Edmund Phelps, prémio Nobel da Economia 2006
Nos EUA dos anos 50 havia uma preocupação crescente com o crescimento económico galopante da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Crescimento conseguido graças a altíssimas taxas de poupança forçada. Debatia-se se o governo americano deveria assumir políticas activas de estímulo à poupança. Em 1960, Edmund Phelps derivou a ‘golden rule’, regra de ouro, para a poupança. A prescrição era simples, se a longo prazo queríamos maximizar o bem-estar das famílias, a taxa de poupança deveria ser igual ao peso do capital na repartição nacional do rendimento. A tal correspondia uma taxa de poupança de 33%, mais ou menos a que de facto se verificava nos EUA.
Hoje em dia, a mesma regra aplicada a Portugal, implicaria que a taxa de poupança óptima se situaria nos 35%; na realidade a taxa de poupança actual situa-se abaixo dos 10%.
Em 1958, Phillips, usando dados históricos de quase 100 anos, descortinou uma relação estatística entre taxa de desemprego e inflação. Períodos de maior inflação associavam-se a períodos de menor desemprego. Esta relação, conhecida por Curva de Phillips, foi verificada para diversos países. Economistas e políticos logo encontraram o que seria uma simples fórmula de Política Económica: para combater o desemprego bastaria adoptar políticas inflacionistas.
Mas, tudo o que é sólido dissolve-se no ar. A Curva de Phillips descrevia uma relação estatística, que não estava bem fundamentada em nenhuma teoria microeconómica. Edmund Phelps procurou fundamentar microeconomicamente uma relação macroeconómica. E o que encontrou? Encontrou uma relação inexistente. Segundo Phelps, a inflação dependia não só da taxa de desemprego mas também das expectativas das empresas e dos trabalhadores relativamente à inflação. Assim, no curto prazo, uma política inflacionista poderia reduzir o desemprego, mas logo que as empresas e os trabalhadores se apercebessem da nova taxa de inflação, o desemprego voltaria aos seus valores anteriores. Estes efeitos inter-temporais das políticas de estabilização tinham até então passado despercebidos.
Os ensinamentos de Phelps (e também de Milton Friedman) foram premonitórios. Logo que os políticos tentaram combater o desemprego com políticas inflacionistas, a relação estatística desvaneceu-se e períodos de grande inflação conviveram com altas taxas de desemprego.
Phelps foi também um dos pioneiros no uso da teoria dos jogos em Macroeconomia. Foi num jogo intergeracional, em que as diferentes gerações participavam num jogo não-cooperativo. Não querendo entrar em detalhes técnicos, este modelo é muito usado para justificar políticas que levam à criação de sistemas de pensões de velhice.
Nos anos 70, com o domínio intelectual da Escola de Chicago e dos novos-clássicos e também como consequência dos próprios trabalhos de Phelps, as políticas económicas de estabilização estavam desacreditadas. Em 1977, Phelps e um seu aluno (John Taylor) desenvolveram um modelo que explicava, como a falta de flexibilidade do mercado laboral podia explicar os efeitos reais das políticas de estabilização conjuntural.
Ainda no fim dos anos 70, Phelps assumiu-se como discípulo de John Rawls, que defendia que uma sociedade justa deveria preocupar-se com a qualidade de vida do seu cidadão mais pobre. Aplicou este princípio a um modelo intergeracional. Mais tarde viria a declarar que o capitalismo era o sistema económico que mais respeitava os princípios de Rawls.

Gostei da análise feita, com a qual concordo inteiramente.
Mas entendo que este Nobel da Economia só tem cabimento na falta de outros candidaturas credíveis.
Na verdade, o lamaçal em que muitos países estão economicamente envolvidos, as teias obscuras que políticos e economistas teceram, o caos instalado em grandes economias que dominam o mundo, tudo isto, e não estou a ser exaustivo, obstou a que a Academia sueca pudesse ter melhor escolha.
Comment by José Augusto Soares — November 5, 2006 @ 5:32 pm
Parece haver algumas contradições.
Comment by anónimo — November 5, 2006 @ 6:31 pm
“Na verdade, o lamaçal em que muitos países estão economicamente envolvidos, as teias obscuras que políticos e economistas teceram, o caos instalado em grandes economias que dominam o mundo, tudo isto, e não estou a ser exaustivo, obstou a que a Academia sueca pudesse ter melhor escolha.”
Nao consigo perceber a relacao entre o caos no Mundo e a dificuldade na escolha do nobel da Economia. Parece-me que tal declaracao e’ semelhante a dizer que porque ha’ muitas doencas o comite tem dificuldade em escolher o nobel da Saude.
“Parece haver algumas contradições.”
Se puder especificar, poderei tentar esclarece-lo ou, se for caso disso, corrigir o post.
Comment by LA-C — November 6, 2006 @ 12:08 am
Também não entendo a relação da atribuição do nobel da economia com a situação económica global; assim como não tem nada a ver o nobel da medicina com o número de doenças…
Comment by Pedro Fonseca — November 6, 2006 @ 1:11 am
Quando Phelps declarou que capitalismo era o sistema económico que mais respeitava os princípios de Rawls já estava completamente senil.
Comment by Waldek — November 6, 2006 @ 1:01 pm
“Quando Phelps declarou que capitalismo era o sistema económico que mais respeitava os princípios de Rawls já estava completamente senil.”
Tem razao, como todos sabemos e’ nos sistemas nao capitalistas, como a antiga URSS a Alemanha de Leste, a Polonia, ou se preferirmos exemplos mais recentes, como os paises africanos ou da America Latina, que os pobres sao mais protegidos. Que bom, nao e’?
Comment by LA-C — November 6, 2006 @ 1:09 pm
Entre os sistemas económicos não capitalistas há város caminhos possiveis. O mundo já não é (nunca foi) a preto e branco.
Mas, por acaso, os pobre do Brasil ou da Venezuela até que vivem bem melhor agora do que em tempos bem recentes.
Comment by Waldek — November 6, 2006 @ 3:31 pm
Engraçado que diga que o mundo não é a preto e branco, pois quando chamou senil a Phelps, sem sequer se dar ao trabalho de aduzir um argumento que fosse, eu pensei que para si o mundo era a preto e branco.
Muito bem, vamos lá aos argumentos. Quais são os países onde os pobres vivem melhor? Entre os primeiros 20, por exemplo, existe algum que seja um não capitalista alternativo?
Comment by LA-C — November 6, 2006 @ 3:37 pm
Os cinco países que têm pior desempenho no IDH — Mali , Níger , Burkina Fasso , Guiné Bissau e Chade são paises com sistema capitalista. Por outro lado, países com os melhores indices, Suíça , Dinamarca , Canadá , Noruega não têm sistemas económicos capitalistas.
Comment by Waldek — November 6, 2006 @ 4:39 pm
Ok, já percebi as nossas divergências.
Se o Waldek considera que o Mali, Níger, Burkina Fasso, Guiné Bissau e Chade são países com um sistema capitalista e, por outro lado, considera que Suíça, Canadá e Noruega são países não capitalistas, é porque pelo menos um de nós não faz a mínima ideia do significado de sistema capitalista.
Comment by LA-C — November 6, 2006 @ 4:48 pm
Tu ( já acabou o tuteamo-nos?) doutorado em Economia sabes melhor que ninguém o significado de sistema capitalista. Quando Phelps declarou que capitalismo era o sistema económico que mais respeitava os princípios de Rawls já estava completamente senil, porque nos tempos em que ainda estava lucido também disse que deve existir uma intervenção do Estado para corrigir as assimetrias que o mercado gera, i.e., um aumento das desigualdades e da pobreza
Comment by Waldek — November 6, 2006 @ 6:20 pm
Estive aqui a lê-lo com gosto até porque generosamente se tinha comprometido a responder ao desafio que por consideração e curiosidade lhe lancei.Não vi nemhuma referência ao intercâmbio que Phels terá mantido com Tobin e gostaria de saber como se situa o Nóbel perante a globalização.Resignado ao descontrolo não deve ser.pois não?abraço
Medeiros
Comment by Medeiros — November 6, 2006 @ 11:29 pm
Gostei do texto instrutivo e ainda mais da discussão. até breve.
Comment by Luís Moutinho — November 7, 2006 @ 12:35 am
Caro Waldek, nos tempos em que Phelps estava lúcido, que tipo de intervenção do Estado é que ele preconizou? Nacionalizações? Salário mínimo?…
Comment by Vasco Gabriel — November 7, 2006 @ 11:30 am
A teoria macroeconómica de Phelps previa que uma economia em capitalismo de mercado livre poderia permanecer abaixo da sua capacidade, com taxas de desemprego altas, ao contrário do que previa a teoria clássica. No mercado de bens e serviços, no mercado monetário e do trabalho ocorrem falhas e desajustamentos.
Phelps propôs intervenções estatais na economia com o objectivos de estimular o crescimento e baixar o desemprego. Para intervir, os estados deviam aumentar os seus gastos , entre outros, com a emissão de moeda.
Comment by Waldek — November 7, 2006 @ 12:33 pm
“Para intervir, os estados deviam aumentar os seus gastos , entre outros, com a emissão de moeda. ”
Mas nada disso significa acabar com o capitalismo, pos nao?
Comment by Anonymous — November 7, 2006 @ 1:19 pm
Waldek, quem te ler vai pensar que Phelps ganhou o Nobel da Economia em 1975 e não em 2006. Vais-me desculpar a pergunta, mas em que artigo e’ que o Phelps preconiza isso que tu dizes que ele preconiza?
Provavelmente estaras a confundir com outro economista.
Comment by LA-C — November 7, 2006 @ 2:57 pm
Andei à procura do artigo mas não encontrei. Mas encontrei um mais interessante. Phelps recomenda que o Estado «subvencione os trabalhadores com salários mais baixos para que seja incrementada a procura por empregos pouco qualificados». Medidas nesse sentido custariam, por exemplo, cerca de 1,5% do PIB dos EUA e facilitariam a eliminação das desigualdades sociais fomentando a integração dos trabalhadores menos bem pagos no sistema capitalista
O emprego precário carece de uma atenção especial e os trabalhos com salários mais baixos devem ser subsidiados pelo Estado para impulsionar a correspondente procura.
Comment by Waldek — November 7, 2006 @ 4:47 pm
Volto a perguntar ao Waldek se essas medidas de intervencao estatal poem em causa o capitalismo… Como e obvio, regulam-no, nao poem em causa o sistema, pelo que a afirmacao “capitalismo era o sistema económico que mais respeitava os princípios de Rawls” mantem-se valida.
Comment by Vasco Gabriel — November 7, 2006 @ 5:42 pm
Rawls defendia que uma sociedade justa deveria preocupar-se com a qualidade de vida do seu cidadão mais pobre. Dizer que o capitalismo respeita este designio é uma aberração. O que se pode defender é que o capitalismo é o sistema economico que maximiza o PIB.
São coisas completamente diferentes.
Comment by Waldek — November 7, 2006 @ 6:38 pm
“Phelps recomenda que o Estado «subvencione os trabalhadores com salários mais baixos para que seja incrementada a procura por empregos pouco qualificados».”
Assim já está melhor. Vês como as medidas que Phelps defende nada têm a ver com o que disseste anteriormente? Ser-se de esquerda não é sinónimo de se estar desactualizado e acreditar em teorias e medidas desacreditadas há 40 anos (especialmente quando o próprio Phelps foi pioneiro a mostrar por que essas políticas eram ineficazes)
Comment by LA-C — November 7, 2006 @ 7:57 pm
“Dizer que o capitalismo respeita este designio é uma aberração. O que se pode defender é que o capitalismo é o sistema economico que maximiza o PIB.”
Valdek, ainda não deste um argumento que fosse que te permitisse sustentar esta opinião.
Comment by LA-C — November 7, 2006 @ 8:04 pm