EVOLUCIONISMO, CIÊNCIA E FÉ  (I)


João Vasconcelos Costa

Leitor fiel deste blogue, tenho seguido com atenção a discussão sobre a natureza científica ou não da economia. Não é disto que vou falar, mas de outro exemplo de discussão bem menos honesta intelectualmente do que é uma teoria científica. Refiro-me ao darwinismo, uma teoria científica não classificável epistemologicamente de outra forma, a propósito do ressurgimento do criacionismo e, agora, da sua versão "soft", o "intelligent design". É claro que isto é muito diferente da discussão sobre a cientificidade da economia. Neste caso, é uma discussão epistemológica entre pessoas que se colocam no mesmo plano de regras mentais. Entre evolucionismo e criacionismo, é bem diferente, é conflito insanável entre mentalidade científica e atitude de fé. Esclareço desde já, no entanto, como discutirei a seguir, que há fé "bruta" e fé inteligente, que respeito.

Este escrito vem a propósito de um desafio do Luís Aguiar-Conraria para eu, como biólogo, comentar o que talvez venha a ser uma polémica infeliz, mas sempre legítima em democracia, que talvez cresça na blogosfera a partir de uma entrada do Blasfémias. Não me apetece discutir este assunto como comentários num blogue, porque demasiadamente exigente em relação a "sound bites" de comentários. Pedi ao Luís algum espaço de escrita.

Parece-me interessante lembrar alguma coisa da história, porque este debate renasceu recentemente, quando parecia encerrado. Há abundante literatura sobre as reacções biblio-baseadas contra a "Origem das espécies". Lembram-se da célebre caricatura de Darwin macaco? No entanto, na sabedora Inglaterra, tudo isto se desvaneceu em pouco tempo, em época de valorização do enorme progresso científico do final do século XIX. Mesmo nos EUA, território de algumas aberrações tradicionalistas, casos como do julgamento de Scopes foram uma excepção pitorescamente trágico-cómica. Durante muitos anos, muitos católicos nunca tiveram qualquer dificuldade em conciliar a sua fé, a nível intelectualmente superior, com a sua aceitação da ciência, na base de que as narrativas religiosas são uma revelação divina simbólica e adaptada à mentalidade dos crentes da época. Esta atitude, mais ou menos conscientemente assumida, parece-me ser a generalizada entre os crentes de todas as religiões que aceitam um Deus criador.

Porquê então o ressurgimento espectacular do criacionismo? Não sou sociólogo, mas fui construindo algumas ideias sobre o irracionalismo e o fundamentalismo em época de perplexidade civilizacional. Isto levar-me-ia longe, porque tem aspectos muito multifacetados, que vão até mesmo ao pós-modernismo. Creio que isto tem hoje consequências inimagináveis. Num mundo que vive hoje aterrorizado, na polarização maniqueísta em que um dos pólos é o fundamentalismo islâmico, não me satisfazem as abordagens políticas e económicas a este problema. Há qualquer coisa de mais profundo que não consigo apreender e que vai muito para além do fundamentalismo do outro. O criacionismo não gera terrorista suicidas nem 11 de Setembro, mas, como atitude humana, lá tem os mesmos germes, com evidente ressalva do exagero.

Mais perigoso, em termos intelectuais, é o irracionalismo disfarçado, a jogar com o mais são do adversário, isto é, a racionalidade e a abertura intelectual. Refiro-me ao "intelligent design". Habilidosamente, não põe em causa a evidência científica, mas altera-lhe a lógica racional. Uma teoria científica não lida com causas (no sentido filosófico, não no sentido físico do causa-efeito). O "big bang" é uma teoria que explica a origem do nosso universo e que até em nada impede que possa ter havido outro nosso universo anterior, que possa voltar a haver outro, que até haja outros que não conhecemos. O que é essencial numa teoria destas é que não se pergunta "quem fez o big bang?" Se a religião ou o "intelligent design" quiserem dizer que foi Deus e muita gente acreditar, muito bem, mas não tem a ver com a ciência. Por isto, não sendo eu um positivista radical, não digo que seja obrigatória a coerência entre uma posição científica e uma posição religiosas (embora eu não a tenha). Separo é as águas.

O problema é que o artifício do "intelligent design", coisa para gente culta e cientificamente informada, conduz ao fortalecimento da brutalidade intelectual, dando aos irredutíveis fundamentalistas um lustre de inteligência. Deus criou a Terra, o Sol e a Lua, as estrelas, etc., não sei em quantos dias, não tenho pachorra para ir agora ver na Bíblia. É claro que, se fosse assim, o Sol nunca teria atraído a Terra, as estrelas já teriam desaparecido pelo fundo do universo visto como uma banheira com ralo, Deus teria criado estrelas e não essas coisas minúsculas que fazem parte de galáxias. Mas nada disto preocupa os criacionistas. Aqui, têm de se render à evidência da física. Se não, não andariam de avião e arriscavam-se a afogar-se se não aprendessem a nadar. Ainda por cima, são ignorantes, nunca compreenderam a relatividade, nem sequer sabem o que é a expansão do universo ou a radiação residual.

É por isto que preferi começar por falar no criacionismo físico, hoje obscuro (até se ver), o do universo. Fica assim mais fácil falar do criacionismo biológico, em próximo escrito.