A destreza das dúvidas

Letras económicas
Fernando AlexandreNovember 24, 2009 10:42 pm

por Paulo Rabello de Castro
Publicado na revista Época de 15 de novembro de 2009

Faz um ano que o povo americano viu sua economia desabar. De lá para cá, apesar da aplicação de choques poderosos, na voltagem de mais de 2 trilhões de dólares, se somados os planos de socorro aos de estímulo, a produção recuou forte e mais 3 milhões de desempregados se juntaram às filas de assistência. Obama havia prometido segurar o desemprego, “criando ou mantendo 4 milhões de postos de trabalho”. A realidade operou para desmentir o presidente. A linha do desemprego, de 10,2% e ainda subindo, é a maior do pós-guerra.

Novas propostas de estímulo chegam à mesa de Obama todos os dias. O perplexo presidente é pressionado a dobrar a aposta no aumento dos gastos de governo, como uma espécie de solução mágica keynesiana para a falta de apetite dos consumidores. Mas o afrouxamento monetário e fiscal, traduzido em emissões descomunais e um déficit orçamentário recorde em 2009, apenas assegura o agravamento da instabilidade do dólar como moeda de aceitação universal. Esse tipo de filme já passou antes, quando os EUA enfrentaram o rescaldo do Vietnam e os choques de preço do petróleo nos anos 70. Foi preciso dominar uma inflação brava e a fórmula adotada por Paul Volcker nada teve de keynesiana: juros de dois dígitos e muita teimosia contra os apelos do mercado financeiro, que queria o relaxamento das medidas.

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Fernando AlexandreNovember 23, 2009 12:50 pm

por Paulo Rabello de Castro
Rio de Janeiro, 9 de novembro de 2009

O anúncio da taxa de desemprego de 10,2% nos EUA –– ou de 17,5% se computados os que vivem de bicos e os desalentados –– evidenciou a fragilidade da sua recuperação. Na Grande Depressão, dos anos 30, a taxa de desemprego circulou em torno de 20%, mas naquele tempo não se recebia o cheque do seguro-desemprego em casa. Fazia-se fila à porta das fábricas e nos pontos de distribuição de sopão. O tratamento mais digno e inteligente aos desempregados não significa, porém, uma vantagem da situação de hoje frente ao quadro doloroso na década de trinta. Até 2011, pelo menos, assistiremos a um quadro de riscos extremos para os americanos. E os desdobramentos, para quem deles dependa?

A armadilha do Federal Reserve, o banco central dos EUA, é do tipo “se correr,  o bicho pega, se ficar, o bicho come”. Como um barquinho levado pela maré para o alto mar, o FED deixou a economia deslizar pelas águas ainda calmas da baía, tocada pelo juro negativo e pelo valor cadente do dólar. O monumental déficit fiscal causado pelos planos de estímulo e socorro tenta resgatar o impulso ao gasto, mas o efeito principal desses planos de intervenção é causar uma alta especulativa nas bolsas e nos mercados de commodities, onde a liquidez do fraturado sistema financeiro se concentra. Especular virou atividade subsidiada pela política monetária e pelos contribuintes. Mas o destino do barco é a boca do alto mar, onde águas turbulentas levarão os passageiros de novo ao pânico.   Tal descrição nada tem de sombria ou exagerada: revela apenas o que normalmente não é dito nem publicado. Não é a versão, digamos, oficial da crise. De fato, marchamos para uma “rebolha” de ativos hiper-valorizados e que pode estourar a qualquer momento, à medida que os fundos se desfaçam de suas posições compradas, por temor de uma mudança de Ben Bernanke em relação à fraqueza do dólar.

Se ocorrer um novo ataque especulativo, desta vez será contra o dólar dos EUA. O endividamento do conjunto da sociedade americana, incluindo governo, empresas, famílias e setor financeiro, atingiu um nivel próximo a quatro vezes o total da sua produção (PIB). Tal proporção de 400% do PIB nunca antes havia sido alcançada, mesmo para financiar o esforço de guerra. Desta vez, o atoleiro de dívidas é geral. Esta é a diferença fatal. Nesse cenário, tipicamente brasileiro dos anos 80, que conhecemos tão bem, a economia americana avançará devagar e os especuladores estarão sempre prontos a apostar contra a política do FED. Quanto mais munição se lhes der, mais força terão para derrubar as comportas do dique de contenção. A munição é a liquidez abundante que o FED lhes serve agora, e a especulação tomará a forma de inflação repentina.

A inflação tem um sentido purgativo. É a forma politicamente indolor de se atribuir um imposto a quem detém dólares ou ativos equivalentes. A inflação reduz o valor real das dívidas do governo e dos indivíduos. Mas quando os preços se mexerem, o FED será obrigado a correr atrás do prejuízo maior, que é a perda da confiança no dólar como reserva de valor. Daí a armadilha citada, da qual resultará nova alta de juros e o empurrão no barco para as ondas de alto mar, com outra sequência de destruição de postos de trabalho.

A política econômica atual, no Brasil, não dá mostras de estar prevenida para um desfecho de cenário negativo em 2010. Pelo contrário, só se cogita da alternativa positiva, o que é psicologicamente muito bom, mas prudencialmente muito ruim. O Brasil não tem pára-choques contra uma segunda trombada que atinja de frente a frágil “recuperação” dos EUA e que, de tabela, interfira no delicado equilíbrio mantido até agora pela China, nossa principal compradora e razão última do sucesso que tivemos neste País até aqui. A valorização intensa do real nas semanas recentes é sinal inequívoco de que a euforia nos tomou conta. Riscos ampliados à frente.

Luís Aguiar-ConrariaNovember 19, 2009 10:50 am

Nos EUA, há 40 anos, era proibido o casamento entre negros e brancos em 16 estados. Verdade: Mildred Jeter (negra) e Richard Loving (branco) foram impedidos de se casar na Virgínia. Casaram-se em Washington e voltaram à Virgínia. Culpados de violar a lei que proibia o casamento inter-racial, foram condenados a um ano de prisão e forçados a abandonar o Estado da Virgínia. Porquê? Cito o juiz:

Almighty God created the races white, black, yellow, malay and red, and he placed them on separate continents. And but for the interference with his arrangement there would be no cause for such marriages. The fact that He separated the races shows that he did not intend for the races to mix.
Tradução: Deus todo-poderoso criou os brancos, negros, amarelos, malaios e vermelhos, e separou-os por continentes. Sem interferências nestes arranjos, não haveria causa para tais casamentos. Se Ele quisesse misturas não teria separado as raças.

Luís Aguiar-ConrariaNovember 17, 2009 7:51 pm

Caro Fernando Alexandre,
Eu quero enviar aos Autores d’A Crise Financeira Internacional o meu agradecimento pelo bom gosto que me trouxe a leitura destas 195 páginas.
O Vosso entendimento central é que «na origem da crise financeira está o excesso de endividamento» [10]. É verdade. São ainda «as falhas do mercado (que) foram também falhas do Estado, pelo menos parcialmente», ao contribuírem «para a acumulação dos desequilíbrios que estão na origem da crise financeira» [177]. Também é verdade.

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Cristóvão de Aguiar 11:19 am

Cristóvão de AguiarNovember 10, 2009 9:49 am

Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago

No JL, de 3 de Novembro, Miguel Real, entre muitas outras coisas, escreve: “Em Caim permanece o estilo tradicional de Saramago (já amiúde anali­sado), tanto barroquizante (…) (uma floresta de palavras (subli­nhado meu) ilustra­dora de uma ideia) e anarquizante (uma espécie de every­thing goes), isto é, a con­fluência de um léxico antigo e ver­nacular – avonde (pp.16 – com um voca­bulá­rio moderno, dese­nhando um melting pot semântico, aparente­mente espontâ­neo, pelo qual a lógica do texto cria as suas pró­prias hierarquias gra­maticais e ideológicas (…)".

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Cristóvão de AguiarNovember 9, 2009 9:33 am

Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago

Nada há de novo debaixo da rosa do Sol! Nem tão-pouco o tema de Jesus Cristo, que Saramago, no seu Evangelho, apesar de páginas sublimes, não consegue desmistificar o emaranhado que se teceu à volta da figura de Jesus e seus discípulos, sendo por vezes mais fácil acreditar no Novo Testamento do que na versão saramaguiana (coteje-se os dois textos sobre o milagre das Bodas de Caná, o da Bíblia e o do Evangelho), e ficar-se-á elucidado. Essa tarefa desmistificadora coube, porém, entre outros, a Renan, em A Vida de Jesus), a Gèrard Messadié, em Um Homem que se tornou Deus, que o autor transformou em romance (edição esgotadíssima da Difusão Cultural, que esteve ao lado do Evangelho, nas livrarias, et pour cause). (more…)

Fernando AlexandreNovember 4, 2009 2:51 pm

Por Fernando Alexandre, Pedro Bação, João Cerejeira e Miguel Portela

A economia portuguesa não escapou ao processo de desindustrialização que desde o início dos anos 80 afectou a maioria dos países desenvolvidos: de acordo com a OCDE, entre 1988 e 2006 a percentagem da população activa a trabalhar na indústria em Portugal diminuiu de cerca de 25% para 18%. Na figura 1, que apresenta a evolução naquele período do peso das manufacturas, por nível de tecnologia, no emprego total por conta de outrem, podemos ver que a desindustrialização em Portugal incidiu exclusivamente nas indústrias de baixa e média-baixa tecnologia. As manufacturas perderam cerca de 150 mil empregos entre 1988 e 2006, o que no essencial corresponde aos empregos perdidos no sector do têxtil e calçado. No entanto, apesar destas perdas de emprego, deve salientar-se que, em 2006, os sectores de baixa e média-baixa tecnologia ainda representavam mais de 80% do emprego total por conta de outrem nas manufacturas.

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Fernando AlexandreNovember 2, 2009 3:57 pm

Por estes dias chegará às livrarias o livro A Crise Financeira Internacional, que pode também ser adquirido no sítio da Imprensa da Universidade de Coimbra. Para ficarem com uma ideia do que nele vai escrito deixo aqui a Introdução:

Na origem da crise financeira está o excesso de endividamento. Nos últimos anos do século XX e nos primeiros do século XXI, países como os Estados Unidos, o Reino Unido, a Irlanda, a Islândia, a Espanha ou Portugal aumentaram de forma extraordinária os seus níveis de endividamento, acumulado essencialmente pelas famílias para a aquisição de habitação e consumo. Na Dinamarca e na Holanda, por exemplo, o endividamento ultrapassou em mais de duas vezes o rendimento gerado anualmente. Assim, para percebermos as causas da crise financeira temos de identificar os factores que estiveram por detrás do extraordinário aumento do endividamento, em particular, o papel desempenhado pelo desenvolvimento dos mercados financeiros nas últimas décadas e a forma como o Estado se posicionou em relação a estes desenvolvimentos.

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Cristóvão de AguiarNovember 1, 2009 8:55 pm

Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago

Saramago analisa o texto bíblico ao pé da letra. Atente-se nesta invectiva do Nobel a um teólogo, numa entrevista televisiva:
“Que autoridade têm os senhores para pôr na Bíblia o que lá não está escrito?” Que me desculpe o escritor, mas parece que a sua interpretação bíblica pede meças à das Testemunhas de Jeová e à dos Adventistas do Sétimo Dia, que esperam Cristo desde 22 de Outubro de 1844, pelas contas feitas, e bem feitas, pelo seu fundador, William Miller, antes pertencente à igreja Baptista e depois fundador do Adventismo por ter interpretado a Bíblia de modo diferente do dos baptistas. Nas suas contas baseou-se nas profecias de Daniel. Está escrito! E o que está escrito é a palavra de Deus… e a ela não se pode mudar um til! Deu no que deu: em 22 de Outubro de 1844,  toda a gente, de olho no céu, à espera e Jesus não desceu… Grande foi a desilusão: ficou para a história como o Dia do Grande Desapontamento. Houve debandada quase geral dos fiéis. Sentiram-se defraudados: foram enfileirar-se noutros credos, fundando outros… Mas, e há sempre uma interpretação à letra que nos pode sair ao caminho: Os poucos que restaram fiéis à igreja, agora dirigida por Helen White, a profetisa dos adventistas, escreveu: Cristo realmente principiou a viagem, mas ficou a meio, em quarentena, num lugar entre o céu e a terra, esperando por melhor ocasião para aterrar no nosso planeta…

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Cristóvão de AguiarOctober 30, 2009 5:23 pm

Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago

Em continuação do santo Evangelho segundo José Saramago, é bom não esquecer que o tema do pecado de Caim, o primeiro assassino da humanidade, a tomar como verídicas as palavras do Génesis, não foi uma novidade trazida pelo nosso Nobel à Literatura. Já antes dele, Byron, Baudelaire, Victor Hugo e Tournier trataram do assunto com outra elevação, adiante-se já a bem da verdade. O que irrita em Saramago, neste seu último romance, é a leviandade e a pobreza de ideias e falta de argúcia interpretativa com que trata os textos bíblicos, não raro lançando mão de uma linguagem escabrosa, que pouco dignifica quem a utiliza.

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Cristóvão de AguiarOctober 29, 2009 11:09 pm

Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago

Sabendo-se pouco, isto é, sem a profundidade necessária, sobre o que se quer destruir, distorcer ou criticar, pode entrar-se num jaco­binismo sem consequência, apenas para chocar o burguês, ou num anticleri­calismo primário, como aconteceu durante o século XIX. Nesse tempo, o Deus do Velho Testamento era já considerado cruel, sangrento, bruto, tudo quanto dele diz agora, em segunda mão, o nosso Nobel da Literatura. Nada de novo, portanto! Dou como exemplo o poeta Guerra Junqueiro e o seu livro A Velhice do Padre Eterno. Quem o lê hoje? Quem se incomoda com as suas dia­tribes? Ouçamos Guerra Junqueiro:

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Cristóvão de AguiarOctober 28, 2009 10:33 pm

Much ado about nothing
ou a Bíblia segundo Saramago

Tomei de empréstimo a Shakespeare o título de uma das suas mais hilariantes comédias. Penso que retrata bem a situação criada à volta da última obra de José Saramago, Caim. O muito barulho continua a furar-nos os tímpanos, e há-de continuar até à náusea, tanto na imprensa escrita como na difundida: artigos, entrevistas, opiniões públicas na rádio e televisão, em que ouvintes e telespec­tadores opinam sobre o que sabem e não sabem, maneira muito portuguesa de ser mestre em toda a arte, ou burro em qualquer parte, enfim, tudo o que ima­ginar se possa: até teólogos, politólogos e outros pedagogos de alto coturno… A origem de tal alvoroço na capoeira da paróquia reside nas declarações, estratégicas ou não, do autor do livro, no dia do seu lançamento, em Penafiel. O nada de toda esta lagariça será o romance que, na minha modestís­sima opi­nião, está longe de merecer tamanho alarido.

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Fernando AlexandreOctober 27, 2009 8:21 pm

Escrito com Pedro Bação, Professor da Universidade de Coimbra
Publicado no Semanário Económico, em 25 de Outubro

Oitenta anos depois da “Quinta-feira negra”, o primeiro de uma sequência de dias em que o pânico tomou conta de Wall Street e que marca para muitos economistas o início da Grande Depressão dos anos trinta, discute-se o fim da crise financeira internacional iniciada em 2007. Embora a história não se repita, a incerteza relativamente à robustez dos sinais de recuperação alimenta o interesse por episódios semelhantes na esperança de neles se encontrarem as respostas que nos faltam. A Grande Depressão é para todas as crises financeiras a grande referência histórica. Vale a pena, por isso, recuperar essa história neste dia.

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Fernando AlexandreOctober 21, 2009 11:57 pm

Não leio José Saramago desde o Ensaio sobre a Cegueira: por causa dos elogios de colegas estrangeiros que andavam com o livro debaixo do braço fiz várias tentativas. Não consegui nunca passar além da página cinquenta. Soava-me a um padre rezingão a pregar do seu púlpito. Já antes disso as entrevistas de Saramago me provocavam irritação pelas mesmas razões. O último livro que li e gostei foi A História do Cerco de Lisboa. A propósito do seu último livro, José Saramago disse que o Deus do Antigo Testamento é um deus cruel. O meu filho José, quando lhe lia a Biblia numa versão para crianças, disse-me algo parecido a propósito do sacrifício de Isaac: “Pai, este Deus é mesmo mau”. Não lhe voltei a ler a Biblia. Na altura lia muito a Biblia para perceber os quadros da National Gallery. E ainda hoje leio. E se calhar vou voltar a ler Saramago.

Fernando AlexandreOctober 19, 2009 10:31 am

When people want to understand apparently inexplicable events, they look to a historical parallel.
Harol James, The Creation and Destruction of Value (2009, pp. 36)

Desde o seu início que o paralelo histórico para a crise financeira internacional de 2007/08/09/… é a Grande Depressão dos anos trinta. No seu novo livro, The Creation and Destruction of Value – The Globalization Cycle, Harold James, professor da Universidade de Princeton, analisa a crise financeira internacional e as suas possíveis consequências para a globalização à luz dos acontecimentos dos anos trinta – como o autor refere em vários pontos do livro, o paralelo histórico deve ser estabelecido com a crise bancária iniciada em 1931 na Europa e não com o crash da bolsa americana de 1929.

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Luís Aguiar-ConrariaOctober 12, 2009 12:59 pm

Mais um muro que cai: Elinor Ostrom, a primeira mulher a ganhar o prémio Nobel da Economia.

Luís Aguiar-ConrariaOctober 10, 2009 5:48 pm

What is the principle of wisdom, if not to abstain from all that is odious to God? — Papa Bento XVI, num discurso proferido 4 dias antes de um referendo em Itália sobre fertilização in vitro.

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Fernando AlexandreOctober 7, 2009 1:18 pm

A República Popular da China completa este mês 60 anos. Nos primeiros 30 anos, sob a direcção de Mao Tsé-Tung, a China ambicionou tornar-se uma potência tendo como principal referência o modelo Soviético. Neste período, a União Soviética era também o principal e quase único parceiro comercial. No final dos anos 1950 e no início dos anos 1960, começaram a surgir as divergências com a União Soviética e Mao, o grande timoneiro, procurou uma via própria para o socialismo com o Grande Salto em Frente e a Revolução Cultural. Os resultados trágicos daquelas duas experiências representaram uma grande desilusão em relação às possibilidades do modelo socialista poder tornar a China num país rico e poderoso. No final dos anos 1970, aquele fracasso contrastava claramente com o sucesso das estratégias de abertura ao exterior, e baseadas na iniciativa privada, de Hong-Kong e Taiwan.

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Fernando AlexandreSeptember 30, 2009 8:30 am

No final mês de Outubro, será publicado em Portugal pela "Imprensa da Universidade de Coimbra" e no Brasil pela pela "Lex editora" o livro A crise financeira internacional de Fernando Alexandre (UMinho), Ives Gandra Martins (UMackenzie), João Sousa Andrade (UCoimbra), Paulo Rabello de Castro (SR Rating) e Pedro Bação (UCoimbra) – ver biografia breve dos autores abaixo. Deixo aqui ficar a Nota Préviaque abre o livro.

Nota prévia

Os livros sobre a crise financeira de 2007 inundam os escaparates das livrarias e doutros espaços comerciais. A propósito da abundância de livros sobre a crise financeira, a revista The Economist, em Junho de 2009, definia assim as condições a cumprir pelo livro ideal:

O livro ideal sobre a crise não diria aos leitores apenas o que aconteceu e porquê. Olharia também para como o sistema irá mudar. E seria acessível, mesmo a leitores que não passaram anos a estudar detalhadamente os mercados financeiros.

Na altura em que escrevíamos este livro, a crise iniciada em 2007 já era a mais grave crise económica e financeira desde a Grande Depressão. Os avanços da ciência económica desde a crise dos anos trinta contribuíram para um longo período de estabilidade, intercalado por crises económicas todas elas breves e suaves quando comparadas com a de 2007. Mas, entretanto, o mundo foi-se tornando mais interligado e complexo com o aprofundamento da globalização comercial e financeira. É possível que em termos relativos o conhecimento que temos hoje do funcionamento das economias seja menor do que nos anos trinta. Tudo isto torna mais difícil a tarefa de escrever um livro ideal, nos termos acima definidos, sobre a crise financeira internacional. Vale a pena lembrar que o livro clássico de John Kenneth Galbraith (1908-2006) sobre a Grande Depressão dos anos trinta foi escrito já nos anos cinquenta, e ainda hoje a Grande Depressão continua a ser um importante tema de discussão e de controvérsia.

O facto de este livro ter sido escrito a cinco mãos, duas brasileiras e três portuguesas, combinando os contributos de quatro académicos e de um profissional na avaliação do risco dos mercados financeiros, também com um passado académico, separados pelo Atlântico mas aproximados pelas novas tecnologias de comunicação, tornou-nos ainda mais conscientes das dificuldades deste projecto. Procurámos descrever de forma acessível as origens da crise financeira internacional de 2007, bem como os seus efeitos mais imediatos sobre as economias, seguindo as indicações da Imprensa da Universidade de Coimbra. Esperamos ter cumprido o nosso contrato.

Breves notas sobre os autores

Fernando Alexandre – Professor da Universidade do Minho, doutorado em Economia pela Universidade de Londres, publicou vários artigos em revistas científicas internacionais, é co-autor do blogue “A Destreza das Dúvidas” e colabora regularmente com os media.

Ives Gandra Martins – Professor Emérito de Direito Constitucional e Económico na Universidade Mackenzie, autor de mais de trezentos livros e artigos académicos, coordenador do programa “Caminhos do Direito e da Economia” da Academia Internacional de Direito e Economia, veiculado pela Rede Vida de Televisão.

João Sousa Andrade – Professor Catedrático e membro do Conselho Geral da Universidade de Coimbra, doctorat d’Etat pela Universidade de Poitiers, autor de vários livros e artigos académicos e Membro da Academia das Ciências de Lisboa.

Paulo Rabello de Castro – Presidente da SR Rating, doutorado em economia pela Universidade de Chicago, leccionou na Fundação Getúlio Vargas, é colunista da Folha de São Paulo e colabora regularmente em programas de televisão e rádio.

Pedro Bação – Professor da Universidade de Coimbra, doutorado em Economia pela Universidade de Londres, publicou vários artigos em revistas científicas internacionais e na imprensa nacional (Diário Económico, Jornal de Negócios e Público).

Luís Aguiar-ConrariaSeptember 29, 2009 3:53 pm

Estamos muito preocupados com a (in)governabilidade de Portugal nos próximos anos. Há um segredo que os políticos procuram guardar, mas que a história recente já se encarregou de destapar. Nós não precisamos de um governo para nos governar. Ainda há 2 anos a Bélgica esteve meio ano sem governo, e tudo continuou a funcionar. Nos anos 80, tinha acontecido um caso semelhante também na Bélgica e nos anos 70 na Holanda.

Fernando AlexandreSeptember 28, 2009 2:17 pm

O Secretário-Geral do Partido Socialista considerou extraordinária a vitória de ontem nas eleições legislativas. As razões substantivas para esta avaliação foram duas: o ímpeto reformista do seu Governo, e a oposição que gerou, e a crise financeira e económica global que teve de enfrentar no último ano.

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Luís Aguiar-Conraria 10:52 am

Os cientistas sociais estão habituados a explicar por que motivo erraram nas suas previsões. Quando, antes do Verão de 2008, eu e o Pedro Magalhães nos propusemos a prever os resultados das eleições legislativas de 2009, estávamos, naturalmente, preparados para que tal viesse novamente a acontecer. Esse trabalho, publicado na Ipris Verbis, teve destaque de primeira página no semanário Sol.

Uns tempos depois de escrito e publicado, as condições que nos permitiram fazer as previsões alteraram-se com a crise financeira internacional. As nossas previsões baseavam-se em dados do pós 25 de Abril e nos nossos dados nada havia de comparável a esta crise. Estávamos preparados para justificar eventuais erros nas nossas previsões com base nisso. A crise financeira internacional, que atirou o mundo para uma recessão apenas comparável à dos anos 30 do século passado, tornou estas eleições num perfeito outlier. Qualquer tiro na água seria facilmente explicado.

Mas a realidade trocou-nos as voltas. A nossa previsão resumia-se a dois números: 38% para o PS e 27% para o PSD. Valores notavelmente próximos do resultado final. Assim, em vez de explicarmos por que motivo falharam as nossas previsões, vemo-nos na peculiar contingência de ter de explicar por que motivo acertámos, apesar da radical mudança de cenário.

É um assunto que iremos explorar em trabalhos futuros, mas, à primeira vista, há duas hipóteses óbvias. A primeira hipótese, e como não podia deixar de ser, é a de que o nosso modelo de muito pouco vale e se acertámos quase em cheio tal aconteceu por mero acaso. Ou seja, a sorte explica o sucesso da previsão. Uma segunda hipótese é mais simpática. Com a crise internacional, os eleitores ficaram com dificuldades em responsabilizar os governos pelas más performances da Economia que ocorreram no último ano. Assim, quando chamados a votar, fizeram a avaliação do governo com base nos dados que havia disponíveis antes da crise. Se esta segunda hipótese estiver correcta, então não é de admirar que o nosso modelo se tenha portado tão bem, dado que usámos os dados económicos que estavam disponíveis até pouco antes da crise internacional se alastrar para Portugal.

Neste momento, e com honestidade intelectual, teremos de reconhecer que não sabemos qual das duas hipóteses estará correcta. Quando estudarmos a questão, e como acontece tantas vezes, é até provável que surja uma terceira explicação que de momento não descortinamos.

Publicado em paralelo nas Margens de Erro.

Luís Aguiar-ConrariaSeptember 24, 2009 2:57 pm

Muito se tem falado sobre como a crise internacional tem atingido Portugal. Muitos argumentam que Portugal tem resistido bem à crise. Dizem que que a taxa de crescimento do PIB real, cerca de 3,7% negativos, não foi tão grave como noutros países, como por exemplo a Irlanda, que terá uma queda de 9%.

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Fernando AlexandreSeptember 21, 2009 10:01 am

A ‘asfixia democrática’ é um dos temas fortes do PSD nesta campanha eleitoral. Os defensores da tese das dificuldades de respiração na sociedade portuguesa têm apontado a comunicação social (de facto, só a falta de oxigénio poderá ajudar a explicar o delírio que invadiu as páginas dos dois principais jornais diários nos últimos tempos) e o sector público (por exemplo, na educação e na saúde) como as zonas do país com o ar mais rarefeito. O diagnóstico parece-me acertado. No entanto, como referiu Henrique Raposo na sua crónica do Expresso, as causas da asfixia e das necessárias medidas de ventilação não têm sido devidamente discutidas.

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