EVOLUCIONISMO, CIÊNCIA E FÉ (I)
Leitor fiel deste blogue, tenho seguido com atenção a discussão sobre a natureza científica ou não da economia. Não é disto que vou falar, mas de outro exemplo de discussão bem menos honesta intelectualmente do que é uma teoria científica. Refiro-me ao darwinismo, uma teoria científica não classificável epistemologicamente de outra forma, a propósito do ressurgimento do criacionismo e, agora, da sua versão "soft", o "intelligent design". É claro que isto é muito diferente da discussão sobre a cientificidade da economia. Neste caso, é uma discussão epistemológica entre pessoas que se colocam no mesmo plano de regras mentais. Entre evolucionismo e criacionismo, é bem diferente, é conflito insanável entre mentalidade científica e atitude de fé. Esclareço desde já, no entanto, como discutirei a seguir, que há fé "bruta" e fé inteligente, que respeito.
Este escrito vem a propósito de um desafio do Luís Aguiar-Conraria para eu, como biólogo, comentar o que talvez venha a ser uma polémica infeliz, mas sempre legítima em democracia, que talvez cresça na blogosfera a partir de uma entrada do Blasfémias. Não me apetece discutir este assunto como comentários num blogue, porque demasiadamente exigente em relação a "sound bites" de comentários. Pedi ao Luís algum espaço de escrita.
Parece-me interessante lembrar alguma coisa da história, porque este debate renasceu recentemente, quando parecia encerrado. Há abundante literatura sobre as reacções biblio-baseadas contra a "Origem das espécies". Lembram-se da célebre caricatura de Darwin macaco? No entanto, na sabedora Inglaterra, tudo isto se desvaneceu em pouco tempo, em época de valorização do enorme progresso científico do final do século XIX. Mesmo nos EUA, território de algumas aberrações tradicionalistas, casos como do julgamento de Scopes foram uma excepção pitorescamente trágico-cómica. Durante muitos anos, muitos católicos nunca tiveram qualquer dificuldade em conciliar a sua fé, a nível intelectualmente superior, com a sua aceitação da ciência, na base de que as narrativas religiosas são uma revelação divina simbólica e adaptada à mentalidade dos crentes da época. Esta atitude, mais ou menos conscientemente assumida, parece-me ser a generalizada entre os crentes de todas as religiões que aceitam um Deus criador.
Porquê então o ressurgimento espectacular do criacionismo? Não sou sociólogo, mas fui construindo algumas ideias sobre o irracionalismo e o fundamentalismo em época de perplexidade civilizacional. Isto levar-me-ia longe, porque tem aspectos muito multifacetados, que vão até mesmo ao pós-modernismo. Creio que isto tem hoje consequências inimagináveis. Num mundo que vive hoje aterrorizado, na polarização maniqueísta em que um dos pólos é o fundamentalismo islâmico, não me satisfazem as abordagens políticas e económicas a este problema. Há qualquer coisa de mais profundo que não consigo apreender e que vai muito para além do fundamentalismo do outro. O criacionismo não gera terrorista suicidas nem 11 de Setembro, mas, como atitude humana, lá tem os mesmos germes, com evidente ressalva do exagero.
Mais perigoso, em termos intelectuais, é o irracionalismo disfarçado, a jogar com o mais são do adversário, isto é, a racionalidade e a abertura intelectual. Refiro-me ao "intelligent design". Habilidosamente, não põe em causa a evidência científica, mas altera-lhe a lógica racional. Uma teoria científica não lida com causas (no sentido filosófico, não no sentido físico do causa-efeito). O "big bang" é uma teoria que explica a origem do nosso universo e que até em nada impede que possa ter havido outro nosso universo anterior, que possa voltar a haver outro, que até haja outros que não conhecemos. O que é essencial numa teoria destas é que não se pergunta "quem fez o big bang?" Se a religião ou o "intelligent design" quiserem dizer que foi Deus e muita gente acreditar, muito bem, mas não tem a ver com a ciência. Por isto, não sendo eu um positivista radical, não digo que seja obrigatória a coerência entre uma posição científica e uma posição religiosas (embora eu não a tenha). Separo é as águas.
O problema é que o artifício do "intelligent design", coisa para gente culta e cientificamente informada, conduz ao fortalecimento da brutalidade intelectual, dando aos irredutíveis fundamentalistas um lustre de inteligência. Deus criou a Terra, o Sol e a Lua, as estrelas, etc., não sei em quantos dias, não tenho pachorra para ir agora ver na Bíblia. É claro que, se fosse assim, o Sol nunca teria atraído a Terra, as estrelas já teriam desaparecido pelo fundo do universo visto como uma banheira com ralo, Deus teria criado estrelas e não essas coisas minúsculas que fazem parte de galáxias. Mas nada disto preocupa os criacionistas. Aqui, têm de se render à evidência da física. Se não, não andariam de avião e arriscavam-se a afogar-se se não aprendessem a nadar. Ainda por cima, são ignorantes, nunca compreenderam a relatividade, nem sequer sabem o que é a expansão do universo ou a radiação residual.
É por isto que preferi começar por falar no criacionismo físico, hoje obscuro (até se ver), o do universo. Fica assim mais fácil falar do criacionismo biológico, em próximo escrito.

Caro Joao, concordo com quase tudo o que disse, mas convém nao esquecer uma coisa. Os cientistas podem ser optimos profiossionais - rigorosos, criativos, sérios, etc. - e, apesar de tudo, achar que, em “ultima instância” (whatever that means), Deus é o responsavel, de uma ou outra forma - e o grau de responsabilidade e as consequencias que daqui advêm é uma discussao mais longa - pelo que existe no universo, na Terra, etc.. Se assim nao fosse, os inquéritos nao mostravam consecutivamente que mais de 50% dos cientistas norte-americanos é crente (e o que “crente” aqui significa também pode ser alvo de discussao). Nao estou a defender o “intelligent design”, mas apenas a chamar a atençao de que ha coisas que deste lado do Atlantico - onde ciencia e religiao andam tradicionalmente às turras - nos parecem contraditorias, mas que para cientistas mergulhados noutra tradiçao historica e sobretudo teologica nao o sao de todo. Afinal de contas, Newton fez o que fez e nao precisou de colocar em causa a hipotese de Deus.
Comment by Hugo Mendes — August 29, 2006 @ 7:21 pm
“Os cientistas podem ser optimos profissionais - rigorosos, criativos, sérios, etc. - e, apesar de tudo, achar que, em “ultima instância” (whatever that means), Deus é o responsavel, de uma ou outra forma”
Concordo, mas não me parece que isso seja incompatível com o que o JVC escreveu, pelo contrário, penso que está implícito quando escreve “Se a religião ou o “intelligent design” quiserem dizer que foi Deus e muita gente acreditar, muito bem, mas não tem a ver com a ciência.” Tem é de se separar as águas.
Comment by LA-C — August 29, 2006 @ 7:25 pm
De acordo.
Comment by Hugo Mendes — August 29, 2006 @ 7:27 pm
Mas com uma ressalva: esses mesmos cientistas poderao discordar do Joao quando ele diz que isso ja “não tem a ver com a ciência”; ou seja, a diferença entre o que diz a “ciencia” e o que diz a “religiao” pode nao ser para muitos verdadeiramente clara (ou ser uma querela razoavelmente irrelevante). Eles podem argumentar, por exemplo, que ambas estao “engaged” na procura dos fins ultimos do sentido da vida, e que onde muitos legitimamente colocariam estas questoes no dominio da “religiao” ou da “metafisica”, eles podem olhar esse projecto como estando inscrito no coraçao da propria empresa cientifica.
Atençao que nao estou a falar da religiao (ou dos representantes de uma igreja) que faz interpretaçoes “ad hoc” da ciencia nem do intelligent design em concreto, mas de uma atitude tida como natural para muitos cientistas. Para eles, fazer ciencia “no laboratorio” e conceber teologicamente o mundo pode ser uma e unica coisa.
Comment by Hugo Mendes — August 29, 2006 @ 7:52 pm
“O problema é que o artifício do “intelligent design”, coisa para gente culta e cientificamente informada, conduz ao fortalecimento da brutalidade intelectual, dando aos irredutíveis fundamentalistas um lustre de inteligência. Deus criou a Terra, o Sol e a Lua, as estrelas, etc., não sei em quantos dias, não tenho pachorra para ir agora ver na Bíblia.”
Eu creio que o “intelligent design”, ao contrario do creacionismo, nao segue a Biblia literalmente. Esta é alias umas das diferenças entre as duas “perspectivas”.
Comment by Hugo Mendes — August 29, 2006 @ 7:58 pm
Ora aqui está um exemplo, para a nossa blogosfera, do que é uma boa discussão. Não vou responder agora, aguardarei pelos comentários à minha próxima entrada, em que vou directo ao evolucionismo/criacionismo. Para já, apenas, e não é pouco, o meu agradecimento ao LAC pela hospedagem. Vou abusar, publicitariamente, sugerindo que me leiam.
Comment by JVC — August 29, 2006 @ 8:45 pm
Viva João.
Suspeito que vais acabar por concluir que a única posição lógica para um cientista é o agnosticismo (cf.: Foi Deus quem criou o Universo? Se calhar até foi, mas não é essa a questão que me interessa. O que me interessa é como é que ele funciona, quem (Quem!) quer que o tenha criado, if anybody…).
Aproveito para recomendar um livro do Lewis Wolpert: “Six Impossible Things Before Breakfast: The Evolutionary Origins of Belief (o título é uma citação do livro favorito do 1° Ministro. Livro esse escrito por outro Lewis. O Wolpert não é muito popular em certos círculos, o que é pena…).
Afinal a Ciência e a Religião não são coisas tão diferentes assim: Ambas procuram explicar o “mundo natural”.
O que as distingue, o que as põe em “conflito insanável” (como dizes) não é o objectivo que ambas se propõem alcançar, mas sim as explicações que buscam.
Só para poder recuperar uma discussão anterior com o LAC: Os religiosos vão ter de escolher entre tornarem-se físicos, coleccionarem selos ou deixarem a Ciência em paz…
Comment by P Vieira — August 29, 2006 @ 9:37 pm
“Afinal a Ciência e a Religião não são coisas tão diferentes assim: Ambas procuram explicar o “mundo natural”.O que as distingue, o que as põe em “conflito insanável” (como dizes) não é o objectivo que ambas se propõem alcançar, mas sim as explicações que buscam.”
Mas a religiao nao precisa de fornecer uma explicação contraria à da ciencia: pode simplesmente enriquecê-la com um “layer” extra de interpretaçao teologica. No caso do creacionismo, o choque é frontal porque assenta numa leitura literal da Biblia, afirmando que a Terra foi formada, se não estou em erro, em 6 dias. Ora, este tipo de asserçoes factuais sao facilmente desmascaradas, mas o “Intelligent Design” é muito mais sofisticado do que isto.
Os europeus tendem a ver a religiao como antitetica tanto com a ciencia como com a democracia. Mas nem a “religiao” nem “ciencia” nem a “democracia” sao “natural kinds”, e nos EUA assentam as três nas mesmas raizes historico-filosoficas.
Comment by Hugo Mendes — August 29, 2006 @ 9:55 pm
Ponham-se por um momento na cabeça de um cientista que acredita que Deus existe e criou o mundo. Este cientista tem duas opçoes:
1) Acha que “religiao” e “ciencia” sao coisas radicalmente diferentes, que é a ciencia que nos diz o que é cognitivamente correcto, como o mundo é e funciona, etc. A consequencia nefasta deste processo é que a dimensao da “religiao” correra’ sempre o risco de ser secundarizada, vista como uma almofada simbolica, um “second best” ou uma compensaçao para o mundo frio e impessoal das leis da fisica. Como dirao os psicologos, este cientista vivera’ sistematicamente sujeito a um processo problematico de “dissonancia cognitiva”, porque é obrigado a fazer uma divisao do trabalho que nao é em nada natural. Nao esqueçamos, a divisao entre “ciencia” e “religiao” nao é dada, é construida, é uma bifurcaçao historico-filosofica, nao algo que esteja localizada em sitios diferentes e incomunicaveis do cerebro humano.
2) O cientista nao aceita nenhuma destas situaçoes e procura reduzir a dissonancia cognitiva procurando compatibilizar as asserçoes cientificas consensualmente aceites ou plausiveis, mas dando-lhe um “theological twist”. Em vez de arrumar ciencia e religiao em locais diferentes do seu “belief set”, procura, esforçadamente, encontrar uma articulaçao possivel entre o que o cientificamente plausivel (mesmo que nao seja algo provado, pode bastar ser possivel, ou apenas uma hipotese dificil de estudar e nao completamente idiota) e teologicamente correcto. Enquanto o cientista agnostico lhe dira que Deus esta’ a mais no cenario (”nao precisamos de Deus para explicar X”), o cientista crente ficara satisfeito com “Deus pode nao explicar por agora, mas nao é incompativel, e talvez no futuro consigamos traçar as ligaçoes causais que agora somos incapazes de conhecer. Se prestamos mais atençoes aos fenomenos A e B, talvez possamos, no futuro, introduzir Deus na explicaçao de X”). De um ponto de vista popperiano, o cientista crente propoe uma teoria ou uma intepretaçao alternativa para a qual ainda nao foi encontrado um teste suficientemente credivel.
Eu nao partilho da versao 2). Mas também nao direi que é irracional. O mesmo se passa com os economistas (e outros) que invocam a “natureza humana” como explicaçao para uma serie de fenomenos, sendo que na maioria das situaçoes ela nao esta ali a fazer papel explicativo nenhum; epistemologicamente, passamos bem sem ela. Eu discordo deles; mas nao considera a estratégia cognitivamente irracional.
Comment by Hugo Mendes — August 29, 2006 @ 10:11 pm
Se é discutível que Deus tenha criado o Homem já é menos discutível que o Homem “criou” Deus. Para Anselmo (Santo), Bispo de Cantuária, (1033-1109), a existência de Deus podia ser discutida racionalmente. E desde que Deus podia ser objecto de pensamento, Deus existia. Deus existe, portanto, a partir do momento em que o Homem foi capaz de o idealizar.
E é único. Pelo menos para cristãos, judeus e islâmicos, o que torna difícil perceber, para mentes não programadas, porque razão se batem entre eles por um Deus que, afinal de contas, só pode ser o mesmo. Mas este, claro está, é outro tema.
Quanto à questão Evolução versus Criacionismo recomendo-lhes a leitura de uma obra, relativamente recente (2004) da autoria de Eugenie C. Scott, que é Directora Executiva do “National Center for Science Education”, tem prefácio de Niles Eldredge da Divisão de Paleontologia do “American Museum of National History”, e que tem por título “EVOLUTION VS CREATIONISM”. Acho que está lá tudo o que de relevante este tema possa sugerir.(University of California Press)
E se a vossa pachorra for tanta, leiam pf o que escrevi no meu blog a 12 de Novembro do ano passado sob o título “O FIM DAS ESPÉCIES” .
Gostaria de aproveitar para agradecer “publicamente” ao Luis Aguiar-Conraria a gentileza e a paciência que teve para me tornar um pouco mais destro nestas coisas de lidar com blogs.
Comment by rui fonseca — August 29, 2006 @ 10:26 pm
PS - Já depois de ter remetido o comentário é que reli o que escrevi e senti que fui indelicado, sem intenção de o ser, para com o autor do post. O problema é que se não nos despachamos o sistema diz que se esgotou o tempo.
Com efeito, ao sugerir uma obra e referir que “está lá tudo” parece
que queria dar a entender que o conteúdo do post nada acrescenta. Espero que não seja o entendimento do autor a quem peço o favor de desculpar o notório exagero da expressão.
Porque, claro está, o tudo não cabe em parte alguma a não ser no todo. E a obra que referi, por mais completa que seja, não é tudo nem para lá caminha, evidentemente.
Comment by rui fonseca — August 29, 2006 @ 10:39 pm