentido de ignorar o que é o mercado e como funciona a economia, cujas leis (qual Física) não se alteram por decreto.
Quem vai aos ciganos não vai na esperança de encontrar roupa de marca, mas sim boas imitações buscando aprovação social. Procura parecer o que não é. Alguns agentes do mercado apercebem-se disso e vêem aí uma oportunidade de negócio com margem de lucro muito inferior ao das marcas, mas ainda assim compensador. Procura e oferta estão de acordo em comprar/vender uma fraude. Se não existisse este mercado a Boss não venderia mais roupa porque maioria dos compradores não está disposta a dispender a quantia que eles pedem. Teria de se contentar com outra qualquer roupa. As classes sociais seriam, por essa via muito mais diferenciadas. Os ciganos contribuiram, sem dúvida, para a dissolução das classes sociais.
Olé!
Comment by Tarzan — April 10, 2007 @ 10:41 am
Tarzan, muito obrigado pelas achegas.
Quero pedir desculpa aos leitores, mas neste momento sou obrigado a instaurar um esquema de visto prévio. Ou seja, antes de serem publicados os comentários eu terei de os autorizar.
Tal acontece porque existe um energúmeno que anda a deixar comentários racistas e xenófobos e ainda por cima tem a lata de assinar com o meu nome.
Comment by LA-C — April 10, 2007 @ 11:07 am
“Acha? Acha mesmo que sim? Parece-lhe que se a marca fosse verdadeira eu a vendia tão barata? E não se preocupe com o número da calça. O número do cigano não diz nada. Leve as calças, se não servirem, volte cá para a semana. A gente troca.”
Esse cigano é cinco estrelas. Nunca encontrei um assim!
Comment by Waldek — April 10, 2007 @ 12:10 pm
«Não me parece que tenha escrito isso.»
Fiz uma pergunta, não uma afirmação. Vamos então ao que escreveu: “Tudo em nome do combate à Economia Paralela e à fuga aos impostos. Mas em vez de combaterem a economia paralela, estimulam uma economia subterrânea: a do tráfico de drogas.”
E estas afirmações contêm de facto uma sugestão de que o combate ao comércio de produtos contrafeitos estimula o tráfico de drogas. Daí a minha pergunta: “Por que é que a alternativa à venda em feiras tem de ser o tráfico de drogas ?”
Comment by AS — April 10, 2007 @ 1:13 pm
«Que raio de tese!»
Que raio de “resposta” !
Comment by AS — April 10, 2007 @ 1:14 pm
«Se não vislumbra qual a diferença entre vender um um par de calças e umas doses de heroína, não sou eu que lhe vou explicar.»
Se não vislumbra a semelhança entre defender o comércio ilegal de produtos contrafeitos com o argumento de que vão ao encontro da procura não satisfeita (com a utilização abusiva de marcas em que outros investiram milhões de Euros em publicidade e em desenvolvimento de produto), e defender o comércio ilegal de quaisquer outros produtos que correspondam à satisfação de uma necessidade da procura (seja-se ou não um apoiante moral dos seus comerciantes e/ou consumidores), então percebo que tenha dado a “resposta” que deu.
Comment by AS — April 10, 2007 @ 1:16 pm
Um certo pensar:
1) Lei boa – a que proíbe os produtos maus (que eu acho maus);
2) Lei má – a que proíbe os produtos bons (que eu acho bons);
3) Oferta boa – a que “dá a volta” à lei má (que eu acho má);
4) Oferta má – a que “dá a volta” à lei boa (que eu acho boa).
Comment by AS — April 10, 2007 @ 1:17 pm
“E estas afirmações contêm de facto uma sugestão de que o combate ao comércio de produtos contrafeitos estimula o tráfico de drogas. ”
De acordo.
“Daí a minha pergunta: “Por que é que a alternativa à venda em feiras tem de ser o tráfico de drogas ?” ”
Não lhe consigo justificar uma afirmação com que não concordo.
“Se não vislumbra a semelhança entre defender o comércio ilegal de produtos contrafeitos com o argumento de que vão ao encontro da procura não satisfeita”
Mas eu vejo algumas semelhanças, de facto. Mas a sua pergunta era em que medida é que uma coisa se distinguia da outra, ou seja, em que medida é que vender umas calças contrafeitas é diferente de vender umas doses de droga. Repito, a sua pergunta era sobre as diferenças. E aqui a resposta que lhe dou é só uma: não lhe vou explicar as diferenças. Se não sabe a diferença sugiro que se informe, mas não comigo.
“Um certo pensar: 1), 2) 3) 4)”
Acredito que sim, que seja um certo pensar, mas não é o meu.
Comment by LA-C — April 10, 2007 @ 1:38 pm