A destreza das dúvidas

Letras económicas
Cristóvão de AguiarAugust 30, 2010 10:39 am

Nesse percurso penitencial vou atravessando várias idades. Com os inimigos jurados ainda não consigo acamaradar, mas já não lhes tenho aquele ódio antigo, exaltado, que me corroía as vísceras e as punha em lume vivo ─ qualquer dia, numa dessas surtidas, ainda nos abraçamos ─ a idade e a vida chegaram àquela encruzilhada serena e tranquila para onde a gente se vai acolhendo e em que já não há escolha de qual caminho seguir…

Luís Aguiar-ConrariaAugust 28, 2010 12:47 pm

Luís Aguiar-ConrariaAugust 24, 2010 6:13 pm

Cristóvão de AguiarAugust 23, 2010 12:10 pm

Já havia saudado alguns dos meus fantasmas. Mal acordo, seguem-me em sombras para todo o lado e bastas vezes até me visitam em sonhos que não raro se transfiguram em transpirados pesadelos. Todas as manhãs, como quem recita a primeira oração de acção de graças por mais um dia de vida, faço uma revisão geral de toda a matéria constante do catecismo. Sei-a já de cor e salteado, mas continuo a ruminá-la como se me fosse apresentada de novo por um mestre invisível. Primeiro, percorro as ruas, os caminhos e as canadas da freguesia da Ilha, por onde andei descalço e dei topadas; paro em casa de meus avós para lhes pedir a bênção; converso no Largo do Coreto com os meus amigos e vizinhos, quase todos já mortos e enterrados ou ausentes para parte incerta deste mundo; procuro passar, sem que meu Pai me veja, pelas ruas onde moram as namoradas e com quem irei derriçar daqui a não sei quantas páginas…

Luís Aguiar-ConrariaAugust 20, 2010 8:46 pm

LEGALMENTE OBRIGADAS PELA CMP A MULTAS E OBRAS DE MILHARES DE EUROS, RECEBENDO RENDAS BAIXÍSSIMAS VOLTAMOS A QUERER DAR AS CASAS SITAS NO PORTO, NA R. DA CORTICEIRA, N.º 57 A 73
1.º AOS SRS. INQUILINOS
2.º À CMP / SRU / JUNTA, ETC.
3.º A INSTITUIÇÕES
4.º A QUEM AS PRETENDER
CONTACTAR MAIL: manuel.veludo.2258@adv.oa.pt
                             Tele/Fax 22 332 5354

Isto não é ficção. É a cópia fiel de um anúncio publicado no Jornal de Notícias a 15 de Agosto de 2010. Pode ser que alguma das pessoas que tanto defendem a Lei do Arrendamento esteja interessada em alguma destas casas.

Luís Aguiar-ConrariaAugust 19, 2010 9:50 am

Um retrato da classe média norte-americana, que vale muito a pena ler. Felizmente que não é em Portugal. Como sabemos, se o fosse, incluiria uma foto da empregada doméstica.

Via Klepsýdra.

Luís Aguiar-ConrariaAugust 17, 2010 2:54 pm

Já se sabe quem é o árbitro do Portugal-Chipre, jogo que decorrerá dentro de 2 semanas. O árbitro será o inglês Mark Clattenburg. Está tudo pronto para o jogo. Já só falta saber qual o treinador de Portugal.

Cristóvão de AguiarAugust 16, 2010 9:02 pm

Por um acto de vontade, transferi-me inteiro para cada gesto que ia prati­cando: escovar os dentes, tomar um duche meio frio para ajudar à revitalização, enxugar-me com a energia de um atleta, vestir-me, calçar-me, fazer a cama, mastigar muito deva­garinho o pequeno-almoço, sem esque­cer, e após lastrado o estômago, os comprimidos para isto, aquilo e aqueloutro, de cores variadas consoante a maleita a que se desti­navam! Ainda estou por saber como dão conta do itine­rário e do recado! Certa psicologia singela assegura que esse esforço de a gente se debruçar na sua inteireza sobre cada parte de si ajuda a afu­gentar os miasmas do espírito, tor­nando-o mais pro­pício para o êxtase… Já não pediria tanto, tão-somente o voo para paz!

Cristóvão de AguiarAugust 2, 2010 2:14 pm

O mau humor do tempo ainda não desamparou a loja. Para cúmulo, o vulcão da Islândia rebentou, e os aviões ficaram em terra. Numa Ilha, isto dá uma sensação claustrofóbica. E  medo de algum vulcão adormecido, e ele há tantos nas Ilhas, querer imitar o seu camarada de ofício! A solidão aperta mais o laço! É como estar num  quarto porque se quer ou estar nele por obrigação. Sair, só navegando, e os barcos são muito escassos e não apontam a quilha ao Continente. Acabou a marinha mercante. Não há alternativa ao jacto. Um dia ainda nos quilhamos… Nevoeiro, chuva, vento, frio! Andam  todos mancomunados para me codilhar, como na canção do Rui Veloso. Os ilhéus são sensíveis aos flui­dos atmosfé­ri­cos, e penam muito. Apetecia-me fugir para onde me não fizesse com­panhia. Mas como se ainda não há aviões, e o céu das Ilhas continua interdito…

Luís Aguiar-ConrariaJuly 27, 2010 11:46 pm

Há uns meses, o parlamento aprovou uma resolução, proposta pelo Bloco de Esquerda, que pretendia impedir que homossexuais (homens) fossem discriminados no momento de doar sangue. Pelos vistos o Ministério da Saúde não vai pôr em prática a resolução votada no parlamento.

Independentemente de quem tem razão a razão médica do seu lado, e eu não sei quem a tem, fico contente por saber que uma resolução do parlamento sobre este assunto não tem qualquer efeito prático. Este é um assunto puramente técnico (médico) e assim deve permanecer. O combate político e ideológico não pode ter voto na matéria nestes assuntos.

Cristóvão de AguiarJuly 26, 2010 11:22 am

Não se sabe como, que a operação era feita em grande sigilo e sob todas as caute­las, mas as tias Marias souberam que em nossa casa havia, ao serão, ses­sões de lei­tura da Bíblia. Um dia em que meu Pai estava no quintal a tratar dos coelhos, a mais nova assomou ao muro e disse: “Senhor mestre, soubemos que em sua casa se lê a Bíblia dos protes­tantes; venho avisá-lo de que não queremos que a nossa luz sirva para cometer um pecado mortal dessa natureza; o senhor padre disse que tam­bém nós incor­ríamos nesse pecado; ou o senhor mestre deixa de ler esse livro do diabo ou teremos de lhe cortar a luz eléctrica; pense bem e depois diga-nos qual­quer coisa…” Não foi pre­ciso pensar. Meu Pai res­pondeu-lhe que esperasse. Ia ele mesmo arrancar os fios. Pouco depois entre­gou-lhos perante o espanto da tia Maria mais nova, que ainda titu­beou que não era preciso… "Dai-nos, Senhor, bons e santos sacerdotes."

Cristóvão de AguiarJuly 20, 2010 1:12 pm

Apesar de ter ideias avançadas, meu Avô paterno só viria a insta­lar muito tarde a luz eléctrica, poucos anos antes de morrer, quando a Federação dos Municípios estimulou a electrificação das casas por toda a Ilha e a troca das instala­ções velhas por outras devida­mente seguras e bem isoladas. Vivera na América cerca de vinte anos, mas usava can­deeiro de petróleo – uma contradição. Comia sandes de tomate, alface e pepino. A freguesia arrepiava-se: "Deus me perdoe, mas aquele homem, além de hereje, é um animal, pelo menos come ervas como eles…" Sempre o conheci assim. Uma carta fora do baralho! Trou­xera da santa terra da América lâmpadas eléctricas muito dife­rentes das que na altura se usa­vam cá. Guardara-as de sua mão durante mais de quarenta anos. E o certo é que funcionaram quando a luz foi instalada. Possuíam, no exte­rior, na parte oposta ao bocal, uma espécie de espigão de vidro. A forma do bolbo era também des­coincidente.  A condizer com o seu temperamento, avesso a maiorias de qualquer espécie.

Cristóvão de AguiarJuly 17, 2010 11:58 pm

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Cristóvão de AguiarJuly 13, 2010 3:33 pm

Nesse tempo não era permitido instalar luz eléctrica. A maio­ria das casas já a tinha desde princípios dos anos trinta, mas, durante a guerra e o pós-guerra, não se podia mandar vir geradores mais potentes. E assim perma­neceu até muito depois de a guerra aca­bar. Os que a tinham podiam dar-se por felizes. Os que queriam instalá-la, que se amanhassem com candeeiros de petróleo. Meu Pai lem­brou-se então de pedir às tias Marias que autorizassem um furo na parede da nossa cozinha, comum com a sala de corte e costura. Tencionava ligar um fio com um bocal-ladrão. Desta forma, poderíamos usufruir da luz eléctrica. Comprou um fio grande revestido de borracha preta, e assim se fez. Rachava-se a despesa ao meio e ficá­mos todos quites e satisfeitos.

Cristóvão de AguiarJuly 5, 2010 2:03 pm

Pegada à nossa, do lado Poente, a casa de tias Marias, irmãs sol­tei­ronas de minha Avó materna. Meu Pai chamava à casa o Vaticano. Se vissem agora o Papa em Portugal, dava-lhes um fanico de fé.. Muito religiosas e gran­des costureiras, sobretudo a mais velha, diplo­mada em corte e costura, mantinham uma escola onde mui­tas rapari­gas da fregue­sia aprenderam a arte como prenda para o casa­mento. A meio da tarde, rezava-se o terço em comum. A recita­ção ouvia-se do quintal da nossa casa. Um muro de pedra solta divi­dia os dois quin­tais. Nessas tardes de lição, nenhum homem podia lá entrar, por causa da moral e dos bons costumes. Na minha adolescência tinha uma namo­rada que era lá aluna. Um dia fiz-me desper­cebido e bati-lhes à porta. Nem entrei. Que viesse mais tarde, depois de as meninas acabarem a lição. Na altura em que vieram os pro­testantes, meu Pai começou a ler a Bíblia, à noite, depois da ceia. Com muito cui­dado para que a blasfémia não transpirasse para o soalheiro da fre­guesia. Tinha medo de perder fregueses na oficina, e nesses anos, logo após a Segunda Guerra Mundial a vida era difícil e o trabalho escasso. Meu Pai sempre foi um homem medroso e deixou-me essa doença em herança.

Cristóvão de AguiarJune 30, 2010 11:49 am

Relembrar. A ver se me acerto comigo. A casa em frente da nossa, na Rua das Oliveiras, pertencia a meu Avô paterno. Tinha uma entrada ao lado esquerdo e um passeio largo, em declive, ao longo da frontaria. Fora por ele mandada cons­truir a meio da segunda década do século XX. Dife­rente das casas da freguesia. O risco por que fora feita, trouxe-o meu Avô da América, quando de lá veio de vez. Apo­quentou-se durante a constru­ção. Os mestres antigos não estavam habituados a modernices e sempre que podiam opunham-se às orientações dadas. Opuseram-se durante pouco tempo. Meu Avô não ia em cantigas e um dia chamou o mestre da obra a capítulo. Fez-se a cave como estava pla­neado, desvia­ram-se os currais dos porcos, o galinheiro e a cocheira para o fim do quintal, longe da cozinha. Depois de acabada, já toda a gente gostava do chalé. As paredes caia­das de ama­relo, a porta, a can­cela e as persianas pintadas de azul-cobalto. Minha Mãe costu­mava dizer: “Se eu tivesse uma casa como aquela, nunca mais sofria de doen­ças nervo­sas…”

Luís Aguiar-ConrariaJune 27, 2010 2:38 pm


Cristóvão de AguiarJune 26, 2010 6:26 pm

Toda a razão para António Costa, Presidente da Câmara de Lisboa

Na edição de hoje, Sábado, 26 de Junho, do Diário de Notícias, pode ler-se, na página 14, em título: “Deslize na homenagem a Saramago”… O jornalista responsável por “A Vespa” com certeza não tem o seu Português bem oleado, o que não surpreende, tan­tos e variados são os pontapés na gramática que todos os jornais costumam dar, dia­riamente, na já mui maltratada Língua Portuguesa. Escreve o jornalista da pena longa:

A cerimónia que homenageou José Saramago tornou-se polémica pela ausência do Presidente da República, que foi tomada como um erro (não gramatical, mas de falta de bom senso). Mas, se neste caso, dificilmente o Prémio Nobel se incomodaria com a ausência, houve outro caso que dificilmente escaparia à afiada língua do escritor. Um deles foi de António Costa. O autarca até tratou bem dos assuntos protocolares: cedeu os Paços do Concelho, recebeu os familiares e deixou algumas palavras sentidas, mos­trando apreço pela herança viva que deixou ao País. Mas foi na herança que saiu o pontapé no dicionário, quando disse que Saramago “desinquietava” o País. Ora, se “desinquietava”, seguramente não “inquietava”. Certo? Ai, o português!

É caso para gritar: “Ai, senhor jornalista, que falta de vocabulário tem no seu thesau­rus!” Não foi primeiro ao dicionário, como devia, e como tal saiu-lhe crassa asneira da ponta de tecla. Desinquietar, em qualquer tira-teimas da Língua Portuguesa, significa inquietar, desassossegar. E foi na acepção de desassossegar que António Costa empregou o verbo. Não conhece o douto jornalista o adjectivo de origem popular desinfeliz? Não deve conhecer. É citadino, plastificado, e não deve gostar dessas pata­coadas da Província, como se costuma dizer, com ar escarninho, na cidade de Lisboa, a mais provinciana do País. Aquele des, colocado antes do verbo e do adjectivo serve tão-só para reforçar a negativa. Se o senhor jornalista tiver uns gramas de honestidade intelectual, deve, no próximo número do jornal, corrigir a calinada de português que cometeu. Para cúmulo, numa vã tentativa de corrigir o Presidente da Câmara Munici­pal de Lisboa, o que significa que praticou duas asneiras seguidas num pequeno texto! Pre­sumo que seja licenciado em Comunicação Social, caso contrário…

Cristóvão de AguiarJune 24, 2010 10:17 am

Foi-se o Sol e veio a chuva e um vento forte e fresco. Águas grossas. Nem a Ilha em frente se enxerga. Aqui diz-se que são os ratos roendo o queijo de São Jorge. O mar, porém, continua prateado e chão. Vejo-o daqui da janela. Não deve demorar-se muito. A chuva. Entisica os ner­vos já de si fragiliza­dos e em franja. Leio mas pouco assimilo. Disper­são total. Não percebo o que vou lendo. A mente rodopiando por Ceca e Meca. Mudo de livro como quem muda de camisa, numa tentativa de ler tudo o que me falta. Vou experi­mentar um de estudo. Dizem que faz bem ao ego reler os livros por que se estudou em outra idade. Tenho alguns comigo, até da ins­trução primá­ria. Hei-de reler a História de Portugal, de Tomás de Bar­ros, para me entir sábio… Tenho na cabeça uma pedra vulcânica. Não terá sido sem­pre assim? O tempo  não pára quieto e anda às aves­sas, como me disse uma vizinha, “Anda o mundo ápsaide­daune…” Foi emigrante e gosta de exibir os seus conhecimentos linguísticos, iu não? Tem um binóculo em cima do peitoril da janela para vigiar os bar­cos que nave­gam no Canal. Sobre­tudo as pessoas nos seus quintais ou que se apro­ximam ao longo da estrada. Este costume vem do tempo da baleação. Logo que se divisava baleia no mar, estalejava um foguete e pas­sava-se pala­vra para que os baleeiros, em suas terras de cultivo, acorressem aos bar­cos varados no ancoradoiro. Como em 1986 acabou a caça à baleia o binó­culo serve apenas para vigiar o semelhante. Um destes dias, queixava-se a vizinha defronte: “ O meu filho não deve andar por bons caminhos; esta noite che­gou-me a casa à meia-noite!” E a outra: “À meia-noite, não; à meia-noite e dez…”

Luís Aguiar-ConrariaJune 20, 2010 6:44 pm

Cavaco, nas palavras de Saramago:
Provavelmente não estarei em qualquer evento oficial com ele. Não se esqueça de que Cavaco Silva era primeiro-ministro do Governo que censurou O Evangelho segundo Jesus Cristo e que Cavaco Silva não tem ideia nenhuma do que é a literatura ou a arte. Não sabe nada disso. Também me dirão que para estar à frente de um país não é preciso. Mas tinham-nos habituado à ideia contrária.
Entrevista de José Saramago, a pretexto do candidato presidencial Cavaco Silva.

Luís Aguiar-Conraria 5:29 pm


Luís Aguiar-Conraria 11:13 am

Vejo os jornalistas escandalizados com a ausência de Cavaco Silva no funeral de Saramago. Uma tempestade num copo de água sem sentido. Se se perguntasse a Saramago se gostaria de ter Cavaco no seu funeral a resposta seria peremptória. Ao não ir, Cavaco limita-se a respeitar o que seria o desejo de Saramago.

Com a excepção de Vasco Graça Moura, não imagino nenhum grande escritor a sentir-se honrado com a presença de Cavaco no seu funeral.

Cristóvão de AguiarJune 16, 2010 9:59 pm

Só se emprega este verbo no plural sempre que signifique ter e seja conjugado em tempos compostos: eles tinham feito grandes progressos na Língua Inglesa ou haviam feito grandes progressos no Inglês, etc. Nunca se deve empregar no plural quando significa existir: Havia uma pessoa na loja da esquina; havia duas, três pessoas na loja da esquina (e não haviam). Houve um espectáculo ontem à noite no Avenida; houve muitos espectáculos em toda a cidade devido às Festas dos Santos Populares (e não houveram); o mesmo com o futuro e o condicional haverá, haveria.(e não haverão ou haveriam, a não ser em tempos compostos em que o verbo haver seja sinónimo de ter.  Mas, é evidente que se ouve e se vê escrito o verbo haver no plural. Cada vez mais. Anda a nossa Pátria sendo lentamente assassinada todos os dias por políticos bem-falantes e bem-pensantes e por outros doutores da mula-ruça, como diria Aquilino. Há, porém, muitas excepções, que confirmam a regra. Só receio que um destes dias elas suplantem a regra em quantidade (o que não é de menosprezar), e fique, depois, a supina asneira legalizada nas gramáticas e nos dicionários, como o já foram muitas (basta consultar o Dicionário da Academia das Ciências!). Reparem na fluência e correcção com que fala o Prof. Adriano Moreira; o Dr. Mário Soares; o Poeta Manuel Alegre; o ex-Primeiro-Ministro António Guterres, para só citar alguns, porquanto muitos outros existem () que sabem exprimir-se com correcção, mas que seria fastidioso enumerar…  Quando acontece ser  o verbo haver conjugado na perifrástica, encena-se uma tragédia linguística em cinco actos e um epílogo. Exemplificando: vão haver em vez de vai haver; continuam a haver em vez de continua a haver… Nesta armadilha vão caindo na esparrela quase todos. Como canários incautos. Até o insuspeito intelectual e mentor político de Ferreira Leite, e de certo sector do seu partido, tropeça na casca de banana que o verbo, manhoso, estende à laia de tapete vermelho, ao longo da frase pronunciada ou escrita, e nela se estatela ao comprido. Escreveu há dias o eloquente membro da Quadratura do Círculo (ou do Circo?): "Mas há mais: e já que se fala de clientelismo e de partidarização do estado, por que razão é que continuam a haver  (sublinhado meu) governos civis?" Ah, grande Pacheco, será que a gramática política se encontra no mesmo estado miserável da que se aprende ou devia aprender na escola?

Luís Aguiar-Conraria 10:58 am

Leitura altamente recomendada a Carlos Queirós: "North Korean Tactics".

Luís Aguiar-Conraria 10:55 am

Aqui na Universidade, plantaram um ecrã gigante no pavilhão desportivo para que a comunidade académica se pudesse juntar em êxtase colectivo à volta da selecção. Êxtase, só com o remate de Cristiano e com a reacção de Drogba. Depois desse momento…, com duas equipas a jogar para o empate, dificilmente se animam os ânimos.

Mas não é sobre o jogo que quero escrever. A meio da primeira parte, o meu telefone começa a tocar. Quem é que seria suficientemente desligado para me ligar nesse momento? Atendo, é uma jornalista de um conhecido jornal económico, que, ocasionalmente, me telefona a pedir comentários sobre assuntos da actualidade macroeconómica. Respondi-lhe, xxx, por favor, falamos depois. Professor desculpe, não queria incomodar, mas tenho mesmo de falar consigo, já telefonei a imensos economistas e nenhum atende o telefone. xxx, quer falar da situação espanhola? Depois do jogo, por favor, durante estes 90 minutos não me consigo imaginar falar de Espanha.

Mais tarde, depois do soporífico jogo, falei com xxx. Disse-me ela que não tinha conseguido falar com nenhum economista para comentar o assunto. Repito, com nenhum economista. Apenas conseguiu falar com uma economista. Coincidência ou não, apenas uma mulher se tinha mostrado disponível para falar sobre o assunto durante o jogo.

Ontem, o Jornal de Negócios fazia capa com um estudo que concluía que a economia portuguesa é a que mais perde durante os jogos da selecção. Quase que aposto que esse estudo não teve em conta as altas taxas de participação laboral feminina em Portugal. Se tivesse tido isso em conta, com certeza que teria concluído o oposto.

PS Não sei se terá sido coincidência ou não. Mas vale a pena sublinhar. Quem me telefonou porque tinha um artigo de jornal para escrever foi uma jornalista e não um jornalista.