Sou licenciado em Economia. Tenho dois mestrados e um doutoramento em Economia. Sou professor de Economia numa universidade pública. Sou membro da Associação Económica Europeia. Tenho artigos publicados em revistas científicas internacionais de Economia. Com todas estas qualificações, o Estado português não me reconhece como economista. Porquê? Porque não estou inscrito na Ordem dos Economistas.
Quais as consequências de não estar inscrito na Ordem? De acordo com artigo 4º dos seus Estatutos, não posso fazer “análises, estudos, relatórios, pareceres, peritagens, auditorias, planos, previsões, certificações e outros actos, decisórios ou não, relativos a assuntos específicos na área da ciência económica”. Resta-me, sempre que quiser elaborar um destes estudos, pedir a um meu aluno que assine por mim.
A Ordem dos Economistas não é um exemplo isolado. A pouco e pouco, Portugal tem-se tornado num estado corporativo. Advogados, arquitectos, biólogos, enfermeiros e muitos outros organizam-se em torno de corporações profissionais. Há ainda Pró-Ordens para psicólogos e professores.
Por que existem estas corporações profissionais? Tipicamente, argumenta-se que determinadas actividades são muito exigentes e especializadas e que os prejuízos que maus profissionais causariam à sociedade seriam tremendos. De seguida, diz-se que os profissionais no activo estão em melhores condições para definir os requisitos da sua profissão.
Esperar-se-ia que as Ordens Profissionais e outras corporações dessem formação adequada sobre o exercício da profissão e que procedessem a um controlo de qualidade, punindo infracções a códigos deontológicos. É isto que observamos? Claramente, não. Há uns anos, por exemplo, não houve qualquer condenação aos médicos que passaram centenas de atestados a alunos de Guimarães para faltarem aos exames. Há uns dias, a Inspecção-Geral de Saúde concluiu que a um número alarmante de baixas médicas nem sequer correspondia um único registo clínico do “doente”. De ambas as vezes, a reacção da Ordem dos Médicos foi dizer que os médicos não são polícias. Se nem com estes escândalos mediáticos as Ordens actuam, o que esperar no dia-a-dia? Na verdade, em vez de garantirem as melhores práticas, as Ordens protegem, de uma forma autista, os seus associados.
A única acção visível da Ordem dos Médicos tem sido a de limitar o número de médicos. Desde que existe, tem-se esforçado por impedir a abertura de novos cursos de medicina e o aumento do número de vagas nos cursos já existentes. Quase sempre com sucesso. Os farmacêuticos têm conseguido impedir a abertura de novas farmácias. Mesmo a ténue e meritória liberalização ensaiada pelo governo Sócrates serve os interesses das farmácias instaladas. A Ordem dos Notários quer o monopólio da autenticação de documentos. A Ordem dos Arquitectos recusou-se a reconhecer o curso de Arquitectura da Universidade Fernando Pessoa. A Ordem dos Revisores Oficiais de Contas exige uma licenciatura adequada e obriga os candidatos a sujeitarem-se a quatro exames escritos e um oral. Cada exame custa 300 euros. Antes dos exames os candidatos são aconselhados a frequentar um curso de preparação com quatro módulos, que decorre ao longo de um ano. O custo de cada módulo é de 1650 euros. A pequena minoria que passa nos exames tem ainda de fazer um estágio de três anos com remunerações baixíssimas.
As estratégias variam, mas o objectivo é o mesmo: criar barreiras hercúleas que impeçam o acesso à profissão. É este o papel das Ordens. Restringir a oferta e a concorrência. Os efeitos de tamanhos obstáculos são óbvios. Já em 1776, Adam Smith escrevia que “os privilégios exclusivos das corporações, os estatutos de aprendizagem, e todas as leis que, em empregos determinados, restringem a concorrência (…) tendem a sustentar salários e lucros a um nível superior à sua taxa natural. Tais sobrevalorizações podem durar tanto quanto as regulamentações que lhe deram origem”.
Não vale a pena ter ilusões. As Ordens, e outras corporações profissionais, servem para garantir remunerações anormalmente elevadas aos seus associados, perpetuando os seus privilégios, prejudicando e subjugando o interesse público a interesses privados.

Estou a pensar criar a Ordem dos Pedreiros decalcando os estutos das Ordens instaladas (Médicos, Advogados, etc…).
Pode crer, a nossa reputação social e económica vai subir em flecha e quem vai sofrer são os emigrantes, iletrados pois o acesso será limitado 1000 vagas anuais e habilitações mínimas 12º ano. Viva e o mercado livre para… os outros.
Comment by antónio — October 3, 2006 @ 10:19 am
Acho que o exemplo mais engraçado dos últimos tempos foi da associação nacional dos alunos de medicina anunciar que há demasiadas vagas. Impressionante como o corporativismo ataca rapido, em um par de anos param de criticar as médias altissimas de entrada (resultado da procura e oferta) para as querer elevar ainda mais (através de quotas).
Comment by Lester Burnham — October 3, 2006 @ 12:11 pm
Excelente posta.
Comment by Anonymous — October 3, 2006 @ 12:29 pm
Passagem pela caixa de comentários para subscrever a posta. Pena não desenvolver o “caso” de uma das mais vetustas “guildas”, a Ordem dos Advogados, em que profissionais com as mesmas habilitações dos recém-licenciados em Direito se arrogam uma superioridade jurídico-científica inexistente de todo.
Comment by El Ranys — October 3, 2006 @ 1:28 pm
Excelente “post”. Concordo a 100% com tudo o que foi dito.
Se querem as ordens, deixa-nas continuar, mas por favor, com outras funções.
Se para um médico ser especialista precisar de estar associado à ordem dos médicos, um economista para poder ser economista precisar de estar associado à ordem dos economista, um contabilista para poder exercer funções de contabilista precisar de estar associado à ordem dos TOCs, é porque algo vai mal, muito mal. Isso é dar mais importância às organizações em detrimentos das licenciaturas, que é o que nos dá a maior parte da instrução essencial para o desenvolvimento das nossas profissões.
Comment by Pedro Fonseca — October 3, 2006 @ 2:39 pm
El Ranys:
” … profissionais com as mesmas habilitações dos recém-licenciados em Direito se arrogam uma superioridade jurídico-científica inexistente de todo.”
Não tenho essa impressão. Pode ser mais concreto?
Comment by ricardo — October 3, 2006 @ 3:20 pm
Muito bem fisgada!
Comment by Anonymous — October 3, 2006 @ 4:53 pm
Totalmente de acordo!
O teu exemplo de coerência, com os consequentes prejuízos, é meritório. Era bom que houvesse mais seguidores e nascesse um movimento cívico, anti-ordem ou, pelo menos, limitando-lhes os tentáculos.
Desafio: Por que não um artigo para o Público?
Comment by Vieira Alves — October 3, 2006 @ 5:02 pm
Ricardo,
Como sabe, o acesso à profissão de advogado não é livre e está, via Ordem, cada vez mais condicionado.
Os advogados estagiários, para além de estágio com a absurda duração de 18 meses (em que são ou ignorados, ou escravizados pelos patronos), sujeitam-se a avaliação em Deontologia, prática processual penal e prática processual civil. Quem avalia? Advogados que, para além do aspecto prático, detêm as mesmas habilitações académicas que os candidatos (a licenciatura). No fundo, em termos de acesso à profissão, os advogados, sem competências jurídico-científicas distintas daqueles que avaliam, são juízes em causa própria. As ordens profissionais são entraves à concorrênicas, ao livre funcionamento do mercado e servem para defender as “coutadas” de cada um dos grupos profissionais estabelecidos. No fundo, opinião coincidente com o sentido do post que estamos a comentar - e por isso mesmo o subscrevi. Concreto o suficiente, desta feita?
Comment by El Ranys — October 3, 2006 @ 5:16 pm
Excelente post Luís! Só não o linko porque o Bz já se antecipou…
Comment by Miguel — October 3, 2006 @ 5:35 pm
Muito bem visto. E os comentários por baixo reforçam a ideia de que as Ordens não têm outra função senão a defesa dum status quo perante a chegada dos neofitos. Creio que se autojustificam dizendo assumir funções que o Estado delega…assim sendo, pergunta-se: e tem de ser assim? Que funções extarordinárias são estas?
Um dos comentários assinala muito justamente a exigência de provas e frequência de cursos para ingressar na Ordem! E assiste-se cada vez mais à aparição de ordem disto e ordem daquilo. Bem diz alguém nos comentários que pensa criar a ordem dos pedreiros. É exactamente essa a origem mítica da Maçonaria (a ordem dos pedreiros…do Templo, acrescentarão misteriosamente).
Enfim, fará isto sentido numa sociedade liberal?
Comment by pepe — October 3, 2006 @ 7:46 pm
Excelente e muito oportuna esta posta. Há muito que penso que as Ordens são resquícios da Idade Média.
Comment by Octávio Lima — October 3, 2006 @ 8:13 pm
Caro Luis,
Que a sociedade portuguesa ainda padece gravemente da tara corporativa, e não dá indícios de arrepiar caminho, é uma verdade incontroversa. Sente-se a cada passo, defrontamo-la em cada tentativa de mudança.
Há corporações ( a Ordem dos Farmacêuticos, por exemplo) que lograram estabelecer-se como um Estado dentro do Estado.
Há corporações ( a Ordem dos Revisores Oficiais de Contas ) cujos membros encontram a sua razão de existir (e os largos proveitos) numa Lei que os criou para a inutilidade.
Num ponto, no entanto, discordo de si, que para o caso é fundamental: a Ordem dos Economistas, a que pertenço praticamente desde a sua criação, não tem (e ainda bem que não tem) a capacidade discricionária que V. lhe atribui. A Ordem dos Economistas não é bem uma Ordem como algumas outras. Talvez pela própria natureza das coisas. A verdade é que eu realizei até hoje toda a minha vida profissional, e durante anos fui Consultor de Empresas, realizando nessa qualidade trabalhos em que é suposto possuírem-se conhecimentos geralmente adquiridos a nível de uma licenciatura em Economia (que, na altura, tinha uma duração de 5 anos, os mestrados não existiam e os doutoramentos eram raríssimos), e nunca ninguém me solicitou que fizesse prova do meu grau académico e muito menos que apresentasse prova de filiado na Ordem.
Entrelinhe-se, contudo, que esta displicência nem sempre é recomendável, sobretudo para o prestígio dos profissionais. Ao longo dos anos tive conhecimento de vários casos de falsificação de certidões de curso, num dos casos o selo branco foi concebido com uma carica de cerveja…e a empresa intrujada só deu pela vigarice vários anos depois após a admissão da habilidosa. Habilidosa que não teve grandes dificuldades em encontrar, posteriormente, colocações sucessivas em outras empresas com dimensão e bom ar.
Inscrevi-me na Ordem por influência de alguns colegas e nela me mantenho por inércia. Não penso que a Ordem dos Economistas possa ter a capacidade de manobra que assiste às Ordens dos Advogados, dos Médicos, dos Farmacêuticos (que mais do que uma Ordem Profissional é um “polvo”) ou mesmo dos Revisores Oficiais de Contas (que existem porque a Lei assim o prescreve).
As suas críticas são, portanto, muito pertinentes contra este escalracho, que mina a competitividade das competências em Portugal.
Mas a Ordem dos Economistas !?
Ordena pouco. Quase nada. Sejamos francos: nada.
Os Estatutos dizem que, e que, e mais que. Mas como bem sabe os Estatutos nem sempre dão estatuto. E ainda bem.
Comment by rui fonseca — October 3, 2006 @ 8:47 pm
Diz o Rui Fonseca:
“a Ordem dos Economistas, a que pertenço praticamente desde a sua criação, não tem (e ainda bem que não tem) a capacidade discricionária que V. lhe atribui.”
“Os Estatutos dizem que, e que, e mais que. Mas como bem sabe os Estatutos nem sempre dão estatuto.”
Pois, mas esses estatutos foram aprovados por decreto-lei e publicados em Diário da República pelo que não são um mero regulamento interno sem carácter vinculativo. Fazem parte do nosso ordenamento jurídico. Apenas precisam de regulamentação para que possam ser aplicados. O próprio bastonário, a pretexto da proliferação de cursos de Economia, já referiu que a Ordem deveria tomar medidas e usar as prerrogativas que a lei lhe confere.
Esses estatutos que citei têm a virtude de deixar bem claros quais os objectivos da Ordem dos Economistas. Objectivos que só não serão atingidos se a “sociedade civil” o impedir. O Rui Fonseca ao pertencer à Ordem está, objectivamente, a fortalecê-la e a aumentar o seu poder de lóbi.
Comment by LA-C — October 3, 2006 @ 9:02 pm
Magnífico post. Concordo em absoluto com o que nele é dito. As ordens serviram para criar um regime corporativista à semelhança do Estado Novo ou, como o Octávio Lima disse, um regime medieval. A proliferação dasmesmas é o típico exemplo de que de boas intenções legislativas está o Inferno cheio.
Comment by José Barros — October 3, 2006 @ 9:12 pm
Caro Luis,
Volto ao tema sem pesos na consciência nem convicções de alguma importância no peso da Ordem dos Economistas. Aliás, na Ordem dos Economistas poderá até reconhecer-se a sua insustentável leveza de poder ordenar seja o que for.
O que V., Luis, poderá contestar (e com alguma razão, se não toda), é se um qualquer armado de um diploma de bacharel em Economia ou arte equiparada é economista.
Mas mete-se por atalhos. Porque, ou atribui o emblema apenas a cientistas da economia (e quem é que vai reconhecer essa condição? A Ordem? Uma Associação? Um Colégio Universitário?) ou restringe o título aos doutores na Arte, incluindo eventualmente quem se dedica a gerir negócios ou outras tarefas igualmente prosaicas.
Porque a incapacidade de uma Ordem dos Economistas ordenar seja o que for é inerente à impossibilidade de enquadrar profissionalmente num quadro de responsabilização deontológica as mais diversas ocupações profissionais a que se dedicam os seus membros.
Não vejo, portanto, razões para alarme.
Já lhe referi que sou membro da Ordem por uma questão de inércia. E talvez porque seja mau gestor dos meus pequenos gastos.
Prometo-lhe que vou pensar no assunto. Mas, como lhe comecei por dizer, não por pensar que estou a ajudar a alimentar um perigoso lobby. O lobby só existe quando os seus membros têm interesses materiais comuns, nomeadamente de restrição de acesso à profissão.
No caso da OE, que profissão?
Comment by rui fonseca — October 3, 2006 @ 10:17 pm
“Porque a incapacidade de uma Ordem dos Economistas ordenar seja o que for é inerente à impossibilidade de enquadrar profissionalmente num quadro de responsabilização deontológica as mais diversas ocupações profissionais a que se dedicam os seus membros.”
E’ uma previsao. Eu faco a previsao oposta. Veremos a quem o futuro dara’ razao. (E nao sera’ preciso esperar muito, vamos ver se nos proximos 3 ou 4 anos a Ordem dos Economistas nao se aproveitara do processo de Bolonha para interferir na acreditacao dos cursos)
Ja’ agora pergunto, se a Ordem dos Economistas nao tem possibilidades de enquadrar e ordenar nada porque e’ que um grupo de economistas fez lobi durante 30 anos para que se criasse a Ordem? So’ porque sao estupidos?
Comment by LA-C — October 3, 2006 @ 10:25 pm
Concordo inteiramente com o post. As ordens profissionais alcançaram poderes pouco condizentes com os seus objectivos iniciais - que considero bem-intencionados.
E esta questão das boas intenções não será totalmente irrelevante neste debate. A verdade é que, levando o sentido deste post (e dos diversos aplausos e aclamações) às suas consequências finais - o fecho das ordens - como seriam endereçadas as preocupações que presidiram à sua criação?
Será o liberalismo selvagem de Pedro Arroja? As pessoas não precisam de ser médicas, o mercado regulará, naturalmente, essas questões. Convenhamos que este cenário é de arrepiar qualquer pessoa bem-formada (e que não blasfeme, evidentemente!).
O problema está bem diagnosticado e enquadrado. A solução é que me parece distante. Creio que a solução passaria necessariamente por uma refundação das ordens, pela eliminação dos vícios instalados, mas não pela sua eliminação. Apenas porque a alternativa aproximar-se-ia demasiado da lei da selva.
A propósito - sou licenciado em Economia. Não estou inscrito na Ordem. Apesar de não conhecer minimamente o que por lá se passa, confesso que me faz uma certa confusão como é que se pode definir o que seja “trabalho de economista”. Não há como restringir o acesso à “profissão”. Lembro-me, aliás, de uma famosa definição de Economia em sentido lato, dada numa aula: «Economia é tudo aquilo que os economistas fazem»
Um abraço
Comment by Rantas — October 3, 2006 @ 10:54 pm
Caro Luis,
Não é, de certeza, uma questão de estupidez. Será talvez um tique generalizado inerente a uma sociedade que ainda gira à volta de galões. V. repare que toda a gente que vai acima do décimo segundo tem a sua Ordenzinha. Sem ela, provavelmente, as pessoas sentir-se-iam filhas de um deus menor.
Somos, como bem sabe, um país de drs. A questão começa por aí. O sr. Silva já não existe. Existe o Silva, o dr. Silva, mas o sr. Silva morreu. Ninguém quer ser senhor. A não ser que seja senhor dr. É o único senhor aceite e aceitável.
O problema da OE é o mesmo: Sem uma Ordem à altura os drs.
sentir-se-iam órfãos e discriminados. Acho que achei uma razão! É essa! E V., Caro Luis, não vai certamente recusar a tanto dr. uma mãe Ordem.
E a mãe Ordem, se ordenar alguma coisa, ordenará que entrem todos os que quiserem entrar, como boa mãe que é. Apesar de Bolonha.
Com Ordem ou sem Ordem, dentro ou fora dela, somos todos artistas, segundo Joseph Beuys. E “economistas” também, por que não?
Comment by rui fonseca — October 3, 2006 @ 11:28 pm
Rui Fonseca
Dificilmente ex-ministros precisam de ser chamados “drs”. Parece-me muito mais razoavel assumir que ex-ministros pretendem fazer lobi.
Mas enfim, a nossa discussao nao vai levar a lado nenhum. O Rui Fonseca fez as suas previsoes (baseadas na sua experiencia) e eu fiz as minhas (baseadas em Adam Smith). Veremos quem tem razao. Como lhe digo, nao vai ser preciso esperar mais do que dois ou tres anos.
Comment by LA-C — October 3, 2006 @ 11:37 pm
Luis,
V. desculpe a impertinência da insistência mas, e transcrevo-o, o que A. Smith disse foi
“os privilégios exclusivos das corporações, os estatutos de aprendizagem, e todas as leis que, em empregos determinados, restringem a concorrência (…) tendem a sustentar salários e lucros a um nível superior à sua taxa natural. Tais sobrevalorizações podem durar tanto quanto as regulamentações que lhe deram origem”.
Ora eu, está visto, não tenho nenhuma hipótese de contrariar o velho Adam. Mas também nunca tive, nem terei, essa intenção.
Mas o que o velho Adam disse não se aplica, salvo melhor opinião, à hipotética Ordem dos Economistas.
V. conhece, alguém sabe, de um caso em que, por estar inscrito na Ordem, um fabiano qualquer, pretensamente “economista” tenha visto o seu ordenado aumentado ou a sua promoção favorecida por pertencer à Ordem?
Por outro lado, não vejo como possa, dentro de dois ou três anos, um tal fabiano, pretensamente “economista” ser favorecido
por pertencer à Ordem relativamente a outro que entende não pertencer. Sei como isso pode ocorrer com médicos, advogados, algumas especialidades de engenharia, revisores oficiais de contas (que, como já disse, encontram na filiação uma razão de ser), mas não nesse conjunto cujos elementos não têm denominadores comuns, e a que, á falta de melhor designação, se chama
Ordem dos Economistas.
Comment by rui fonseca — October 4, 2006 @ 12:04 am
“V. conhece, alguém sabe, de um caso em que, por estar inscrito na Ordem, um fabiano qualquer, pretensamente “economista” tenha visto o seu ordenado aumentado ou a sua promoção favorecida por pertencer à Ordem?”
Penso que essa pergunta é tonta. A Ordem é demasiado recente para poder ter esses efeitos e, evidentemente, entrou de mansinho para não assustar. Não foram tão imprudentes como a ordem dos arquitectos que já se encontram a braços com processos judiciais.
O Rui Fonseca acha natural que a Ordem dos Economistas já tenha vindo dizer que um Economista precisa de pelo menos 4 anos de formação especializada em Economia no Ensino Superior (quando na maioria dos países europeus os Economistas são formados em 3 anos). O Rui Fonseca acha natural que a Ordem dos Economistas fale em certificação de cursos. O Rui Fonseca acha natural que a Ordem defina um número mínimo de cadeiras de Matemática, de Economia e de Gestão para os cursos superiores. Enfim, tudo natural e nenhuns interesses corporativos.
Registo que o Rui considera que os estatutos da Ordem, aprovados por decreto-lei e publicados em DR, nada significam quanto às intenções dos seus dirigentes, ou que, significando, não passam de letra morta.
Rui Fonseca, registo ainda que não encontrou melhor explicação para 30 anos de esforço, de pressão política e de lóbi para formar a Ordem dos Economistas do que dizer que os economistas sentiam necessidade de que lhes chamassem “Dr.”.
Se se dá por contente com essa explicação, não sou eu quem o vai contrariar. Percebo que se recuse a assumir que está a cumprir o papel de idiota útil e não serei eu quem vai insistir que é esse o papel que, objectivamente, desempenha.
Como lhe disse, o Rui fez as suas previsões. Eu fiz as previsões opostas. Veremos quem tem razão. Não há, parece-me, muito mais para argumentar. Esperemos para ver.
Comment by LA-C — October 4, 2006 @ 1:38 am
Absolutamente de acordo, caro Luís!
E acresço ainda, p.ex., que na ordem dos Revisores Oficiais de Contas, se “fixam” valores mínimos a cobrar às empresas pelo trabalho realizado mensalmente, o qual tem de ser aceite (trabalho e valor) porque é obrigatório ter um destes senhores. E com tantos “exames” lhe digo que, p.ex., são péssimos “intérpretes” das leis que “aplicam”.
Abraços.
Comment by casoual — October 4, 2006 @ 2:31 am
Todos à Rua!
Manif. a favor da abolição de todas as Ordens!
Fim aos poleiros, já!
Fim às mordaças, basta!
Fim às mordomias, já!
O povo unido jamais seria vencido
Comment by Anonymous — October 4, 2006 @ 10:52 am
É uma grande verdade, é uma grande verdade.
Quando muito admitiria a necessidade de inscrição num grémio, havendo a liberdade de constituição de grémios, os quais funcionariam sob o chapéu-de-chuva da ASAE ou da Entidade Reguladora da Concorrência…
Comment by Suspirador — October 4, 2006 @ 11:07 am
Luis,
As perguntas, mesmo as tontas, e sobretudo estas, não devem merecer tanta animosidade. Eu suponho que o espaço “blog” deve evitar a acrimónia sem ser acrítico.
Foi com esta intenção que me dei à imprudência de comentar o seu post. Creio ter sido mal interpretado mas não vou acrescentar mais nada. E não voltarei a importunar, se esse é o seu convite.
Mas renovo-lhe os meus agradecimentos.
Comment by rui fonseca — October 4, 2006 @ 11:29 am
Concordo em pleno. E a função dos políticos é desmantelar esses cartéis. O problema é que os próprios políticos são corporativos, e precisam de corporações para ser eleitos. É o problema da democracia. Resta-nos escolher quais corporações são males menores.
Comment by Luís — October 4, 2006 @ 11:58 am
Caro Luís,
Já predicámos sobre este assunto no tempo dum visual da “destreza” menos azul, se bem que mais atlântico. Quando aprendi que a tradução exemplar para português da “Riqueza das Nações” fôra feita pelo Cristóvão. E corri a comprá-la. (Está hoje aqui ao lado da edição da Everyman´s Library.)
Vem isto a propósito de Adam Smith. Que nos meteu neste ramo do saber. Mas que também estabeleceu a liberdade (de escolha, de estabelecimento) como princípio dum melhor funcionamento da sociedade. Melhor quando comparado com o funcionamento dos regimes da ordem corporativa e da ordem absoluta. A ordem corporativa e a ciência económica são por isso dois conceitos filosòficamente antagónicos.
Diz um nosso amigo num seu comentário anterior, que a Economia pode então ser vista também como uma Arte. Sem dúvida. Em que um economista é um contador de histórias. E um bom economista é quem as sabe contar melhor. Com gráficos, textos, equações ou experiências.
Em 1968, Milton Friedman comentava sobre a introdução de contrôlos de preços pelo presidente Nixon, que “we are all keynesians, today!”. Em 1979, depois do anúncio por Paul Volcker da nova política monetária norte-americana, o “New York Times” punha em título que “We are all monetarists, today!”
Agora, depois de ver as últimas edições do programa “Prós e Contras”, digo-vos eu: WE ARE ALL ECONOMISTS, TODAY!
Obrigado.
Comment by F — October 4, 2006 @ 1:14 pm
LA-C: inscreva-se no Movimento Liberal Social. Na última Assembleia-Geral aprovámos precisamente uma moção pedindo que as Ordens Profissionais se tornem simples associações de profissionais, sem poderes públicos e sem poder limitar o acesso à profissão. Vá a liberal-social.org.
Comment by Luís Lavoura — October 4, 2006 @ 2:27 pm
Caro Rui Fonseca,
Apenas consigo perceber a sua reacção como estando ligado a eu ter insinuado que fazia figura de “idiota útil”. Se entendeu esta expressão como insulto, entendeu de uma forma que eu não pretendia. A figura do “idiota útil” está bem instituída na nossa língua. E refere-se a alguém que cheio de boa vontade e de boas intenções, e sem que de tal se aperceba, defende uma má causa, ligada a uma determinada agenda.
Esta expressão não pretende ser um insulto, mas sim uma mera descrição. Aplicá-la-ia, sem pestanejar, a uma miríade de discussões, como por exemplo aos intelectuais de esquerda que, em tempos e cheios de boas intenções, defendiam com unhas e dentes a União Soviética, convencidos de que estavam a lutar pelos direitos humanos. Também a aplicaria a todos os que defenderam a invasão do Iraque, com base nas informações falsas de Bush e Companhia. Nesse campo, por exemplo, Pacheco Pereira limitou-se a ser um “idiota útil” (e continua, diga-se de passagem).
Comment by LA-C — October 4, 2006 @ 2:36 pm
Caro F
Um prazer renovado encontrá-lo. Lanço-lhe, pela enésima vez, o desafio. Não quer escrever uns textos para eu colocar aqui na nossa destreza?
Luís Lavoura
Há quase um ano, pensei inscrever-me nesse movimento, que me parece ser um movimento de esquerda liberal. Mas, pelo menos para já, não pretendo que a minha acção pública vá além de uns textos no suplemento do Público (a revista Dia D).
Comment by LA-C — October 4, 2006 @ 2:39 pm
É triste ter de citar Salazar…
Mas, ele dizia que quando queria fazer uma coisa chamava um Homem.
Quando não queria, nomeava uma comissão…
Essas associações “liberais de esquerda” têm o mesmo efeito das Ordens.
Todos à rua.
É preciso outra revolução!
AVANTE!
Comment by Anonymous — October 4, 2006 @ 5:28 pm
Caro Luis,
Agradeço-lhe ter vindo novamente ao assunto. Acontece que eu não defendi a OE. Apenas tentei, afinal de forma pouco conseguida, pelos vistos, dizer-lhe que a OE não é comparável com, por exemplo, a Ordem dos Farmacêuticos, ou dos Advogados ou dos Médicos, ou dos Revisores Oficiais de Contas.
Porque o “economista”, inscrito ou não inscrito na Ordem, é uma espécie difícil de caracterizar profissionalmente por alguma homogeneidade de deveres deontológicos específicos. A menos que restrinja, como referi, a atribuição da condição. E, nesse
caso, fecharia a OE por falta de membros e teríamos o caso resolvido.
Eu estou de acordo que a designação de Ordem cheira a Idade Média. Preferiria a designação de Associação. Perguntar-me-á então: Mas se na OE se albergam membros sem interesses profissionais comuns, para além, eventualmente, de interesses sindicais, que não competem às Ordens prosseguir mas aos Sindicatos, para que serve a OE ou uma Associação com os mesmos indefiníveis objectivos?
É uma pergunta para a qual não encontro resposta muito satisfatória mas já tinha admitido que estou, talvez, a gerir mal alguns dos meus pequenos gastos. Daí a estar a colaborar numa acção ética ou moralmente condenável vai uma considerável distância
Comment by rui fonseca — October 4, 2006 @ 7:02 pm
“Agradeço-lhe ter vindo novamente ao assunto. Acontece que eu não defendi a OE.”
Sim, sim, eu quando me referia que objectivamente os ajudava não fui suficientemente claro. Não me estava a referir às suas opiniões (que penso que ficaram claras: não gosta dos estatutos e dos objectivos da Ordem, mas considera-os impraticáveis e, portanto, inócuas). Estava a referir-me ao facto de ser sócio. Mas eu nada tenho a ver com isso, pelo me calo.
Comment by LA-C — October 4, 2006 @ 7:07 pm
Luis, podemos também acrescentar que mais de metade dos Nobel em Economia não seriam admitidos na OE portuguesa, uma vez que não são “licenciados” em Economia…
Comment by Vasco Gabriel — October 4, 2006 @ 10:06 pm
As corporações têm um poder tal que lhes é permitido, para além de tudo aquilo que referiu e bem (excelente post!), practicar cartelismo a olhos vistos e com o consentimento do estado.
Estou a escrever isto essencialmente com o pensamento na Ordem dos Médicos, que estabelece, para as consultas, preço minimo (que de minimo só tem o nome) e quem ousar diminuir o preço das consultas (por outras palavras quem ousar introduzir leis do mercado ou pedir o preço justo por uma consulta em que a despesa do médico são 5 minutos do seu tempo, um papel de receita e um bocado de tinta da caneta), sofrerá consequências, aliás muito ao jeito das máfias.
Não sou a favor do fim das ordens, são a favor de colocar as ordens no seu devido lugar, tornando-as associações de profissionais.
Comment by Gisela — October 4, 2006 @ 11:26 pm
Aconselhava-o a ler esta posição do MLS:
Comment by Miguel Duarte — October 5, 2006 @ 11:51 pm
Eu sou advogado e concordo inteiramente com a posição do MLS e do Aguiar-Conraria.
Já agora, sugiro que vejam as declarações do “meu” Bastonário - Rogério Alves - sobre a aplicação do Processo de Bolonha…
…Já está a dizer que oito semestres de formação ” quatro anos” não chegam para a inscrição na Ordem dos Advogados. É preciso exigir o grau de mestre…
Cá está o poder corporativo a restringir o acesso dos nóveis licenciados à profissão.
Já que se começou esta luta que não haja desistências!
A afirmação do Ricardo está, absolutamente, correcta quando diz que os avaliadores da Ordem dos Advogados não têm competência técnica e científica para avaliarem pessoas com o mesmo grau académico.
Aliás parece que me ouviu quando, ainda estagiário, perguntei a um patrono formador da Ordem dos Advogados de Coimbra - hoje presidente do Conselho Deontológico do CDC da OA- que habilitações literárias possuía? Respondeu-me que era licenciado em Direito pela UC, e eu disse-lhe que, então, não lhe reconhecia competência nem legitimidade para me avaliar.
A OA promoveu a constituição do Instituto de Acesso ao Direito e aos Tribunais, apenas para poder gerir as dotações do Orçamento de Estado e mais facilmente poder distribuir as oficiosas pelos estagiários “escravos” das grandes sociedades de Advogados e pelos amigos…
Resultado, acabaram com o apoio judiciário universal.
Porquê?
Porque os processos-crime desapareceram dos escritórios dos grandes advogados.
Ao contrário do que se possa pensar a maioria das pessoas que cometem crimes são pobres e, como tal, não têm dinheiro para despender com profissionais forenses.
Com a constatação de que os nóveis advogados eram mais diligentes na defesa dos processos do que os Advogados “instalados” os arguidos verificaram que mais valia entregarem as suas defesas aos novos que ainda por cima eram grátis.
Resultado: Os interesses corporativos de alguns membros da OA, principalmente os da Associação do Jovens Advogados deram cabo do Apoio Judiciário, impedindo que um cidadão carenciado e passível de ser beneficiário do apoio judiciário possa escolher um advogado - numa violação grosseira do artigo 20.º da CRP- tendo que se conformar com um advogado estagiário ou não, “qualquer”, que a OA lhe nomeie.
Tudo isto, talvez, porque os representantes da Ordem, que também têm paizinhos e mãezinhas que se sentem orgulhosos dos seus meninos quando os vêm no poleiro e a falar com os senhores ministros, aconselhando-os a serem os lindos meninos que sempre foram e a dizerem que sim a tudo o que o senhor ministro proponha, porque parecia mal e ainda porque é conveniente defender os “legítimos interesses da Classe” Sempre fica bem!
Comment by José Manuel Dias de Aguiar — October 6, 2006 @ 3:50 pm
Também existem clubes bons, corporações que, especialmente quando desligadas de partidos marxistas, servem bons propósitos: os sindicatos. Isso fez-me pensar num post.
Comment by Luís — October 6, 2006 @ 4:42 pm
“A afirmação do Ricardo está, absolutamente, correcta quando diz que os avaliadores da Ordem dos Advogados não têm competência técnica e científica para avaliarem pessoas com o mesmo grau académico.”
José Manuel Dias de Aguiar
Caro José Manuel,
O seu a seu dono: a afirmação não é do Ricardo, é minha, em resposta a uma pergunta do Ricardo.
Abraço
Comment by El Ranys — October 6, 2006 @ 6:55 pm
Obrigado pela correcção.
Comment by jmda — October 8, 2006 @ 11:16 am
Excelente post.
Muito interessante o “diálogo” nos comentários, em especial o facto dos ” ‘drs.’ se sentirem orfãos e discriminados” (sic).
Comment by Luis Parreira — October 9, 2006 @ 1:58 pm
O facto de ninguém colocar em causa a legitimidade da existência da OE “original”, a dos Engenheiros, confirma as minhas suspeitas de que se trata da única Ordem, pela especificidade da profissão e importância para o desenvolvimento e segurança das populações e do ambiente, que tem razão de existir, já que é a única que toma realmente medidas contra os membros que não cumprem as suas regras.
Tudo o resto são corporações com o único objectivo de manter (ou dar) estatuto a uma determinada classe profissional.
Comment by Nuno Silva — October 11, 2006 @ 12:01 pm
“O facto de ninguém colocar em causa a legitimidade da existência da OE “original”, a dos Engenheiros,”
Da parte que me toca, de nada da minha argumentacao se pode inferir que eu abra essa excepcao. E parece-me ser uma extrapolacao abusiva das palavras dos restantes comentadores.
Comment by LA-C — October 11, 2006 @ 12:05 pm
A excepção, apesar de não abertamente referenciada, está implícita. A OE é das maiores (senão a maior) das Ordens em Portugal. Ao que me referi no meu comentário foi ao facto de, nos meandros de tanta alegação de inutilidade, fraude, corporativismo, etc, que raiaram todas as demais Ordens e Associações Profissionais, em nenhuma situação ter sido a OE referenciada. Ao contrário da grande maioria das profissões representadas pelas respectivas Ordens, a qualidade da engenharia portuguesa é reconhecida internacionalmente. O que é isto senão uma demonstração de um exemplo a seguir pelas outras Ordens?
Comment by Nuno Silva — October 26, 2006 @ 7:29 pm
“A excepção, apesar de não abertamente referenciada, está implícita.”
Então, explicitamente, digo que não é excepção. Não me vou alongar nesta discussão, mas, como exemplo, aponto o facto de os directores de obra terem de pertencer à Ordem dos Engenheiros.
Quanto à qualidade dos nossos engenheiros, não penso que a percepção que os estrangeiros têm da qualidade dos nossos engenheiros seja superior à que têm dos nossos médicos ou arquitectos (para apenas dar dois exemplos). De qualquer forma, dizer que tal se deve à ordem é tão arbitrário como dizer que se deve aos excelentes professores universitários nos cursos de engenharia.
Comment by LA-C — October 26, 2006 @ 8:02 pm
Aguardo a criacao da Ordem dos Ordenadores…
Comment by AEnima — October 31, 2006 @ 5:42 am