Fui ver o mar. Acabo de regressar com ele aprisionado no peito. Respirei-o bem fundo e com a competente convicção para o cativar em mim. E trouxe-o também impresso na retina – olhei-me ao espelho, para confirmar, e de facto vi-o rebentar em inchas de uma alvura de fraldas de noiva… Estava mesmo sozinho, furioso e de sobrecenho soturno. Gosto de o surpreender assim! A sério. O porta-contentores que vi sair do cais não me deixa mentir. À medida que se ia fazendo ao alto mar, de tal sorte a proa se fincava naquele chão remexido, que as ondas se abraçavam por cima numa balbúrdia de espuma. Nessa altura estava eu já no alto da Serra da Boa Viagem, um amplo e fundo horizonte defronte dos olhos. Cheguei a casa há pouco, só o tempo de meter qualquer coisa à boca – serviu-me de jantar – e acolher-me a seguir à secretária. Tinha saudades dele, da sua voz absoluta e do seu insofrimento. Ao princípio da tarde, logo após o almoço, parti em direcção à Figueira da Foz. Segui pelo caminho velho, mais pachorrento e humanizado. Desde que a via rápida tomou posse do cargo, foi-se a pouco e pouco transformando numa estrada do lá vai um. À moda antiga e com aqueles encantos que as auto-estradas já não têm. Já lá não ia há muito tempo. Antero de Quental, quando estudante de Coimbra, ia, a pé, até à Figueira da Foz só para matar saudades do mar. Sou andarilho, mas nem tanto. Falta-me o fôlego de filósofo, que nele abundava, e sobretudo boas pernas. Também lá fui de comboio, desauridinho de todo, em Novembro de 1960 só para ver o mar. Tinha chegado a Coimbra cerca de um mês antes e havia qualquer coisa em mim que não funcionava a preceito. Depois de muitas voltas ao miolo, cheguei à conclusão de que me faltava a irrequieta companhia do mar-oceano em que nascera e cujo marulhar me tinha embalado a infância e adolescência. Lá parti à ventura na terceira de um comboio ronceiro, entre peixeiras que vinham mercadejar sardinha da areia e outras qualidades de peixe na praça do mercado de Coimbra. Ao desembarcar, pouco depois, encarei o assanhado toiro acinzentado investindo contra a areia. Tal foi a alegria que, à noite, depois de bem comido e mais bem bebido, fui para a praia deserta de Buarcos cantar-lhe uma serenata com a minha voz dissonante! O mar decerto não levou em conta o desafino, era o coração e não a garganta que entoava as trovas sentidas que lhe consagrava um ilhéu que há pouco tinha ficado seu órfão! A romagem de hoje teve outro sabor. Mais desenxabido. O ilhéu de agora já se foi acostumando ao mar de terra que o rodeia (humanas misérias) e asilou o mar legítimo num recanto do íntimo para seu consumo secreto.
Cristóvão de Aguiar

Já tinha saudades dos teus textos sacudinho memórias da ilha. Como tu, também a abandonei, durante vários anos, por Coimbra, Porto, Mondim, Penafiel. Agora em Espinho vejo o mar da janela. Todos os dias me encanta e me traz recordações do outro que fustiga os rochedos negros do Porto dos Carneiros e da baía de Santa Cruz. O de Espinho está hoje que nem um lago. Só lhe falta as verdes montanhas à volta para me sentir na cumieira da lagoa do Fogo.
Comment by Octávio Lima — January 29, 2007 @ 3:35 pm
recordações em belissimo registo! também tenho saudades do mar, do meu mar algarvio. sobretudo no inverno. bravio, sereno, azul, esverdeado ou cinza de zanga aquieta a angústia da vida.
:)
Comment by moriana — January 30, 2007 @ 11:20 am
O seu poema teve o condão de me fazer chegar nesta manhã fria e cinzenta, que anuncia por cima da Serra de Sintra, fica ali em frente, uma tarde de chuva, a maresia do mar do nosso Mondego.
Nasci à beira dele e as nossas rotas, que devem ter sido contemporâneas, tomaram sentidos diferentes: O C. da sua Ilha para Coimbra foi até à Figueira procurar naquele mar o mar que lhe rodeou o berço. Eu, que de Coimbra só recebi cartas de chamada por razões indesejáveis, rumei para Lisboa.
Durante muito tempo as raízes pediam-me que as arejasse onde tinham sido plantadas, e voltava à Figueira em cada Sábado na automotora que saía do Rossio às 14. A viagem demorava mais de cinco horas e, por alturas das Caldas, as noites mal dormidas durante a semana e o trepidar das rodas sobre as descontinuidades dos carris, embalavam-me para um sono que nenhum alvoroço na carruagem interrompia.
E era quando a maresia se anunciava à passagem pela Fontela que eu acordava.
Naqueles tempos o mar era mais manso, havia mais praia onde enrolar a sua fúria. E havia rochedos, que agora estão soterrados naquela imensidão de areia, onde se desenvolvia a natureza que exalava iodo num raio variável com a sensibilidade de cada um.
A mim, ainda me chegou hoje aqui em Sintra, nesta bandeja sua de cor e odor magníficos.
Comment by rui fonseca — January 30, 2007 @ 2:21 pm
O que é cativar para mim?Cativar é amar e saber amar.É olhar, cheirar. ouvir, sentir e comer.
Comment by Rita — March 6, 2007 @ 9:20 pm