Nesta manhã de sábado meio molhada, meio soalheira, deu-me para cavar a minúscula nesga de terra que tem o comprimento exacto da frontaria de minha casa. A largura, essa, é apenas uma força de expressão do sistema métrico… Na minha ausência, cobrira-se de ervas daninhas e de outras espontaneidades botânicas. Cavei e mondei, como se escavasse o íntimo e dele arrancasse também algumas junças. Mas não quis utilizar nenhum herbicida, o que me facilitaria a tarefa. É que não gosto de facilidades, pelo menos julgo que não, o que, se calhar, é igualmente arrogância da minha parte. Adiante! O esforço e o suor serão porventura irmãos colaços do barro de que sou feito. Sempre com a fragilidade da condição humana a cujo reino ainda vou pertencendo. Muni-me da cinta ortopédica, não fosse um qualquer deus menor que tem a seu cargo o pelouro da ciática exigir-me elevados juros de mora pela aventura. À medida que rasgava o fofo ventre da terra, libertava-se-me o espírito, ou o que quer que seja que o corpo atravanca com certas amarras quezilentas e tantas vezes o sujam e o chagam. Senti caírem-me alguns bagos de suor, quem sabe se um pequeno aguaceiro de lágrimas (não tive vagar para os destrinçar), que os fins-de-semana vazios e apagados de uma presença fortemente acesa trazem a vocação para os fazer chover. Mas, apesar disso, senti-me como um balão pejado de oxigénio, porém ainda preso por um cordel à terrena cláusula de não ter nascido pássaro alado. E bastava-me, se quisesse, vir cá dentro, à secretária, onde, numa das gavetas, conservo, com sovinice de devoto, uma velha navalha que me deu meu Pai há muitos anos. Embora de fio já cego pela usura do tempo, creio que teria gume bastante para cortar o tal cordel e assim se desataria o balão dotado de profunda queda ascensional. Meu Pai decerto aprovaria a acção praticada pelo filho situado deste lado da ausência onde ainda se encontra implantado. Celebrou em Outubro nove décadas de existência, mas, porque já apagado há mais de catorze, ficará eternamente com a idade com que disse adeus ao mundo. Eu é que não. Vou subindo a escada cada vez com mais pressa, não minha, mas do tempo que, a partir da maduridade, ganha asas cada vez mais lestas. Depois, hei-de também obter essa idade imóvel que os anos, cinicamente, deixarão de assentar na coluna do haver por estar há muito esgotada a do deve… Fui-a pagando a pronto ou a crédito, consoante as posses, as circunstâncias e o baixo ou alto valor da factura. Aprendi muita daquela filosofia prática, por vezes simples na sua cândida aparência, mas precisa e obrigatória para que a vida se não torne um escoadouro ingovernável de sentimentos desencontrados e mesquinhos. A Amizade bem praticada é uma bússola cuja agulha se pode e deve orientar para um norte mais a norte ou mais a sul do consabido norte magnético que ela aponta por apontar, sem o mais minúsculo til de intenção. E eu, que tenho feito da vida um contínuo acto de vontade, não soube transformá-la, transformando-me, ou vice-versa, porque me não me cresceu sabedoria e sobretudo predisposição, paciência, lucidez e alegria para distribuir por quem mais amo, ensinamentos que devia e podia ter construído pedra a pedra, tormento a tormento… Quando há pouco cavava e ancinhava as ervas da fita de terra que tenho em face de minha casa, senti suor ou talvez lágrimas, não consigo ainda deslindar. E fiquei lavado. Alguém me tem dito que é no jardim e no quintal que mais paz e quietude tem encontrado. Do próprio lavar da louça extrai a volúpia não só da água com que a enxagua, mas também o deleite de sentir escoar-se-lhe pelas mãos e pelos dedos uma qualquer sombra impertinente que porventura tenha pairado ou parado no céu da consciência. É verdade. Já o tenho experimentado e de facto acontece igualmente comigo. Quanto às lágrimas, também aliviam. Lembras-te do instante em que recebeste da boca do médico a notícia de que estavas livre daquilo que, no nosso silêncio contrafeito, todos suspeitávamos? Choraste sem vergonha, eu bem vi, e nesse momento cresceste ainda mais dentro de mim, se é que é possível um aumento de crescimento de ti em mim. Não tenho medo de chorar. O pior é quando se secam as lágrimas! Há pouco, quando cavava, não sabia se era suor ou lágrimas que me molhavam. Neste preciso momento, sei-o de ciência certa. Não é suor, que está um frio de navalhas e me encontro sentado à secretária, aquecedor ligado, com uma mantinha pelos joelhos, que surripiei um dia num dos aviões em que tenho viajado…; são lágrimas mornas, não de desespero, nem tão-pouco de angústia, talvez de uma súbita solidão que, contraditoriamente, me está inundando de bonança e de uma irreprimível saudade de mim próprio, ou seja, daquele que ainda há pouco tempo eu guardava no tesouro que continua intacto dentro de mim e que, por artes diabólicas, desapareceu, mas sem se desvanecer. Pelo contrário, vai-se agigantando em dor ainda não feita suave lembrança, que essas mataduras requerem tempo e perseverança para cicatrizarem. É sina minha este viver constante entre fogueiras de amores e desamores. Sei muito bem o que gasta a minha casa interior sempre em fervedouro de caldeira das Furnas. Mas há uma assinalável diferença: não estou a desmoronar-me em pânico. Ou melhor dizendo, com os coices que a vida tem feito o favor de me ir dando, aprendi a recusar-me inumar num poço de lodo e desesperança. Hei-de consegui-lo. Nem que para isso tenha de gritar por socorro, o que também me não envergonha, nunca me envergonhou. Talvez tudo isso seja o preço que me pede a escrita. Escrever é um acto solitário, de introspecção profunda, quase de psicanálise, e não se compadece com o sol brilhante da chamada felicidade. Exige, sim, um estado psíquico de penumbra, situado entre a saúde e a doença, entre a mágoa e uma alegria triste. Era este o estado tranquilo que eu gostava de alcançar.
Cristóvão de Aguiar, publicado em 24 de Dezembro de 2005.

Caro Cristóvão e Luís,
Muito obrigado. E um Bom Natal, para a Sandra também.
Comment by F — December 19, 2006 @ 11:13 am
Abençoada penumbra! Venha ela!
Comment by homoclinica — December 19, 2006 @ 11:55 am
Essa minúscula nesga de terra, em secretária transformada, também transformou as gotícolas de chuva.
Deixou-nos este belo texto.
Boas Festas natalícias e um 2007 repleto de nesgas de terra para mondar.
Comment by AGRIDOCE — December 19, 2006 @ 9:26 pm
Embora de fio já cego pela usura do tempo, creio que teria gume bastante para cortar o tal cordel e assim se desataria o balão dotado de profunda queda ascensional. Meu Pai decerto aprovaria a acção praticada pelo filho situado deste lado da ausência onde ainda se encontra implantado…
É de Mestre…
Comment by Anonymous — December 19, 2006 @ 10:58 pm
…e que privilégio o nosso que nos encontremos deste lado da ausência (onde a penumbra proporciona essa demiurgia, talvez exorcizante para quem nela se veste, certamente reconfortante para quem se senta à sua beira) para podermos lê-lo e reler-nos. Calorosas saudações blogosáuricas
Comment by T-Regina — December 22, 2006 @ 12:40 pm