Já por duas vezes aqui escrevi sobre a perversão de exigir mais de 50% de participação eleitoral para que os referendos sejam vinculativos. Pedro Magalhães também já escreveu sobre o assunto, em artigos no Público. Penso que a perspectiva dele não era exactamente igual à minha.

Neste referendo, o “Sim” ficou à frente do “Não” com uma diferença de 18,5 pontos percentuais. No entanto, como apenas votaram 43,6% dos eleitores, o resultado não é vinculativo.

Façamos um exercício contra-factual: o que aconteceria se houvesse 600 000 eleitores que em vez da abstenção tivessem optado pelo voto “Não”?
O Sim ganharia com 50,3% dos votos e a abstenção seria de apenas 49,6%. Ou seja, teríamos o mesmo número de pessoas a favor do “Sim”, 600 000 pessoas mais a favor do “Não”, mas o resultado seria vinculativo. Quem acredita que vai votar vencido pode, racionalmente, optar pela abstenção. A abstenção é um voto estrategicamente útil.

Este critério parece-me absurdo. Para evitar paradoxos como o descrito, a regra deveria mudar. Em vez de se exigir 50% de participação, o que se deveria exigir era que o resultado vencedor tivesse sido votado por pelo menos 25% dos eleitores. Com isto, garantia-se que a abstenção estratégica seria inócua, incentivando-se assim a participação eleitoral.