Aí em baixo, nos comentários à entrada sobre o Nobel de 2006, falou-se na globalização e no salário mínimo. O que pensa Phelps, enquanto economista e discípulo de Rawls, sobre estes assuntos?
Lembremo-nos do princípio que norteia o pensamento de Phelps. O Rawlsiano humanista quer uma sociedade que proteja o mais desprotegido dos seus cidadãos. O economista quer fazê-lo da forma mais eficiente possível, desviando-se dos efeitos perversos das políticas baseadas em boas intenções.
Poucas pessoas discordarão das boas intenções que norteiam quem defende a existência de salário mínimo. Mas quais são exactamente os efeitos do salário mínimo? Tornam o trabalho não qualificado mais caro, beneficiando os trabalhadores que o recebem. Mas se há trabalhadores que recebem o salário mínimo, tal quer dizer que há trabalhadores que não conseguem emprego devido à existência desse mesmo salário mínimo. Trabalhadores que se enfrentassem um mercado de trabalho mais flexível encontrariam emprego com uma remuneração inferior.
Se aceitarmos o raciocínio descrito, concluímos que a existência de um salário mínimo viola o princípio de Rawls, pois em vez de proteger todos trabalhadores mais mal pagos, atira parte deles para o desemprego. Não espanta assim que Phelps seja contra o salário mínimo, mas que proponha, em seu lugar, um subsídio aos trabalhadores mais mal pagos. Esse subsídio defenderia estes trabalhadores garantindo, simultaneamente, que tal era pago por toda a sociedade e não à custa dos desafortunados que são atirados para o desemprego com as políticas de altos salários mínimos.

O problema talvez seja financiar esse subsídio, mas para isso é que há economistas brilhantes por esse mundo fora, para solucionar estes problemas verdadeiramente importantes
(às vezes parece que é mais grave o ministro andar a 200km/h do que termos centenas de sem abrigo no país.)
Isto dos blogues é uma coisa bonita. No outro dia tentei dizer ao meu pai apenas que o salário mínimo podia ter efeitos preversos…quando tentei explicar porquê ele já estava pronto pra me espetar com o garfo no olho. Da próximo bem que ponho no blog. É mais seguro =)
Comment by Kordny — November 8, 2006 @ 1:47 am
Muito bem, Luis.
Comment by Vasco Gabriel — November 8, 2006 @ 10:46 am
LA-C,
Eu nunca ouvi o Francisco Louçã dizer que a fixação de um salário minimo é um entrave à criação de emprego. Tu que o conheces, acaso sabes o que ele pensa sobre substituir o salário minimo por subsidio pago por toda a sociedade?
Comment by Waldek — November 8, 2006 @ 11:52 am
Os altos salários mínimos de que fala são de que paises?
Com certeza não se está a referir ao português. Ou estará?
Quando se tem um excelente salário e se está completamente alheado da realidade é muito fácil falar.
Pelo andar da carruagem, daqui a pouco só temos hospitais e maternidades em Lisboa e Porto, vamos ser pau para toda a obra (nova lei do desemprego), …
Mas há coisas boas: TGV, OTA (este é essencial ao país), remodelação do sistema de voto da assembleia da república a custar 1.2 milhoes de euros, …
Viva Portugal, os seus governantes (os que nascem em berço de ouro que não conhecem o país real e os que nascendo no país real, esquecem as suas origens e ficam com tiques de novo riquismo, bem ao estilo da burguesia que pretendia passar a ter títulos nobiliarquicos) e, os grandes economistas, donos da verdade e que têm sempre o seu €€€€ assegurado.
Por último: a plebe. Ela paga tudo.
Comment by António Vieira — November 8, 2006 @ 1:00 pm
“Eu nunca ouvi o Francisco Louçã dizer que a fixação de um salário mínimo é um entrave à criação de emprego.”
Naturalmente.
“Tu que o conheces, acaso sabes o que ele pensa sobre substituir o salário mínimo por subsídio pago por toda a sociedade?”
Nunca conversei com ele sobre este tema, aliás apenas o conheço profissionalmente; mas duvido que ele concorde com a premissa de base, que é a de que o salário mínimo provoca desemprego.
“Quando se tem um excelente salário e se está completamente alheado da realidade é muito fácil falar.”
Por outro lado, quando se tem um emprego também é fácil esquecer os que estão desempregados.
E ainda por outro lado, quando se lê um texto sem se fazer um esforço para perceber o que ele diz, é muito fácil dizer disparates.
Se tivesse feito um esforço mínimo por perceber o que leu, teria entendido o que se quis dizer com altos salários mínimos.
Quanto à OTA e TGV, muito sinceramente não penso sequer que Edmund Phelps tenha ouvido falar. Mas pode-lhe sempre mandar um e-mail a perguntar.
Comment by LA-C — November 8, 2006 @ 3:02 pm
Suponho que a proposta de Phelps para a subsidiação de remunerações abaixo do mínimo tem aplicação prática, pelo menos parcialmente, nos EUA.
Nos EUA o ordenado mínimo pode ser complementado … com um
emprego.
Há muita gente nos EUA a realizar tarefas indiferenciadas (colocar as compras em sacos de plástico nos supermercados, p.e.) para ganhar um complemento que melhore os seus rendimentos. Nestes casos, o Estado paga outro complemento.
Deste modo, aqueles que estão totalmente desempregados têm sempre subsídios menores do que aqueles que têm algum trabalho.
Comment by rui fonseca — November 8, 2006 @ 6:17 pm
Duas notas sobre dois mitos:
Na questão do salário mínimo a teoria contempla, como quase sempre, respostas para todos os gostos: num mercado de trabalho perfeitamente competitivo, o salário mínimo reduz o emprego; num monopsónio, aumenta-o; num cenário intermédio (como o de Shapiro – Stiglitz) tem um impacto obscuro.
Que diz então a experiência?
Nos EUA, no início da década de 90, economistas ligados ao Partido Republicano advertiram para a “brutal” queda do emprego que se seguiria à elevação do salário mínimo de $4 para $5 por hora em determinados Estados democratas. Num trabalho econométrico rigoroso, simples e claro, D. Card e A. Krueger mediram o referido impacto: o aumento de salário mínimo não teve qualquer efeito sobre o emprego. Choveram críticas, mas também apoios, alguns deles insuspeitos como o de James Heckman. A questão está desde então em banho-de-Maria, sobretudo depois de Manning, Nickell e companhia terem, em geral, corroborado os resultados de Card e Krueger; fica a (excelente) referência: D. Card e A. B. Krueger: “Myth and measurement: the new economics of the minimum wage”, Princeton, 1995.
Sobre Rawls.
Não sei como é que Phelps chegou às conclusões citadas; mas Harsanyi alcançou algo de muito mais aberrante: equacionado o problema de Rawls rigorosamente, a teoria dos jogos mostra que a sua solução não passa pela melhoria da posição do cidadão mais desfavorecido, mas antes pela maximização da soma das satisfações, ou seja, pelo “utilitarismo” puro sem quaisquer preocupações com a distribuição do rendimento. Obrigar-nos-á este resultado a aceitar o “utilitarismo”? Claro que não, tal como o resultado de Phelps não nos obriga a aceitar o “capitalismo”. O que Harsanyi mostra é que, dissecando a teoria de Rawls, alguns pontos se revelam incoerentes induzindo conclusões contraditórias ad absurdum. Sobre a justificação ética do capitalismo prefiro antes: Philippe Van Parijs, “Real Freedom for all: what (If anything) can justify capitalism?” Oxford, 1997.
Comment by Anonymous — November 8, 2006 @ 7:34 pm
Sinceramente, tenho muita pena que um comentário com a qualidade deste último não venha assinado.
Comment by LA-C — November 8, 2006 @ 7:40 pm
Uma anotação breve sobre a medição do efeito sobre o emprego duma alteração do salário mínimo que é referida pelo nosso companheiro A. Quando refere que a subida do salário mínimo para $5.05 em New Jersey não teve impacto sobre o emprego.
Primeiro, para recordar que a chamada compensação é a soma do salário mais os benefícios oferecidos pela empresa. E por tanto que uma subida do salário pode ser compensada por uma descida dos benefícios.
Segundo, que o salário mínimo afecta uma parte da população com um perfil de emprego muito variável. E por tanto que o coeficiente de informação (signal/noise) pode ser demasiado baixo.
Obrigado.
Comment by F — November 9, 2006 @ 3:23 am
Mais uma achega. Penso que é bastante difícil argumentar que existe poder de monopsónio no mercado de trabalho trabalhadores indiferenciados, ou pouco qualificados. E é desse mercado que falamos quando falamos em salário mínimo.
Quanto aos estudos empíricos sobre os efeitos do salário mínimo, não há dúvida de que os resultados são mistos, havendo estudos bem feitos que apontam numa direcção e outros que apontam noutra. O último trabalho sobre este assunto que conheço, e que reputo como sendo de uma pessoa bastante séria, apesar de detestável em termos pessoais (foi meu colega na Cornell…), conclui, claramente, que aumentos do salário mínimo têm como consequência fortes diminuições no emprego de trabalhadores não qualificados. O estudo, do meu ex-colega Joe Sabia (nao percam o meu proximo artigo na dia D), pode ser encontrado aqui: http://epionline.org/studies/sabia_05-2006.pdf
Há alguns estudos apontam noutros sentidos (inclusivamente em Portugal), no entanto, e esta apreciação é pessoal, parece-me que a grande maioria dos trabalhos empíricos aponta para resultados que confirmam a análise de Phelps: aumentos do salário mínimo levam a reduções no emprego dos trabalhadores não-qualificados, criando-se assim mais desemprego.
Comment by LA-C — November 9, 2006 @ 3:43 am
O Card & Krueger sofre dum problema básico: é sempre o mesmo estudo que é citado! Não há outro que o confirme?
Fazendo-se estudos suficientes, haverá sempre um que encontra o que não está lá (com 95% de confiança, 1 em 20 estudos contradiz a realidade!)
A minha apreciação é que nos EUA é difícil de argumentar que um aumento do salário mínimo terá grande efeitos no emprego visto que o salário mínimo federal é muito abaixo do que é o salário mínimo de mercado na maioria das cidades (na Califórnia o McDonald’s paga 10USD/hora, o dobro do federal) e, em certos estados, até no campo os salários não-qualificados é mais alto do que o mínimo. Os problemas por-se-iam se fossem valores muito mais altos.
Comment by luispedro — November 9, 2006 @ 5:01 am
Não acredito que em Portugal alguém esteja disposto a trabalhar por menos de 350€/mês. Por conseguinte a abolição do salário mínimo não criaria nem mais um emprego
Comment by Waldek — November 9, 2006 @ 11:36 am
“Não acredito que em Portugal alguém esteja disposto a trabalhar por menos de 350€/mês”
Dada a quantidade razoável de pessoas que ganha o salário mínimo, esta afirmação é, com uma probabilidade de quase 100%, um erro factual. Isto é bastante óbvio e não há muito a argumentar. Seria um acaso enorme que houvesse tanta gente disposta a trabalhar por 350 Euros e que não houvesse nenhuma, em situações mais desesperadas, que aceitasse trabalhar por 340 euros.
Penso, aliás, que há bastantes mulheres a dias que ganham menos do que o salário mínimo (e que não fazem qualquer tipo de descontos, pois trabalham sem contrato).
De qualquer forma esta entrada é sobre o pensamento económico de Phelps e não sobre a Economia portuguesa.
Comment by LA-C — November 9, 2006 @ 2:43 pm
A inexistência de um salário mínimo, compensada pela criação de um subsídio aos trabalhadores mais mal pagos, não funcionará como um incentivo aos empresários para se aproveitarem do sistema, fazendo o Estado pagar parte do salário que estes estariam dispostos a pagar caso não houvesse subsídio?
Recordo por exemplo as políticas do Estado de incentivo à empregabilidade de deficientes ou os estágios subsidiados, em que basicamente o empregador paga menos ao trabalhador porque sabe que o subsídio vai compensar esse défice de salário. Por esta via, o subsídio é totalmente apropriado pelo empregador.
Comment by AJM — November 9, 2006 @ 11:26 pm
“Não acredito que em Portugal alguém esteja disposto a trabalhar por menos de 350€/mês. Por conseguinte a abolição do salário mínimo não criaria nem mais um emprego”
Nesse caso, a abolição do salário mínimo não faria descer nem um salário.
Comment by luispedro — November 9, 2006 @ 11:48 pm
Em lisboa, por exemplo, a abolição do salário mínimo nacional nem seria sentida. Ninguém trabalha por menos de 400/mês. Uma mulher-a-dias cobra 5 a 6/hora (o que dá cerca de 500/mês).
Comment by luispedro — November 9, 2006 @ 11:49 pm
“A inexistência de um salário mínimo, compensada pela criação de um subsídio aos trabalhadores mais mal pagos, não funcionará como um incentivo aos empresários para se aproveitarem do sistema, fazendo o Estado pagar parte do salário que estes estariam dispostos a pagar caso não houvesse subsídio?”
Esse é, na minha opinião, o principal problema com a proposta de Phelps. Está-se, indirectamente, a subsidiar empresas que se especializam em mão-de-obra barata.
Comment by LA-C — November 10, 2006 @ 12:24 am