Em Portugal, um referendo apenas é juridicamente vinculativo quando a participação eleitoral excede os 50%. Argumenta-se que um quórum mínimo é necessário para garantir que a votação é representativa. Não é uma idiossincrasia nossa, por exemplo, Itália tem legislação idêntica. Mas se em Portugal nenhum referendo foi vinculativo, o que dizer dos italianos?
Nos últimos 10 anos, realizaram-se oito referendos em Itália. Desses oito, apenas o último, realizado em 2006, teve uma abstenção inferior a 50%. O que diferenciou este referendo? Não exigiu um quórum mínimo. Paradoxalmente, o único que satisfez o quórum, foi também o único que não reclamava quórum. Terá sido mera coincidência? Não. Quem acredita que vai votar na proposta derrotada pode, lucidamente, abster-se, contribuindo para que o quórum eleitoral não seja atingido.
É o que tem acontecido em Itália. Por exemplo, num referendo em 2005 tentava-se facilitar a fertilização in vitro. O Cardeal Camillo Ruini, com o apoio explícito do Papa Bento XVI, exortou o povo católico a não sair de casa. A estratégia teve efeitos. Dos que votaram, cerca de 80% eram a favor, mas, com uma abstenção de 75%, os resultados não foram vinculativos e a lei manteve-se catolicamente inalterada. Este exemplo ilustra bem o efeito perverso de normas que exigem que haja um número mínimo de votantes: estimulam a abstenção.
Em Portugal, tem-se respeitado os resultados dos referendos. Mas nada obriga a que assim seja. No passado, ouvimos Cavaco Silva veladamente a ameaçar com o veto presidencial, impondo condições à lei despenalizadora do aborto, que foi aprovada em Assembleia. Tal ameaça seria de constitucionalidade discutível caso o referendo tivesse sido vinculativo. Num futuro referendo sobre a Constituição Europeia, com resultados não vinculativos, quem nos assegura que o provável “Não” maioritário será respeitado? Alguém põe as mãos no fogo pelos nossos deputados?
Com uma abstenção de 56% no último referendo sobre a despenalização do aborto, o “Sim” não foi vinculativo. Mas se 600 000 eleitores em vez da abstenção tivessem optado por votar “Não”, a abstenção teria sido inferior a 50% e o “Sim” teria ganho com 51% dos votos. Ou seja, com igual número de votos a favor do “Sim” e bastantes mais a favor do “Não”, o resultado seria vinculativo a favor do “Sim”. Paradoxalmente, alguém que, em vez de ficar em casa, ia votar “Não” estava a ajudar o “Sim”.
Cada eleitor enfrenta o mesmo conflito do Cardeal Camillo Ruini. Ao abster-se, contribui para que os adversários consigam a maioria dos votos. Ao votar, pode contribuir para que os rivais consigam uma vitória que satisfaça o quórum. Quando se adivinha que se está em minoria, a melhor estratégia é alcançar uma maioria com os abstencionistas.
Como evitar este absurdo? Bastaria não haver quórum mínimo e os resultados serem sempre vinculativos. O problema desta medida, argumentarão alguns, é que não se garante que os referendos sejam suficientemente representativos.
Há uma alternativa satisfatória que vigora em alguns países. Em vez de se exigir um número mínimo de votos totais, exige-se um mínimo de votos na proposta vencedora. Por exemplo, em vez de se exigir 50% de participação, exige-se que pelo menos 25% dos eleitores votem na proposta vencedora. Assegura-se a representatividade do referendo e ninguém corre o risco de ajudar os adversários com o seu voto. Desaparece a coligação entre derrotados e abstencionistas, porque para o quórum apenas contam os votos da maioria. O eleitor nada ganha em ocultar as suas preferências por baixo do véu abstencionista.
* Publicado no suplemento de Economia do jornal Público em 30 de Março de 2007

Muito, muito bom.
Se esta pratica dos referendos vier para ficar, é forçoso que se siga os caminhos que o post aponta. E, como é muito provável que os refrendos se vão itensificar, o Luís poderá muito legitimamente dizer que foi o primeiro a indicar o caminho.
Comment by Waldek — March 30, 2007 @ 1:07 pm
“o Luís poderá muito legitimamente dizer que foi o primeiro a indicar o caminho. ”
Não, não. Não quero ficar com créditos que não tenho. Não há uma ideia original neste texto. Num próximo ‘post’ indicarei a bibliografia que serviu de base a este artigo.
Comment by LA-C — March 30, 2007 @ 1:46 pm
Achei o texto (que li primeiro no Público) tão relevante que me permite fazer para ele uma chamada de atenção aqui http://maquinaespeculativa.weblog.com.pt/2007/03/30/como_se_manipula_um_referendo
Comment by Porfírio Silva — March 30, 2007 @ 2:05 pm
Tomando como verdadeiros os números que dás para o referendo italiano, temos que apenas 25% dos votantes votaram, e 80% deles a favor da alteração da lei. Isto significa que tomando em conta a população total o resultado foi de 20%-5%. Se considerarmos que 25% se abstiveram para que o referendo não tivesse efeito vinculativo e eram contrários à alteração da lei, isso significa que, se eles tivessem votado, o resultado (novamente em termos de população total) seria de 20% a favor da alteração e 30% contra. Ou seja, neste exemplo, seria melhor que eles tivessem votado, porque teriam a vitória com um carácter vinculativo.
Isto significa que, no exemplo que dás, o cardeal Ruini não tomou a decisão correcta. Se ele tivesse apelado a que os católicos votassem não, uma de três situações aconteceria: o sim seria vencedor (por uma margem menor) mas o referendo não seria vinculativo, o não seria vencedor mas o referendo não seria vinculativo ou então, no caso do referendo ser vinculativo (mais de 50% de votantes), isto significaria uma vitória do não. Os três cenários seriam melhores para a Igreja católica do que o resultado que se verificou. É claro que esta análise só é possível após a votação e talvez seja menos arriscado apelar à abstenção.
De qualquer forma, acredito que talvez haja um melhor exemplo nos referendos italianos que possam suportar melhor a tua tese da vantagem de quem se encontra em minoria em se abster. Como por exemplo, e como referes, o referendo português relativamente à despenalização do aborto. Embora essa vantagem fosse neste caso limitada pelo facto de as forças políticas previamente terem concordado que respeitariam os resultados do referendo, mesmo com menos do que 50% de votantes.
Comment by Luis Parreira — March 30, 2007 @ 4:50 pm
“Isto significa que tomando em conta a população total o resultado foi de 20%” (…) “Isto significa que, no exemplo que dás, o cardeal Ruini não tomou a decisão correcta.”
Estás a esquecer-te de dois aspectos:
1) Tu estás a trabalhar com dados a posteriori, enquanto o cardeal apenas tinha expectativassobre o assunto e de forma alguma podia ter a certeza de que o resultado seria de 20% e não de 26%.
2) É perfeitamente possível (e provável) que face à brutal abstenção que se adivinhava muitos dos apoioantes do “Sim” nem se tenham dado ao trabalho de ir votar. Ou seja, se o cardeal tivesse seguido uma estratégia diferente o número de votos “Sim” teria aumentado.
Comment by LA-C — March 30, 2007 @ 5:47 pm
Não me estava a esquecer do primeiro aspecto, daí ter precisamente referido no meu comentário: “É claro que esta análise só é possível após a votação e talvez seja menos arriscado apelar à abstenção”.
Quanto ao segundo, pode de facto acontecer isso, mas também pode acontecer uma maior mobilização dos defensores do sim, que sabendo do risco da participação no referendo não atingir os 50% vão votar para garantir que este número é atingido.
O meu comentário não foi feito para pôr em causa a tua análise, que acho muito válida e pertinente, mas tão somente para constatar que o exemplo que escolheste talvez não tenha sido o melhor para suportar a tua teoria.
Comment by Luis Parreirais Parreira — March 30, 2007 @ 6:44 pm
~”O meu comentário não foi feito para pôr em causa a tua análise,”
Ó Luís! Até parece que não me conheces, estou apenas a debater ideias. Não tinha lido a frase que referes: “É claro que esta análise só é possível após a votação e talvez seja menos arriscado apelar à abstenção”.
Há outro questão relevante. Enquanto em Portugal os políticos se têm comprometido a respeitar os resultados dos referendos, em Itália a abstenão maioritária tem promovido o status quo.
Comment by LA-C — March 30, 2007 @ 10:21 pm
Muito bom.
(sim, podem chamar-me de papagaio do Waldek
)
Comment by António Dias — March 31, 2007 @ 2:02 pm
E se o voto fosse obrigatório? Tanto quanto sei em alguns países assim sucede, embora desconheça se a obrigatoriedade é aplicada aos referendos. Teríamos, é certo, que antecipar situações que objectivamente prejudiquem determinadas pessoas (pessoas doentes, por exemplo).
Comment by PJ — March 31, 2007 @ 4:35 pm
PJ
Claro que com o voto obrigatório se resolve o problema da representatividade.
Mas parece-me perigoso. Altas taxas de abstenção são um sintoma de que algo vai mal com a democracia. E a vantagem de observarmos os sintomas é que podemos actuar sobre as doenças que o causam. Ao instaurarmos o voto obrigatório, perdemos um importante indicador sobre a saúde da nossa democracia.
Comment by LA-C — April 3, 2007 @ 2:31 pm