O meu artigo na dia D foi publicado online desformatado e falho de palavras. As palavras a menos não são graves; percebe-se que são gralhas. A desformatação é mais grave porque as palavras dos outros ficam indistinguíveis das minhas. Fica aqui a versão correcta do meu artigo.
O Estado na cama com elas
Aceitei com agrado e curiosidade o convite para escrever nesta coluna. Ao fim de alguns artigos, percebi um traço comum a todos os articulistas: o liberalismo. Querem que a liberdade individual não seja posta em causa pelo Estado. Querem que o Estado suprima os entraves à iniciativa privada. Que não interfira com a livre escolha do cidadão.
André Azevedo Alves abriu hostilidades: a Constituição em vigor continua a limitar o pluralismo. António Costa Amaral diz que que o Estado é incapaz de satisfazer os cidadãos e quer os funcionários [públicos] ao serviço do cidadão . Miguel Noronha diz que os indivíduos têm uma melhor percepção da informação que, para si, é verdadeiramente importante. Bruno Gonçalves quer uma maior liberdade de escolha para os utentes dos serviços [públicos].
Devem falar de todas as escolhas e não só das económicas. Não faz sentido ser-se a favor da livre escolha em algo tão irrelevante como a marca de champô e ser-se contra a livre escolha em algo tão pessoal e íntimo como o casamento.
Nos EUA, há 40 anos, era proibido o casamento entre negros e brancos em 16 estados. Verdade: Mildred Jeter (negra) e Richard Loving (branco) foram impedidos de se casar na Virgínia. Casaram-se em Washington e voltaram à Virgínia. Culpados de violar a lei que proibia o casamento inter-racial, foram condenados a um ano de prisão e forçados a abandonar o Estado da Virgínia. Porquê? Cito o juiz:
Deus todo-poderoso criou os brancos, negros, amarelos, malaios e vermelhos, e separou-os por continentes. Sem interferências nestes arranjos, não haveria causa para tais casamentos. Se Ele quisesse misturas não teria separado as raças
As liberdades individuais percorreram um longo caminho. Não chega. Em Portugal, Lena e Teresa decidiram casar-se. Decisão tomada por duas adultas, que não afecta ninguém. Quem advoga o primado do indivíduo e da liberdade então, corolário lógico, é a favor do direito da Lena a casar-se com a Teresa. Óbvio? Infelizmente, não. Contra, qualquer argumento vale: a Bíblia, a adopção, os custos fiscais ou a tradição.
Textos sagrados não servem como argumento para proibir o quer que seja, não só porque a separação entre Igreja e Estado constitui uma trave mestra da democracia liberal, como também porque a liberdade individual implica liberdade religiosa. A adopção é um direito da criança, o casamento é um direito do casal. Misturar os assuntos é desonesto. O efeito fiscal do casamento é quase irrelevante, ainda mais quando falam de uma minoria da população, a dos casais homossexuais. Alguns esgrimem a tradição, dizem que o termo "casamento" só descreve casais de sexo diferente. Imagino que se se criasse um gueto chamado "kazamento" se resolvia a questão.
De facto, o único custo do casamento homossexual é o stress que provoca no João César das Neves que existe em cada um de nós. Mas, como Stuart Mill explica no seu "Da Liberdade", o preconceito da maioria não pode limitar os direitos de cada um.
Pacheco Pereira, no "Público", diz-nos: em cada medida política, escolha-se a que mais nos dá liberdade política, social, económica, cultural, é esse o caminho. Precisamente.

é um artigo muito bom luis! E a frase de JSMill é primorosa.
Continua a fazer-me muita confusão esta coisa de kazamento… não percebo o que é isso do kazamento [embora compreenda, perfeitamento, o seu uso neste contexto]
Comment by aLaíde Costa — July 24, 2006 @ 7:29 pm
JSM ainda diz tb «O único fim em função do qual o poder pode ser correctamente exercido sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada, contra a sua vontade, é o de prevenir dano a outros. O seu próprio bem, quer físico, quer moral, não é justificação suficiente. Uma pessoa não pode correctamente ser forçada a fazer ou a deixar de fazer algo porque será melhor para ela que o faça, porque a fará feliz, ou porque, na opinião de outros, fazê-lo seria sábio, ou até correcto (…). É-me muito grato ler-vos, ainda que não comentando, mas hoje isto foi impulsivo, sobretudo por causa daquele apontamento que diz «o JCN que há em cada um de nós»: delicioso. E dei por mim a pensar no que diria o João Carlos Espada.
Cumprimentos.
Por causa da Guerra Colonial, fui reler o Carlos Vaz Ferraz: «Nó Cego».
Comment by C.S.A. — July 24, 2006 @ 9:12 pm
Viva, Luís
Estou contente por te ver na Revista Dia D.Leio-a para eu aferir e actualizar-me sobre quais as perspectivas que o sector empresarial e económico têm acerca destas questões relacionadas com Ambiente e Desenvolvimento Sustentável.
E se é a primeira intervenção, PARABENS…continua igual a ti mesmo.Amar mais é preciso, sem dúvida!!!!!
Um abraço
Comment by joao soares — July 25, 2006 @ 12:11 am
Excelente artigo.
Comment by José Barros — July 25, 2006 @ 2:08 am
Obrigado pelos comentarios.
Alaida A frase nao é de Stuart Mill, é antes o resumo que eu fiz de uma argumentacao mais longa.
CSA
Excelente citacao. Tambem fiquei chocado com as posicoes de Joao Carlos Espada sobre o assunto. Na minha opiniao, a fraqueza da sua argumentacao (especialmente a analogia com os jogos de pares mistos do ténis) é confrangedora.
Joao Soares
Agradeco as tuas palavras. Este ja é o terceiro artigo. Vou-te mandar os outros dois que ja escrevi
José Barros
Obrigado.
Comment by LA-C — July 25, 2006 @ 11:40 am
Luis desculpa a associação abusiva que fiz, de qualquer das formas o elogio que fiz a JSM é então a ti dirigido!
p.s. o meu nome é alaíde com um “e” no fim e não um “a”….
Comment by aLaíde Costa — July 25, 2006 @ 12:10 pm
Alaide
). Apenas fiz a referencia para que quem leia tenha consciencia de que ha uma argumentacao fundamentada na base de tal frase. Ou seja, a frase nao é um mero soundbyte.
Nao tens nada que pedir desculpa, por favor, eu é que agradeco o comentario (e a correccao ao teu nome
Comment by LA-C — July 25, 2006 @ 12:28 pm
Artigo excelente e oportuno. De que será que as pessoas têm medo?
Comment by mfba — July 25, 2006 @ 4:53 pm
Medo de ver o status quo alterado. Da mudança, caro(a) mfba.
Então e a poligamia? Se as pessoas sao livres de contratar tb faz sentido que possam ter relações com mais do que um parceiros?
antonio aka homemDASneves
Comment by antonio — July 25, 2006 @ 7:18 pm
Mas António a mudança é com os outros. A poligamia, ás tantas, não tinha tanta gente contra; os homens pelo menos
Comment by mfba — July 25, 2006 @ 7:52 pm
Como estou em lugar onde nao se usam acentos, ai vai o meu comentario afonico:
Nao me parece que para discutir esta questao se tenhade invocar a Biblia ou a legislacao actual. Afinal de contas, as leis, sao para se cumprirem ou alterarem, e a Biblia nao faz parte do nosso ordenamento juridico. Quanto a mim, a questao basica, radica no mais elementar bom senso: a de chamar a uma coisa um nome que a diferencie de outra coisa diferente. E aquela do K, desculpe a franqueza, nao e inteligente.
A questao ja tem sido levantada mas este seu artigo ignora-a: Imagine que se apresentam, nao dois mas tres cidadaos a quererem casar-se entre eles. A pertensao obedece ao criterio de JPP, e pelos vistos ao seu. Deve considerar-se casamento? E se forem tres? E por ai fora? Afinal de contas se o casamento, tal como ate agora tem sido entendido, era a dois, e de sexo diferente. Se admitimos que tambem seja do mesmo sexo, porque nao admitir que o seja tambem entre um maior numero?
Escuto.
Comment by Rui Fonseca — July 26, 2006 @ 9:47 pm
Pf. entenda que pretendia escrever pretensao.
Comment by Rui Fonseca — July 26, 2006 @ 10:05 pm
Não sei de que tipo de liberais é que estás a falar, mas os liberais no sentido europeu (libertarian nos eua) são a favor de qualquer contrato entre adultos consientes (o casamento é um caso particular). E estão-se a lixar para o que diz a constituição.
Uma nota para o comentador anterior: E isto é válido para qualquer número de adultos conscientes.
Comment by Nuno Palma — July 27, 2006 @ 8:50 am
Nao estou em Portugal, pelo que me tem sido dificil dar a atencao que os comentarios merecem. Espero conseguir replicar brevemente (talvez na proxima semana), mas antes gostaria de perceber melhor o problema do Antonio e do Rui Fonseca.
Trouxerem para o debate o casamento poligamico. Fico sem perceber a ordem do raciocinio. Voces sao a favor do casamento homossexual e portanto tambem sao a favor do casamento poligamico, ou, pelo contrario, sao contra o casamento poligamico e portanto tambem sao contra o casamento homeossexual?
Assumendo que a segunda hipotese esta correcta, entao pergunto-vos, por que sao contra o casamento poligamico? E acrescento uma outra pergunta: se por serem contra o casamento poligamico sao tambem contra o casamento homossexual, entao e’ legittimo concluir que, porque sao contra o casamento poligamico e homossexual, tambem sao contra o casamento heterossexual?
Agora um aparte, o Rui Fonseca disse, com todo o direito, que o argumento do casamento com K nao era la muito inteligente. Dado que nao se deu ao trabalho de fundamentar este commentario, penso que é justo (e simmetrico) que eu tambem diga que o Rui Fonseca nao gostou do argumento porque nao teve inteligencia sufficiente para o entender.
E, ja agora, sugiro que leiam a argumentacao do Antonio Costa Amaral: http://aartedafuga.blogspot.com/2006/07/separando-lenis-de-cobertores.html
Parece-me que a argumentacao dele e’ mais pertinente e, naturalmente, espero tambem responder-lhe em forma de post
Comment by LA-C — July 27, 2006 @ 10:56 am
Mas que grande confusao gerou a minha questao!
Mas eu explico. Eu nao disse que era a favor nem disse que era contra os “casamentos” entre homosexuais. Tambem nao disse que era contra ou a favor dos casamentos poligamicos. O que disse, e repito, e que para uma capaz interpretacao da realidade, a coisas diferentes devem corresponder nomes diferentes. Foi so isso.
E perguntei, se o LA-C , no caso de os “casamentos” poligamicos virem a ser autorizados em Portugal (e porque nao, e porque nao, se aceitarmos os casamentos homosexuais por que razao nao aceitarmos os sexuais a mais? ) se esses “casamentos” deveriam ser todos eles desigandos do mesmo modo.
Fiz-me entender, agora?
Comment by Rui Fonseca — July 27, 2006 @ 7:53 pm
Volto, novamente, depois de ter ido espreitar a artedafuga. La deixei alguns reparos a leveza das propostas. Como sei que o LA-C e professor universitario gostaria que comentasse o meu ponto de vista a proposito da quase gratuitidade do ensino universitario publico, em Portugal. Como tambem vi que se doutorou por aqui, (escrevo dos EUA), estou certo que entende bem o que deixei dito naquele blog.
Comment by Rui Fonseca — July 27, 2006 @ 8:28 pm
Idem.
Pessoalmente nao tenho opiniao sobre os casamentos homossexuais ou as unioes poligamicas (o que me suponho me incluiu no grupo daqueles que as aceitam e n’ao tem nada contra). Acho atë que o problema estä em os politicos nos (tentarem) fazerem crer que temos algo a haver com isso (para ganho deles, obviamente, veja-se como os republicanos americanos se servem desta causas fracturantes para enlistar os eleitores que na realidade s’ao os que menos beneficiam quando nao säo prejudicados pelas politicas dos republicanos) e que é algo importante para a sociedade. Nao ë, ë importante que as pessoas tenham a liberdade para decidir por si próprias.
Perguntei-te pela poligamia porque cheguei aqui depois de passar pelo blogue de um libertarian (o finlandforthought) onde ele defendia a liberdade de uniao poligamica (praticada entre os mormons e retratada numa nova serie da tv americana) e fiquei curioso para saber a Opinião Liberal
Comment by antonio — July 28, 2006 @ 12:14 am
Luís,
Em primeiro lugar, parabéns pelo artigo e pela controvérsia gerada. Fala-se de casamento homossexual e poligamia e o resultado é uma caixa de comentários cheia…
Duas notas breves:
1. Do comentário do António pode ter ficado a ideia de que os mormons defendem as uniões poligâmicas. Isso é falso. A doutrina Mormon já abandonou essas ideias há dezenas de anos. Acontece que, como em todas as religiões, há seitas que são uma espécie de spin-off fundamentalista, e que ainda defendem, de forma radical, os casamentos poligâmicos. Sobre eles, não tenho uma ideia muito formada, mas do que li e vi, considero gerarem demasiadas “externalidades negativas”… Como vou passar férias ao Sudoeste Americano, terei oportunidade de elaborar sobre o assunto posteriormente…
2. Quanto ao liberalismo, um dia faço um texto no blog a justificar porque razão apoio a liberalização da prostituição…
Comment by Fernando — July 28, 2006 @ 2:21 pm
E, ja agora, sugiro que leiam a argumentacao do Antonio Costa Amaral
Caro LA-C,
Antes de tudo queria desculpar-me de ter respondido ao artigo “Na cama com elas” (com o qual concordo!), mas de forma tão seca, por post— as últimas semanas de trabalho não foram simpáticas para mim…
A minha tese, estafada na blogosfera é verdade, é que até os “direitos sociais” dos cidadãos, ou seja, garantias (?) do Estado associadas a uma programática socialista, seriam melhor prestados pelo mercado concorrencial.
E que todas as políticas socialistas podem continuar a existir, com maior eficiência, financiando o Estado as pessoas, e esvaziando o aparelho burocrático daquelas funções, porque por natureza desempenha-as mais em prol de si próprio do que no interesse das pessoas…
Seria um sistema calibrável: se o “financiamento das pessoas” fosse quase nulo, teríamos um modelo (neo-)liberal, caso contrário, até poderia servir à Esquerda que acarinha o Welfare State mas despreza o aparelhismo, o dirigismo, o burocratismo, o paternalismo (que eu chamo “eficientista”– mas este adjectivo tem direitos de autor!)…
(a provocação é amigável)
Comment by António Costa Amaral — July 31, 2006 @ 3:46 pm
Que conversa interessante…
Mais parece um casamento de interesses, alheios, apenas interessados na divulgação do incómodo, da contradição, da confusão, em estilo de …Vamos lá aborrecer estes burgueses, os beatos, os tradicionais, etc.
Mesmo com muito entusiasmo pela novidade, ou expressando uma paixão por algo diferente, por mania, moda, aberração, casamento nunca será… nem mesmo com muita imaginação.
Como não será de certeza, casamento a união de um ser humano com burro ou burra, cão ou cadela.
Pois parece impossível, até existem regras…!
Comment by Jorge Victor — August 18, 2007 @ 2:34 am