A destreza das dúvidas

Letras económicas
Blogue de Luís Aguiar-Conraria, de Daniela Kato e de Fernando Alexandre
Daniela KatoMay 9, 2008 9:19 am

Thomas Feiner & Anywhen, The Opiates - Revised


Vocalist and mastermind of the group, Thomas Feiner, says the album is "about growing up and getting older. It’s about life’s bitter-sweet discoveries, uncertainties and the feeling that you no longer have things in control. At the other end of the emotional spectrum, however, ‘The Opiates’ is about finding consolation and solace. The album title refers to the experiences in life that pull us down, whether they’re imagined needs, responsibilities, or rewards." (source)

 

"The Siren Songs"

On the last day of summer the sun shines bright
And we’re walking through the woods
What if love is the greatest damn liar of all
Would you trust me with your life?

On the last day of summer the clouds are white
And I’m sitting by the lake
And she’s singing my name, she’s beckoning me
If I just lose myself for now
For one day

I want to drown in her precious arms
I want to listen to the siren songs
She got me down into the water
And she got me holding on

And she’s floating oh so peacefully
As I’m watching from below
In the bluest water I ever saw
The palest body to be striped
By the sun

I want to drown in her precious arms
I want to listen to the siren songs
She got me down into the water
And she got me holding on

So let me drown in those precious arms
With all my untouchabilities washed away
Let me for once be lost for reason
Let me be lost
For words

Daniela KatoMay 6, 2008 10:49 am

Ainda a propósito dos bakemono e do modo como estes corporizam o difícil relacionamento do Japão com a modernidade ocidental, lembrei-me de um celebrado ensaio de Junichirô Tanizaki (1886-1965), Elogio da Sombra / In’ei Raisan (1). Publicado pela primeira vez entre 1933 e 1934, o livro discute a estética japonesa tradicional nas suas várias dimensões – da arquitectura à culinária, passando pelos ideais de beleza e, é claro, pelos fantasmas -, contrastando-a com a estética ocidental. Para Tanizaki, a cultura japonesa difere da ocidental pela relação distinta que estabelece com a luz e a sombra: enquanto o Ocidente, apostado desde cedo no progresso, busca incessantemente a luz, a clareza, a assertividade, a sensibilidade japonesa deleita-se no jogo subtil das sombras, na ambiguidade, no understatement. As sombras surgem em Tanizaki como o símbolo último de uma autenticidade japonesa em vias de desaparecimento, localizada algures entre um Ocidente (excessivamente) iluminado e um Oriente mergulhado nas trevas.

Elogio da Sombra constitui um exemplo interessante de nihonjinron (nihonjin = japonês/japoneses; ron = discurso, teoria), uma constelação de discursos em torno da identidade japonesa que, de forma etnocêntrica, essencialista e a-histórica, enfatiza o carácter único, excepcional, homogéneo e «misterioso» da mentalidade e cultura nacionais, assentando em binarismos simples como dentro/fora, Japão/Ocidente, tradicional/moderno. Todavia, o pessimismo que atravessa o ensaio de Tanizaki (como, de resto, os seus romances) faz dele um escritor pouco ortodoxo. Ele não alimenta ilusões quanto à sobrevivência de uma sensibilidade gerada por modos de vida e condições materiais que de modo inelutável foram desaparecendo.

Tanizaki não é, pois, facilmente alinhável com o establishment artístico e os seus produtos, que têm moldado a imagética oficial do Japão para consumo externo: a cerimónia do chá, os arranjos florais (ikebana), a caligrafia, a dança. Porque para Tanizaki «o belo não é uma substância em si, mas um mero desenho de sombras», o que verdadeiramente desperta a nostalgia do escritor é não tanto o desaparecimento físico de certas práticas e objectos – os trajes do teatro Nô, as estátuas religiosas cobertas de ouro, as casas de banho revestidas a madeira, a louça lacada, os metais decorativos – como a remoção destes da sua fonte vital de beleza, na penumbra de um teatro, de um templo ou de uma habitação japonesa tenuemente iluminados, e a sua conversão em peças de museu inertes, porque expostas a um excesso de luz.

Em comparação com Lafcadio Hearn, Tanizaki parece possuir uma consciência mais aguda da impossibilidade de recuperar para o quotidiano toda uma arte e todo um modo de vida cujas condições de existência foram definitivamente abaladas pela importação de ideias, instituições, tecnologia e, sobretudo, noções de progresso ocidentais. Ambos convergem, porém, na identificação do único lugar onde as sombras e fantasmas de uma cultura agonizante podem ainda sobreviver, de algum modo, e ser salvas da inevitabilidade do esquecimento: a literatura. E é justamente assim que termina o Elogio da Sombra:

Por muito que nos queixemos, o Japão escolheu seguir o Ocidente e nada mais lhe resta se não seguir corajosamente em frente e deixar para trás os velhos como nós. (…) Escrevi tudo isto porque julgo haver ainda um lugar, possivelmente na literatura ou na arte, onde algo pode ser salvo. Convocaria então pelo menos para a literatura este mundo de sombras que estamos à beira de perder. Na mansão chamada literatura, pediria beirais fundos e paredes escuras, e devolveria assim às sombras todas aquelas coisas que avançaram com demasiada precipitação, libertando-as de todo o ornamento supérfluo. Não tenho a veleidade de pedir que isto seja feito em todo o lado, mas talvez nos seja autorizada pelo menos uma mansão onde possamos apagar as luzes eléctricas para ver como se vive sem estas. (2)

Notas:
(1) O ensaio de Tanizaki foi traduzido para português em 1999, numa edição da Relógio D’Água. Na altura Rui Magalhães escreveu um texto sobre o livro no Ciberkiosk, disponível aqui. Mais recentemente, João Barrento regressou ao tema no seu blogue, Escrito a Lápis. Dois belíssimos textos que vale a pena ler.
(2) Tradução minha (não tenho neste momento acesso à tradução portuguesa e desconheço se ainda está disponível no mercado).

*Foto de Daniela Kato. Iizuna, Nagano.

Luís Aguiar-ConrariaMay 4, 2008 12:55 pm

José Pacheco Pereira, Público 3 de Maio

(…) Eu, que sou portuense, sabia que poucas coisas se abatem mais rapidamente do que as grandes fábricas. No Porto, tudo o que era amplo espaço urbanizável nas décadas de setenta e oitenta estava no lugar vazio de uma grande fábrica, quase sempre têxtil, e as novas urbanizações para a classe média alta tinham o nome das fábricas como a William Graham na Avenida da Boavista. Desaparecidas as fábricas têxteis de Salgueiros, da Torrinha, das Sedas, para além das fábricas de fósforos e de cerveja, a cidade substituía as imensas construções fabris por apartamentos. Num artigo do Expresso, um dos primeiros escritos em Portugal sobre a salvaguarda do património industrial, ainda tentei que se preservasse alguma coisa da Fábrica de Salgueiros, um exemplar típico da arquitectura industrial então em ruínas, mas o efeito do artigo foi que o que sobrava foi deitado abaixo logo a seguir, não fosse haver alguém que se lembrasse de prestar a atenção à nova (por cá) concepção de arqueologia industrial e dificultasse o caminho aos bulldozers.

Esta semana, com o despedimento de centenas de trabalhadores da Yasaki Saltano de Gaia, recordei-me de outra grande fábrica desaparecida, a Clark"s de Castelo de Paiva, uma daquelas onde estive "à saída da fábrica". Por muito boa vontade que se tivesse em fazer política, distribuir uns papéis, falar com pessoas, na "saída das fábricas", a Clark"s era um sítio péssimo para o fazer. A saída era espectacular, mas muito, muito, rápida. Nos breves momentos que durava, um mar de raparigas, mulheres jovens e na meia-idade, o maior número de gaspeadeiras que alguma vez vi na vida, saía como um mola das portas interiores e corria, literalmente corria, para os portões e desaparecia pelas ruas e caminhos, em motocicletas, algumas em carros. Dez minutos depois, não havia ninguém e os papéis dados à pressa no meio daquelas almas fugidias desapareciam com elas tão depressa como a noite se punha.

A corrida tinha uma razão de ser, iam para casa o mais cedo possível cuidar dos filhos e do marido, cuidar da casa, não tinham tempo a perder com políticas. Como na Yasaki Saltano, a maioria dos trabalhadores são trabalhadoras, mulheres, muitas bastante jovens, muitas com poucas qualificações e que abandonaram a escola antes do tempo, a face visível do "insucesso" e do "abandono escolar", para irem trabalhar e constituir família numa idade em que os mais abastados ainda se arrastam pelo 12.º ano ou pelos primeiros anos da universidade e vivem em casa dos pais. A atracção do emprego e da família, da "sua" família, marido e filhos, não é apenas motivada pela necessidade económica, mas sim pela procura de autonomia, de uma vida própria na teia demasiado densa das famílias ainda próximas da ruralidade. Castelo de Paiva não é propriamente o centro do mundo urbano e Gaia ainda tem muitas aldeias.

O desemprego é devastador para todos, mas é-o mais para estas mulheres jovens e de meia-idade. Não é apenas a sua condição económica, a sua condição de vida que é afectada, é também a sua autonomia como mulheres, a sua capacidade de terem no salário e no emprego uma vida e uma dignidade próprias como mulheres, num mundo em que esta afirmação ainda é crucial. Recebida a notificação do desemprego, passado o período da agitação, as notícias e contranotícias de que pode haver um plano de integração na fábrica ao lado, ou a cinquenta quilómetros dali, que pode haver um supermercado que as aceite prioritariamente, que a câmara vai cuidar delas, que os sindicatos vão obter uma melhor indemnização, etc., etc., chega uma altura em que acabou. Acabou mesmo, está desempregada.

Nesse momento, em que o dinheiro que se levava para casa começa a faltar, a mulher começa a fazer contas e a cortar nas despesas. E não corta no pão, no infantário, na luz, na casa, no telemóvel - há-de vir a cortar - corta nas suas despesas, nas despesas consigo. Vai menos vezes ao cabeleireiro, arranja-se menos, compra menos roupa, tudo coisas que parecem fúteis para quem tem tudo, mas que representam um caminho para uma menor auto-estima, um desleixo que pode vir a crescer com os anos, se passar definitivamente de operária a dona de casa. É um caminho invisível, um passo atrás em que ninguém repara a não ser as próprias.

Elas sabem o que é não ter emprego, ou ter que mudar para outro emprego menos qualificado, mais solitário, mais dependente, socialmente menos reconhecido. Elas sabem que podem fazer menos coisas sozinhas, com o seu dinheiro, sem prestar contas a ninguém. Elas sabem o que significa ficar mais dependente do marido ou dos pais, ter menos esperança para os filhos, desistir de coisas que achava até então possíveis (…)

Daniela KatoApril 30, 2008 9:15 am

Há uns dias perguntava-me se haveria entre os leitores da Destreza alguém que ainda se recordasse destes velhos contos japoneses, Manga Nippon Mukashi-banashi, que passavam na televisão portuguesa em inícios da década de oitenta. Apareceram algumas respostas, mas ninguém referiu, hélas, qualquer memória mais marcante evocada por essas histórias. Pois eu tenho várias, que nos últimos tempos venho reavivando através dos vídeos que um ou outro nostálgico coloca regularmente no YouTube.

Quando me perguntam de onde vem o meu interesse pela(s) cultura(s) do Japão, lembro-me sempre das paisagens sobrenaturais das mukashi-banashi, povoadas de fantasmas, deuses, demónios, espíritos e animais com estranhos poderes mágicos como a raposa (kitsune), a garça (tsuru), o gato (bake-neko), ou o divertido cão-guaxinim (tanuki). Estas histórias de bakemono (ou obake) – a expressão japonesa usada para referir genericamente entes sobrenaturais dotados de poderes de metamorfose – foram o meu primeiro contacto com o Japão e, como acontece com tantos primeiros encontros, deixaram em mim uma impressão indelével, que mais tarde procuraria aprofundar através de leituras, filmes, viagens.

Cedo descobri que não estava só neste fascínio pelos bakemono e pela sua relação simbólica com um Japão antiquíssimo, rural e, sobretudo, fantasmagórico, porque em vias de extinção. Na realidade, este «tale of the vanishing Japan», como lhe chama Roger Pulvers, tem dominado as percepções da nação pelo menos desde há um século. Lafcadio Hearn (1850-1904), o escritor greco-irlandês que viveu no Japão entre finais do séc. XIX e inícios do XX, constitui um dos exemplos mais emblemáticos da pulsão utópica (ou talvez hetero-tópica, se a entendermos como desejo de um lugar outro) que levou tantos ocidentais a rejeitarem os valores da sua civilização, identificada com a modernidade capitalista e com um concomitante sentido de perda e nostalgia, para se agarrarem a aspectos da cultura japonesa que encaram como tradicionais e pré-modernos, mas que, ironicamente, grande parte dos japoneses já abandonou ou a que só de forma muito superficial adere hoje em dia. Hearn, que viria a adoptar a nacionalidade japonesa e o nome Yakumo Koizumi, continua significativamente a ser mais conhecido no Japão do que no Ocidente, sendo considerado por muitos japoneses como o supremo intérprete ocidental da cultura nacional. A cultura é, sem dúvida, uma galeria de espelhos, onde cada um busca no outro - e procura dar de si - a imagem que mais lhe convém, num jogo infinito de reflexos.

A verdade é que, como vários estudos mais ou menos recentes têm vindo a demonstrar (cf. Nota 1), as dinâmicas do fantasmagórico e do monstruoso configuram todo o complexo processo de recepção da modernidade no Japão, ora colidindo com esta modernidade, ora confirmando-a. E dizendo os bakemono respeito a tudo aquilo que está em mutação e ameaça as certezas tranquilizadoras do quotidiano e as estruturas que impomos à realidade, não surpreende, pois, que estas fantasmagorias continuem a de-formar as percepções internas e externas do Japão.

Os obake das mukashi-banashi, símbolo de uma cultura japonesa rural, marginal e perdida no tempo, constituirão hoje pouco mais do que uma vaga reminiscência ou uma mera curiosidade para alguns nostálgicos. E talvez assim seja porque esses bakemono já há muito se metamorfosearam e integraram, como mercadorias, numa sofisticada cultura urbana de consumo exacerbado e pouco dada à nostalgia – ou melhor, numa cultura que encara a nostalgia como mero tique de estilo «retro». Mas se os obake perderam a dimensão nostálgica de outras épocas, eles continuarão a povoar os imaginários nipónico e ocidental, na manga e na anime, de Godzilla/Gojira a Ghost in the Shell – e a assombrar um Japão que só muito dificilmente se libertará um dia dos seus fantasmas e monstros.

Notas: 
1. Para os interessados em aprofundar o tema, deixo algumas sugestões de leitura:
    - Gerald Figal, Civilization and Monsters: Spirits of Modernity in Meiji Japan (Durham: Durham UP, 1999).
    - Marilyn Ivy, Discourses of the Vanishing: Modernity, Phantasm, Japan (Chicago: U of Chicago P, 1995).
    - Susan Napier, The Fantastic in Modern Japanese Literature: The Subversion of Modernity (London: Routledge, 1996).
E recomendo também, é claro, as obras de Hearn sobre o Japão, muitas das quais estão agora disponíveis gratuitamente online, como é o caso dos fantásticos contos de Kwaidan: Stories and Studies of Strange Things e de In Ghostly Japan. Alguns dos contos de Kwaidan foram adaptados ao cinema por Masaki Kobayashi, num filme que cedo se tornou num clássico do género - e que está igualmente disponível online no YouTube, em vinte (!) partes. Aqui fica o link para a primeira parte.
 

2. Sobre a imagem: Cem Histórias de Demónios e Espíritos de Kitagawa Utamaro; xilogravura de inícios do séc. XIX.

*Versão ligeiramente editada (05/01).

Luís Aguiar-ConrariaApril 26, 2008 12:24 am

Luís Aguiar-Conraria, Público, Sexta, 25 de Abril de 2008

De acordo com o New York Times, entre doentes em estado terminal, houve mais 50 por cento de mortes na primeira semana de 2000 do que na última semana de 1999. O desejo de ver a madrugada do novo milénio levava os doentes terminais, num último fôlego, a adiarem o último suspiro. Este fenómeno alertou alguns economistas. Pelos vistos, o momento da morte era, parcialmente, uma decisão individual. Daí a questionarem-se se essa decisão respondia a incentivos económicos foi um passo. Na verdade, de certa forma, a questão nem sequer era original. Em 1999, já se tinha estabelecido que a data de nascimento dos bebés era fortemente influenciada por questões fiscais.

Wojciech Kopczuk e Joel Slemrod quiseram saber se alterações aos impostos sobre heranças influenciavam o momento da morte. A ideia é simples. Se num determinado dia vai entrar em vigor uma descida de impostos sobre sucessões, é possível que o futuro finado, num último esforço, sobreviva até essa data para beneficiar os herdeiros. Alternativamente, é também possível que os herdeiros dêem ordens aos médicos para prolongar a vida do doente. Finalmente, se não for possível manipular o dia da morte, há sempre a possibilidade de falsificar a certidão de óbito. Enfim, podemos encontrar mil e uma razões, mas a verdade é que os dois economistas concluíram, usando dados para a economia americana, que os impostos influenciavam o dia do óbito. E não se pense que é uma idiossincrasia americana, Joshua Gans e Andrew Leigh, professores em Melbourne, chegaram a conclusões similares para a Austrália.

Se o leitor não consegue olhar para o dia da morte como uma decisão individual, ou familiar, considere então o caso extremo do suicídio. Daniel Hamermesh e Neal Soss foram, provavelmente, os primeiros a aplicar a teoria económica para analisar o suicídio. Num artigo publicado em 1974, fugiram às explicações sociológicas tradicionais, grandemente baseadas nos trabalhos de Émile Durkheim desenvolvidos no fim do século XIX. Por exemplo, mostraram que há uma relação entre os ciclos económicos e o suicídio e que pessoas com menores rendimentos têm maior propensão para se suicidarem. Outros trabalhos mais recentes vieram confirmar e generalizar estas conclusões.

Como imagina o leitor, conhecendo eu esta literatura, já poucas análises económicas me surpreendem. Por mais esotérico que seja o assunto, espero sempre que algum economista o vá analisar. Apesar de tudo, tenho de confessar o meu imenso espanto quando li um artigo de Dave Marcotte, professor na Universidade de Maryland, sobre o suicídio, ou melhor, sobre as tentativas de suicídio. Na verdade, a maioria dos suicidas não são bem-sucedidos. Ao contrário dos trabalhos que referi no parágrafo anterior, Marcotte, ao aplicar a teoria económica, tem em conta que há uma grande probabilidade de a tentativa de suicídio fracassar. Assim, a típica análise de custo-benefício, que os economistas tanto gostam de fazer, tem de ter em conta o que acontece ao indivíduo a seguir a uma fracassada tentativa de suicídio.

Marcotte conclui que um suicídio, desde que fracassado, pode ser um bom investimento. O autor relata que o felizardo que sobrevive ao seu suicídio tentado vê o seu rendimento subir consideravelmente. Mas atenção: a tentativa de suicídio tem de ser credível. Aqueles que tomam meia dúzia de comprimidos e telefonam a um amigo a dizer que se vão suicidar, não obtêm grandes benefícios. Já os que por pura sorte escapam ilesos, como os que se atiram de uma ponte, vêem o seu rendimento aumentar em cerca de 40 por cento.

Luís Aguiar-ConrariaApril 24, 2008 11:53 am

Lamento informar que estou indisponível para concorrer à presidência do PSD.

Daniela KatoApril 23, 2008 10:20 am

Sempre que caminho por certos lugares de certas cidades, lembro-me deste poema-música de Suzanne Vega. Conheço poucas canções com esta capacidade de evocação do espírito do lugar - dos cheiros, visões, atmosferas - através da palavra e da música, ao mesmo tempo.

Ironbound / Fancy Poultry

In the ironbound section near Avenue L
where the Portuguese women come to see what you sell
the clouds so low the morning so slow
as the wires cut through the sky

The beams and bridges cut the light on the ground
into little triangles and the rails run round
through the rust and the heat
the light and sweet coffee color of her skin

Bound up in wire and fate
watching her walk him up to the gate
in front of the ironbound school yard.

Kids will grow like weeds on a fence
She says they look for the light they try to make sense.
They come up through the cracks
Like grass on the tracks
She touches him goodbye.

Steps off the curb and into the street
the blood and feathers near her feet
into the ironbound market

In the ironbound section near Avenue L
where the Portuguese women come to see what you sell
the clouds so low the morning so slow
as the wires cut through the sky

She stops at the stall
fingers the ring
opens her purse
feels a longing
away from the ironbound border

"Fancy poulty parts sold here.
Breasts and thighs and hearts.
Backs are cheap and wings are nearly free.
Nearly free"

P.S. Peço desculpa pelo kitsch do vídeo YouTube, mas é a única versao gratuita que encontrei online

Fernando AlexandreApril 21, 2008 2:43 pm

Os dados relativos à subida dos preços dos cereais e das matérias-primas são muito preocupantes: no último ano o preço do trigo aumentou cerca de 80%; desde Janeiro o preço do arroz aumentou mais de 100%; o preço do petróleo bate recordes quase todas as semanas, o mesmo acontecendo com os preços dos metais.

A causa da escalada dos preços dos bens alimentares e matérias-primas é o extraordinário aumento da procura resultante da produção de biocombustíveis e, sobretudo, da procura dos países em vias de desenvolvimento. De entre estes destaca-se a China, o maior país do mundo em termos populacionais, representando 1/5 da população total mundial, o segundo maior em termos económicos (se o seu produto for medido em termos de paridade de poder de compra) e o terceiro em termos de área. No entanto, o recente processo de crescimento da economia chinesa, associado à erosão dos solos (a área arável per capita da China é cerca de metade da média mundial) e outros desastres ambientais, há algum tempo que tornaram evidentes as suas dificuldades em ser auto-suficiente em termos alimentares e em matérias-primas. Assim, a China é hoje o maior consumidor mundial de matérias-primas e o segundo maior consumidor de petróleo.

A grande procura de bens alimentares nos mercados mundiais reflecte o aumento do nível de vida da sua população. Calcula-se que o extraordinário crescimento da economia chinesa (e da economia indiana) retire anualmente milhões de pessoas de uma situação de pobreza. Nos últimos 50 anos a percentagem da população chinesa a viver em zonas urbanas aumentou de pouco mais de 10% para quase 50%. Este é um aspecto positivo da actual subida de preços. No entanto, há também aspectos muito negativos, não sendo as pressões inflacionistas que se fazem sentir nos países desenvolvidos as mais graves. De facto, nos últimos dias têm-se sucedido os avisos sobre os efeitos dos aumentos dos preços do bens alimentares nas populações mais pobres do planeta. Parece que pela primeira vez, desde os anos setenta, há situações de fome a ocorrer simultaneamente em vários países. De acordo com uma responsável das Nações Unidas, a situação é já muito grave: para os 2,5 mil milhões de pessoas, mais de 40% da população mundial, que vivem com menos de 2 dólares por dia, a actual subida de preços está já a obrigar as populações a reduzirem as despesas de saúde, a retirarem os filhos da escola, a eliminarem a carne e o peixe da suas dietas, ou mesmo a reduzirem o número de refeições.

A teoria económica diz-nos que a subida dos preços levará a um aumento da produção. Fala-se já no potencial agrícola de países como ao Cazaquistão ou do aumento da área cultivada na Rússia e no Brasil. No entanto, esse aumento da oferta implica investimentos e não poderá ser conseguido no curto prazo. O seu efeito mais directo poderá ser na contenção da especulação que parece explicar uma parte da recente subida dos preços. Mas até se alcançar o novo equilíbrio o mundo vai viver um processo de ajustamento que poderá ser doloroso.

Este processo de ajustamento poderá ter contornos do tipo identificado na obra do economista inglês Thomas Malthus, publicada no final do século XVIII, onde se argumentava que o crescimento da produção de bens alimentares não poderia acompanhar o crescimento exponencial da população. O resultado dessas diferenças na dinâmica do crescimento populacional e da produção de bens alimentares seriam fomes, revoltas sociais e guerras. Jared Diamond, o autor do extraordinário Guns, Germs and Steel, no seu mais recente livro Collapse, How Societies Choose to Fail or Survive, recuperou a teoria de Malthus para explicar os genocídios, em meados dos anos 90, no Ruanda e no Burundi, geralmente atribuídos a conflitos étnicos. O Ruanda e o Burundi são os países mais densamente povoados de África e antes do genocídio de 1994 existiam já situações de violência grave por disputas de terras. Os conflitos étnicos entre Hutus e Tutsis podem ter sido a acha que incendiou aqueles países causando um dos piores genocídios desde a 2ª Grande Guerra.

Notícias dos últimos dias relatam situações de fome e/ou de revoltas sociais provocadas pelo aumento dos preços do bens alimentares em países como os Camarões, no Haiti, na Costa de Marfim e Egipto. Num momento em que os países mais ricos se encontram concentrados nos seus próprios problemas, devido à grave crise dos mercados financeiros, é urgente que dêem também atenção aos apelos que têm sido lançados por várias organizações internacionais para a ajuda alimentar às populações afectadas pela subida dos preços dos bens agrícolas. Essa ajuda pode facilitar a convergência para o novo equilíbrio. Outra questão, com uma solução que me parece menos óbvia, é onde se situará o novo equilíbrio se a China a mantiver a actual trajectória de crescimento. Talvez convenha reler Thomas Malthus.     

Daniela KatoApril 20, 2008 11:01 am

Imperdível entrevista com George Steiner na edição de hoje do The Guardian.

Destaco esta passagem, que me diz muito. Um misto de modéstia e vaidade, que define, a meu ver, o verdadeiro Professor (e há tão poucos por aí!):

Unless you are absolutely first rate [as a writer/poet], which so few of us are, then what I call the letter-carrier function of the teacher is wonderful. To serve great works, to send the letters out hoping they get to a good mailbox, is a marvellous thing. I’m terribly proud, of course, of being in the National Portrait Gallery. I’m even prouder that they’ve named a room for me at the University of London. A lovely portrait there, and I’ve insisted that it be called Il Postino. That beautiful film of the mail carrier for Neruda . . . I am the postino. And what fun it’s been, and what luck. I have students who are now in chairs in five continents. They invite me to their inaugurals. A tremendous reward."

Not that the mail he brings is always consoling. "No culture has a pact with eternity," he says. "The conditions which made possible the giants of the western poetic, aesthetic, philosophic tradition no longer really obtain." Steiner doesn’t believe "there can be a Hamlet without a ghost, a Missa Solemnis without a missa", and if you say that the questions addressed by religion are "nonsense or baby talk or trivial, I don’t believe that certain dimensions will be available to you. Particularly today, when the atheist case is being put, if I may say so, with such vulgarity of mind."

Luís Aguiar-ConrariaApril 16, 2008 12:16 am

David Cass, um dos melhores economistas da sua geração, morreu ontem. David Cass foi aluno de Kenneth Arrow, o melhor economista do século XX.

Cass foi pioneiro quando desenvolveu, rigorosamente, o modelo de crescimento neoclássico, que acabou por ficar conhecido como o modelo de Cass-Koopmans, ou de Ramsey-Cass Koopmans. Com Karl Shell desenvolveu o conceito de Sunspot equilibrium.

David Cass, juntamente com Neil Wallace, Karl Shell, Jean-Michel Grandmont, Thomas Sargent, Robert Lucas, Yves Balasko, Edward Prescott e alguns outros, desbravou os caminhos da Macroeconomia moderna.

Espero, logo que tenha tempo, dedicar-lhe uma entrada.

Luís Aguiar-ConrariaApril 15, 2008 9:37 am

Descobri agora que Pedro Lains, investigador no ICS e historiador/economista, criou um blogue de Economia e História Económica.

Se o blogue tiver a qualidade do trabalho de Lains, será, de certeza, um excelente blogue. Daqueles que são imprescindíveis. Fica o anúncio feito.

Daniela KatoApril 13, 2008 8:14 am

Será que alguém ainda se recorda disto?


Clique na foto para ver o vídeo

Luís Aguiar-ConrariaApril 12, 2008 10:16 am

Depois de mais de sete horas de negociações, o Ministério da Educação e os sindicatos chegaram a acordo. Maria de Lurdes Rodrigues sublinhou a "aproximação" e a plataforma sindical fala em "grande vitória dos professores". Este ano lectivo, a avaliação de desempenho terá apenas em conta quatro parâmetros, aplicados de igual forma em todas as escolas.

De acordo com um documento distribuído no final da reunião, a ficha de auto-avaliação, a assiduidade, o cumprimento do serviço distribuído e a participação em acções de formação contínua, quando obrigatória, serão os únicos critérios a ter em conta.

(…) Ler o resto.

Luís Aguiar-ConrariaApril 11, 2008 10:17 am

No fim dos anos 60, discutia-se na Califórnia uma lei que permitia o divórcio unilateral. De acordo com essa lei, aprovada em 1969, bastava um dos cônjuges querer o divórcio para este ser concedido. Era Ronald Reagan o Governador da Califórnia. Nos anos 70 e 80 outros Estados adoptaram leis similares, permitindo o divórcio a pedido.

O movimento neo-conservador reagiu nos anos 90 e tem vindo a contestar estas leis liberais que facilitam o divórcio e destroem famílias. Lá, como cá, em vez de se discutir a lei, discute-se o divórcio. Quem defende a lei é acusado de defender o divórcio e dos maiores atentados à família.

Além de destruir os lares, que outros efeitos pode ter uma lei que facilita o divórcio? Só não vê quem não quer, não é verdade?

Mas, levantando o véu jurídico, o que observamos? Quais os efeitos desta lei? Betsey Stevenson e Justin Wolfers, professores na Universidade de Pensilvânia, procuraram responder, num artigo publicado em Fevereiro de 2006 no prestigiado Quarterly Journal of Economics.

Conclusões? A violência doméstica desceu um terço nos Estados que liberalizaram o divórcio. O número de esposas assassinadas pelos maridos diminuiu 10%. O número de suicídios femininos também decresceu.

E quais os efeitos sobre as taxas de divórcio? O mesmo Justin Wolfers responde num trabalho publicado na American Economic Review, em Dezembro de 2006. A resposta não podia ser mais desoladora para os que se opõem à lei. A seguir à facilitação do divórcio, as taxas de divórcio tendem a aumentar, mas ao fim de alguns anos tal efeito diminui substancialmente. A longo prazo não é possível determinar qual o efeito, sendo até possível que o número de divórcios diminua em consequência da lei.

Como se explicam estes resultados? Não é muito complicado. Leis que facilitam o divórcio alteram os termos do casamento, dando às mulheres um poder de ameaça que antes não tinham. Permitem-lhes terminar mais facilmente más relações, mas, mais importante, o poder da ameaça de divórcio é suficiente para impedir a degradação do casamento. Mantêm os homens na linha.

Referências

Betsey Stevenson e Justin Wolfers (2006), ‘Bargaining in the Shadow of the Law: Divorce Laws and Family Distress’, Quarterly Journal of Economics, 121(1).
Justin Wolfers (2006), ‘Did Unilateral Divorce Raise Divorce Rates? A Reconciliation and New Results’, American Economic Review, 96(5).

P.S. Retirado daqui.

Daniela KatoApril 10, 2008 7:37 am

Tinha jurado que tão cedo não voltaria ao tema, mas este texto publicado no The Guardian fez-me mudar de ideias. O artigo dá conta de uma interessante iniciativa da Agora, um fórum e think tank que, nas palavras dos seus membros, visa promover o debate sério e profundo sobre o Ensino Superior e o seu papel na sociedade.

A iniciativa mais recente colocou frente a frente duas facções (aparentemente) antagónicas, os anti- e os pró-Humanidades, que se degladiaram em torno das implicações desta afirmação provocatória: «Renaissance Man is dead. Education should be about training in subjects that will boost the economy». Não tive, hélas, acesso ao debate, mas a avaliar pelo habitual aperitivo servido pelo Guardian, com o resumo das posições em confronto, sou levada a pensar que se tratou de mais um diálogo de surdos. De um lado, estão os que defendem o fim do financiamento público para os cursos de Humanidades, com base na baixa empregabilidade e, logo, inutilidade dessas formações. Do outro, estão os que defendem a continuação – se não mesmo o reforço, através da abertura a novos públicos com apetência para a «lifelong learning» – do financiamento estatal, aduzindo aristocraticamente para o efeito argumentos baseados nos excelsos valores e qualidades humanas que uma formação em Humanidades supostamente incute nos que têm a honra de serem expostos ao ambiente de uma Faculdade de Letras: espírito crítico e perspicácia a rodos, refinamento, cosmopolitismo, generosidade, compaixão pelo semelhante, e por aí fora…

Curiosamente, ambas as posições acabam por convergir no reconhecimento da imprestabilidade das Humanidades em termos profissionais. As «Letras» são puro entretenimento: um passatempo para ociosos que vivem de rendimentos e uma espécie de ATL para adolescentes em férias e para donas de casa e reformados com aspirações intelectuais – é, pois, como tal e para tal que devem funcionar e orientar as suas formações. Se este tipo de discurso não surpreende quando provém de mentes mais tecnocráticas, ele já se torna verdadeiramente preocupante quando encontra crescentes defensores junto dos académicos das Humanidades, os quais, a este respeito, são tudo menos ingénuos e altruístas. Por muitos discursos grandiloquentes que produzam sobre a nobreza e imprescindibilidade das suas respectivas disciplinas para o futuro espiritual da humanidade, torna-se demasiado óbvio que a preocupação central é, cada vez mais, não a de repensar de forma séria o papel do ensino e da investigação nas Humanidades, mas sim a de assegurar que tenham alguma coisa para ensinar, para assim justificarem a manutenção dos seus empregos e respectivos departamentos académicos. De facto, como é sabido, as universidades existem acima de tudo para dar emprego aos srs. Professores e respectiva entourage. A formação dos estudantes fica, obviamente, fora da equação.

A pretensão acima descrita é, sem dúvida, compreensível nos tempos de crise que atravessamos (ou em que nos instalámos?). Não deixa, porém, de ser uma pena que o oportunismo (agora disfarçado de auto-vitimização) subjacente a tais atitudes defensivas vá previsivelmente conduzir a um progressivo isolamento, lilliputianização e descrédito das Humanidades, com ou sem financiamento público. Mas terá de ser mesmo assim?… Será que as tão (auto-)elogiadas capacidades dos académicos e estudantes de Letras não poderiam encontrar outras direcções mais imaginativas e produtivas para se repensarem na sua relação com a acção e o mundo lá fora?… Apesar do cinismo reinante em certos meios universitários e do desânimo de amigos e colegas que dizem sentir-se cada vez mais desgastados por estes pseudo-debates infrutíferos, continuo ingenuamente a achar que vale a pena o exercício de pensar em alternativas ao actual cenário e às consequências trágicas que se lhe adivinham.
(cont.)

Fernando AlexandreApril 6, 2008 11:47 am

A dimensão que a actual crise financeira tomou nos últimos meses tem surpreendido muitos economistas e outros analistas. No final do Verão passado, poucas semanas depois da crise no mercado subprime se ter tornado visível nos mercados accionistas, vários economistas vaticinaram que lá para o Natal já ninguém se lembraria da crise financeira. De acordo com aquela visão, esta crise seguiria o caminho de muitas outras. Uma análise da História dos últimos vinte e cinco anos poderia conduzir-nos àquela conclusão.

Desde meados dos anos oitenta, a economia americana e dos países mais industrializados (com a excepção do Japão) caracterizaram-se por uma grande estabilidade macroeconómica e um forte crescimento económico. Este período, designado por alguns autores como a Longa Expansão, coincidiu com a globalização comercial e financeira e caracterizou-se por um aumento da volatilidade nos mercados financeiros, reflexo de vários ciclos de expansão e contracção que resultaram em várias crises financeiras: o crash bolsista em Outubro de 1987, que representou a maior queda do Dow Jones num só dia, a crise asiática em 1997 e 1998 e da dívida Russa em 1998, o crash do Nasdaq em 2000 e 2001, e actualmente a queda dos preços nos mercados imobiliários.

No entanto, até à presente crise, todos aqueles episódios de turbulência nos mercados financeiros foram ultrapassados sem um contágio significativo da actividade económica real. A aparente facilidade com a que economia americana e a economia mundial superaram várias crises nos mercados financeiros contribuíram para a crença na resiliência da economia americana, a expressão usada por Alan Greenspan para designar a capacidade da economia americana em adaptar-se a novas circunstâncias. É assim de alguma forma natural que muitos economistas acreditassem que a actual crise financeira fosse apenas mais uma crise passageira do tipo das anteriores. Carmen Reinhard and Kenneth Rogoff apresentam uma perspectiva diferente considerando um horizonte temporal mais longo (ver artigo publicado no NBER, “This time is different: a panoramic view of eight centuries of financial crises”).

A experiência passada tem mostrado que o impacto das crises financeiras sobre a actividade económica real depende das políticas seguidas pelos governos. Os economistas nas suas análises estão habituados a assumir um mundo ergódico, isto é, um mundo em que a média dos acontecimentos passados pode ser utilizada para calcular a média dos acontecimentos futuros. Dito de outra forma, o passado é utilizado para prever o futuro, porque de acordo com aquela hipótese o futuro pode ser uma projecção do passado. Mas muitas vezes não é. A duração e os contornos inesperados da actual crise, resultantes da inovação e complexidade dos produtos financeiros, têm alimentado os receios de que esta poderá não ser uma crise igual às dos últimos vinte anos, ou mesmo dos últimos oito séculos, e ainda de que a economia americana e mundial poderá não ser tão resiliente como se pensava.   

O consenso entre os economistas que estudam a relação entre os mercados de capitais e a actividade económica (dos quais Ben Bernanke é sem dúvida um dos mais notáveis) é que no seguimento de uma queda abrupta dos preços dos activos a política monetária deve ser fortemente expansionista, garantindo ao sistema financeiro a liquidez de que necessitam para fazer face aos seus compromissos de curto prazo. A Grande Depressão dos anos trinta e a longa estagnação da economia japonesa desde o início dos anos noventa são dois exemplos de políticas inadequadas face a uma crise financeira.

Assim, desde o crash bolsista de Outubro 1987, em que o Dow Jones caiu mais de 20% num só dia, a maior queda de sempre desse índice, que a estratégia da Reserva Federal face a crises financeiras ou ameaças de crises financeiras tem sido adoptar medidas que reforcem a liquidez do mercado. Esta tem sido também a estratégia da Reserva Federal na actual crise: desde Agosto de 2007 já reduziu a sua taxa de referência em 300 pontos base, de 5,25% para 2,25%. Para além das medidas que visaram o aumento de liquidez no mercado de capitais, e o que é um indicador da gravidade da actual crise, Ben Bernanke propôs ainda ao Congresso a adopção de políticas orçamentais expansionistas (o que é tanto mais insólito quanto os Estados Unidos estão há vários anos numa situação de défices elevados) e aos bancos que perdoassem até 25% das dívidas aos clientes em maiores dificuldades, dado que a alternativa poderia ser perder tudo.

A História e a teoria económica sugerem que as medidas tomadas pela Reserva Federal parecem ser as adequadas para evitar uma Depressão da economia americana, visto que a recessão, como foi recentemente anunciado por Ben Bernanke, é já bastante provável. Como o mundo não é ergódico e, por isso, o sucesso passado das medidas tomadas não nos permite prever o seu sucesso futuro, resta-nos acreditar, como Alan Greenspan, na resiliência da economia americana.

Daniela KatoApril 3, 2008 6:41 am

(continuação)
A conversa prolonga-se pelo jantar, numa mistura de japonês e inglês. Dizem-me outros académicos japoneses que os nossos conceitos e formas de nos relacionarmos com a paisagem parecem não coincidir. Ninguém se atreve, contudo, a fazer generalizações. Na semana seguinte, uma viagem de trabalho pelas regiões de Kyoto, Nara e Hyôgo, no contexto de um projecto dedicado ao estudo do espaço na cultura japonesa que o meu departamento coordena, ajuda-me a articular melhor as perplexidades geradas pelo debate. O projecto tem assumido principalmente a forma de «fieldworkshop» (FWS),  uma espécie de workshop/seminário itinerante que tem por objectivo experimentar, discutir e compreender in situ a estrutura do espaço japonês. A abordagem tem decerto longas tradições na Ásia, nas viagens e peregrinações dos poetas e monges budistas, mas ocorre-me também, a propósito, a imagem dos filósofos gregos da escola peripatética, reflectindo e ensinando enquanto caminhavam. (Comentei isto com um companheiro de viagem, que anotou entusiasticamente a ideia num pequeno caderno).

Neste último FWS privilegiou-se a visita a templos xintoístas (grande parte deles hoje periféricos e fora dos habituais circuitos turísticos), pois a sua localização – face aos cursos de água, por exemplo –, história(s) e relações com as comunidades locais são tidas como fundamentais para se compreender o modo como os japoneses se foram relacionando com a paisagem e o lugar ao longo dos tempos. E é no decurso destas caminhadas que me vou apercebendo de diferenças radicais entre as atitudes que observo nos meus companheiros de viagem – académicos e estudantes das mais variadas formações: Filosofia, Antropologia, Estudos Budistas, Arquitectura, Engenharia Fluvial… – e as dos universitários com quem até agora convivi na Europa.

Na altura abstenho-me de fazer comentários comparatistas, mas, em silêncio, com os meus botões, não resisto. Desde logo, o diálogo inter-, ou melhor, trans-disciplinar, fora do ambiente claustrofóbico e egocêntrico das conferências e seminários académicos, constitui novidade para mim. Para além disso, a generalidade da literatura académica sobre a paisagem sempre me pareceu demasiado abstracta, desenraízada, distante da experiência do corpo e dos sentidos. Paisagens de papel, em suma, com um predomínio esmagador da visão em detrimento dos outros sentidos. Em contraste, os meus companheiros não discutem sofisticadas teorias à ocidental: contam e ouvem histórias sobre os deuses (kami-sama) do lugar, desenham, fotografam,  especulam sobre o significado e acerto das alterações no curso de um rio em resposta às sucessivas cheias na região. Fico com a convicção de que os japoneses privilegiam muito mais a intuição do que a lógica nas suas formas de pensar e de que têm uma enorme relutância em deixar o racionalismo levá-los ao ponto de tomarem demasiada consciência da sua separação face às pessoas e às coisas que os rodeiam.

Procuro resistir ao juízo inicial de que estas atitudes são pouco «científicas» e cheias de lacunas metodológicas, face aos pontos de vista que me foram incutidos durante a minha formação escolar e académica. E, aos poucos, procuro também ver as tradições ocidentais com algum distanciamento, no que têm de mais admirável – e detestável.

PS Para os eventuais interessados, postei mais imagens aqui: FWS 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14.

Luís Aguiar-ConrariaApril 2, 2008 10:02 pm

Imagine-se que A tem o valor 0 e que B toma o valor 100. A média (aritmética simples) de A com B dá 50. Agora suponha-se que há uma inspecção que penaliza B se tiver um valor acima da média. Terá de ter o valor 50. Mas nesse caso a média é 25. Assim B não pode exceder 25. Mas nesse caso a média é de 12,5. Pelo que B terá de ser, no máximo, 12,5. Mas, assim sendo, a média é de apenas 6.25, pelo que B não pode exceder 6.25 e a média será de 3,125…

Caro Paulo Portas, continue este exercício. Para seu espanto, verá que não pára enquanto não chegar ao zero (o que não quer dizer que lá chegue…).

PS Caro Paulo Portas, só para o caso de não ter entendido o exercício que lhe proponho, informo-o de que a inflação é uma média. Média ponderada, é certo, mas não vale a pena complicar. Vai ver que se conseguir entender para uma média simples, também consegue entender para uma média ponderada.

Daniela Kato 9:30 am

Há um mês apresentei pela primeira vez uma comunicação numa conferência no Japão, da Japanese Society for Kansei Engineering (JSKE). A JSKE é uma peculiar invenção nipónica (já com ramificações na Europa) que pode traduzir-se por «Engenharia Sensória». Estando mais vocacionada para a concepção e design de produtos, possui também uma vertente filosófica – marginal, é certo – que se tem vindo a tornar crescentemente interdisciplinar em anos recentes. A minha participação foi neste último domínio, com um paper sobre as relações entre a literatura, a paisagem e o design dos museus literários.

Apesar da insistência prévia de alguns colegas, não me atrevi ainda a apresentar a comunicação em japonês. Dez minutos estritamente cronometrados é pouco, muito pouco tempo para se conseguir falar de uma forma pausada e perceptível numa língua complexa que domino no dia-a-dia, mas que ainda me causa dificuldades substanciais a nível académico. Preferi não arriscar e optei pelo inglês. As questões, porém, foram-me colocadas em japonês (e também estritamente cronometradas, claro). Um professor de Arquitectura pergunta-me qual é a modernidade do conceito de paisagem que acabo de apresentar. Estranho a questão e vejo-me forçada a devolvê-la: qual é o conceito de «modernidade» que ele tem em mente? (E isto para já não falar das dificuldades acrescidas que a questão da configuração histórica da modernidade japonesa coloca, com a abertura tardia – e forçada – ao Ocidente na segunda metade do séc. XIX). Entretanto, por limitações de tempo e para preencher o silêncio gerado, vou adiantando que, no que à teoria da paisagem diz respeito, o Romantismo constitui um marco importante na Europa, com consequências profundas e ainda hoje visíveis nos mais variados domínios, desde a Poesia à Arqueologia. E acrescento que a «modernidade» do conceito poderá talvez relacionar-se com o sentido de perda, separação e nostalgia que a paisagem evoca no sujeito – com a ressalva de que se trata aqui de uma perspectiva muito ocidental ou, pelo menos, europeia…

Nota sobre a foto: Templo xintoísta de Iwashimizu Hachimangu, em Iwata, Kyoto.
(cont.)

Luís Aguiar-ConrariaMarch 31, 2008 9:30 pm

A taxa de pobreza em Portugal ronda os 20%. Na União Europeia, o mesmo índice queda-se pelos 16%. Os dados foram apresentados por Carlos Farinha Rodrigues que nos disse mais. Disse-nos que, antes de distribuídos os apoios sociais, a taxa de pobreza portuguesa é similar à europeia (pouco mais de 40 por cento). A conclusão é óbvia, as políticas de redistribuição em Portugal são pouco eficazes.

A definição do salário mínimo representa um dos aspectos fulcrais nas políticas de combate à pobreza e de redistribuição do rendimento. Quando se impõe um salário mínimo, suficientemente alto para que um número relevante de trabalhadores dele beneficiem, os custos salariais das empresas aumentam, os lucros diminuem e os efeitos redistributivos são imediatos.

Infelizmente, a existência de um salário mínimo tem custos. O aumento dos salários torna as empresas menos competitivas nos mercados internacionais e é um estímulo a que se desloquem para o estrangeiro em busca de menores salários. É assim possível que o salário mínimo prejudique quem mais devia beneficiar dele: os trabalhadores desqualificados, indiferenciados e sem poder negocial, que se podem ver atirados para o desemprego.

Há ainda outro problema. Sendo o salário mínimo uma política de combate à pobreza, os encargos a ele associados são totalmente suportados por uma minoria. Imagine-se uma empresa onde trabalham 100 pessoas que recebem o salário mínimo. Um aumento do salário mínimo de apenas 20 euros traduz-se num aumento dos custos de 34 650 euros anuais. Do ponto de vista desta empresa, a situação é equivalente a um aumento de impostos de quase 35 mil euros. Ao se aumentar o salário mínimo penalizam-se empresas e empresários que exercem uma acção social muito importante que é a de empregar trabalhadores pouco qualificados, muitas vezes envelhecidos e sem hipóteses de requalificação profissional. Negar esta evidência é negar a realidade do nosso país.

Economistas de diversas ideologias (desde o liberal Milton Friedman ao social democrata Edmund Phelps) propõem uma alternativa mais eficiente. Que não haja um salário mínimo, mas que os trabalhadores com salários mais baixos vejam os seus rendimentos complementados com um subsídio. Este subsídio pode tomar diversas formas, desde abonos de família a taxas de imposto negativas para os escalões mais baixos de IRS. Do ponto de vista do trabalhador é equivalente à existência de um salário mínimo, mas esta política de redistribuição de rendimento é paga por todos nós e não por cada empresa individualmente. Desta forma, a protecção social não é conseguida à custa da competitividade das empresas e não causa uma maior rigidez no mercado de trabalho. Pelo contrário, uma política deste tipo facilita o emprego dos trabalhadores não qualificados. Reforça a coesão nacional, aumentando as transferências das regiões mais ricas para as mais deprimidas.

O defeito desta proposta é que se corre o risco de se subsidiar empresas especializadas em mão-de-obra barata. Uma solução equilibrada passaria pela existência de um salário mínimo bastante moderado contrabalançado com um subsídio aos salários mais baixos, minimizando-se os efeitos perversos associados a cada uma das soluções.

Com as eleições que se aproximam e os défices orçamentais em queda, cada vez é mais provável que o governo baixe os impostos. Discute-se se a descida dos impostos deve incidir sobre o IVA ou sobre o IRS. Tanto uma hipótese como a outra passam ao lado dos dois milhões de pobres que nos deviam envergonhar. Um subsídio aos salários mais baixos ou, em alternativa, a criação de um escalão de IRS com taxas de imposto negativas seria socialmente mais equitativo e economicamente mais eficaz.

Público, Sexta, 28 de Março de 2008

P.S. Apesar de publicado depois, este artigo foi, obviamente escrito antes do anúncio da descida do IVA. Para manter a sua actualidade onde está "Discute-se se a descida dos impostos (…)" deveria estar "Discute-se se futuras descidas de impostos devem (…)"

Fernando AlexandreMarch 29, 2008 9:46 am

Não considero que a anunciada descida do IVA de 21% para 20% pelo Governo de José Sócrates possa ser vista como uma medida eleitoralista. Pelo contrário, penso mesmo que se esta medida for bem explicada poderá contribuir para reforçar a credibilidade do Governo. Apresento três argumentos nesse sentido.

Os aumentos de 17% para 19%, durante o Governo de Durão Barroso, e de 19% para 21%, no Governo de José Sócrates, foram apresentados como medidas extraordinárias necessárias para que Portugal pudesse cumprir o Pacto de Estabilidade e Crescimento. Dado o sucesso deste Governo na contenção do défice público, que atingiu em 2007 o valor histórico de 2,6% do PIB – histórico sobretudo porque é conseguido num contexto de baixo crescimento económico – baixar a taxa do IVA para 20% é antes de mais uma mensagem muito positiva relativamente aos compromissos que os Governos de Portugal assumiram com os portugueses. Dado que, de acordo com o anunciado, a razão para a anterior subida do IVA (o elevado défice das contas públicas) deixou de existir, o Governo pôde cumprir a promessa feita (se calhar já esquecida pelos portugueses). Assim, nesta medida do Governo destaco antes de mais o seu contributo para restabelecer a confiança entre os nossos Governantes e os cidadãos. Esta medida é tanto mais importante nesta altura quanto o Estado português enfrenta de acordo com muitos analistas (veja-se o documento recentemente publicado pela SEDES) uma das suas mais graves crises de credibilidade. O momento escolhido para anúncio da descida do IVA não podia por isso ter sido mais acertado. Ou seja, não é eleitoralista esta medida.

Num contexto de aumento de custos (subida do preço das matérias-primas e da energia) as margens das empresas terão com a descida do IVA um ligeiro bálsamo. Por esta via pode ser benéfico para os consumidores, dado que pode limitar a subida dos preços e ajudar a conter a subida da inflação. Se assim for, mais uma vez esta medida poderá contribuir para restabelecer ou reforçar a credibilidade do Governo, dado que ajudará a cumprir outra promessa: a de que os funcionários públicos não perderiam poder de compra em 2008. Mas os consumidores/eleitores não vão sentir nada, pelo menos directamente através de uma descida dos preços. Logo esta anunciada descida do IVA não é uma medida eleitoralista.

Finalmente, a descida do IVA e consequentemente das receitas fiscais, num quadro em que o Governo está obrigado aos compromissos do PEC, será mais uma restrição à subida da despesa. Esta descida dos impostos pode assim funcionar como um sinal de que o Governo pretende continuar com as suas reformas e reduzir o peso do Estado na economia, uma condição essencial para restabelecer a competitividade da economia portuguesa. Ou seja, esta medida será mais um travão ao crescimento da despesa e não poderá, também por isso, ser considerada uma medida eleitoralista.

Esclarecimento: nesta análise procuro apenas aplicar alguma teoria económica sobre os possíveis efeitos da descida do IVA. O meu comentário não deve ser entendido como um juízo das intenções do Governo.

Daniela KatoMarch 23, 2008 11:02 am

Na sequência de algumas conversas neste blogue sobre os mitos em torno das relações laborais e dos métodos de gestão nas empresas japonesas e suas consequências pessoais, achei muito ilustrativo o seguinte artigo recente do Japan Times. Devo dizer, porém, que não concordo totalmente com a conclusão algo superficial do autor, que se recusa a encarar muito dos casos do famoso «síndrome da recusa do lar» como consequência última do ambiente de trabalho vigente. Há, como é óbvio, muitos outros factores sociais e psicológicos que concorrem para o fenómeno, mas as relações laborais continuam - e continuarão - a ser um elemento decisivo.

Stories from husbands who don’t go home
MICHAEL HOFFMAN
Shukan Bunshun (March 20)

Writer Kei Matsui got the idea for his book, "Men Who Don’t Go Home," from an old friend he met for drinks one night. Married with two children, the friend spoke of being too exhausted to face the long commute home from work. Instead he routinely slept at a sauna establishment near his office. At least he could get a good rest that way, and be fresh for the next day’s exertions.
Matsui listened sympathetically, but then began to wonder: "He’s not working now. If work forces him to spend so much time away from his family, what’s he doing drinking with me till 2 a.m.?"
So Matsui went looking for "men who don’t go home," and in the course of interviews with nearly 20 of them, found that work, while pressing, was not the main consideration. The fact is, he writes in Shukan Bunshun, these men don’t want to go home.
Akira, 38, is an IT professional. He and his wife got along fine when they lived together as boyfriend and girlfriend, but marriage soured the relationship. Two children came along, but suddenly the grownups had nothing to talk about. They quarreled over trivia. "We’d be watching TV and sniping at each other over which programs are good and which ones are boring — stuff like that," says Akira. "Once my wife burst into tears: ‘Why have we grown so far apart?’ Being home got more and more uncomfortable."
Akira was put in charge of a major project and had to work very long hours. He and his wife reached an agreement — he would rent a small apartment near the office, sleep there on weekdays, and come home weekends. Time passed. As he grew used to his new responsibilities they became less time-consuming. He said nothing about this at home, however, and the "weekend marriage" persisted. It persists to this day, though for economy’s sake he gave up the apartment. He sleeps instead at a sauna or a capsule hotel.
Weekend marriage is the ideal conjugal arrangement, Akira feels. "I go home Friday night, and it’s like getting together with my girlfriend. It’s exciting."
Unfortunately Matsui didn’t interview the wife or the two children, aged 9 and 6. It would be interesting to hear what they think of the setup.
Koichi, 46, is home as little as Akira, but the circumstances are different. "If this continues much longer," he says grimly, "it’ll destroy me."
He works for a design company. He and his wife have two children. When he’s away, his family thinks it’s because he’s busy. They’re half right — he’s busy with a 21-year-old semi-live-in girlfriend.
It started three years ago. "I went with some colleagues to a cabaret club," he tells Matsui. "Miki was working there. She happened to be from my home town. We got to talking. Her ex-boyfriend was stalking her. She asked my advice."
Still a minor at the time and unable to rent an apartment on her own, Miki was sleeping in Net cafes. Koichi signed a rental contract for her. The place she moved into became their love nest.
"She pays her own rent and all her expenses," Koichi says as though defending himself, "though I did buy her a sofa as a moving-in gift."
He admits to feeling deeply guilty, and on any number of occasions has made up his mind to break with Miki. So far it’s been more than he can do.
"Supposing," Matsui asks him, "you had to choose between her and your wife."
"Oh, definitely, my wife," Koichi replies. "This thing with Miki can’t go on forever.
Unquestionably, employers demand much of their employees, often more than the latter can reasonably give. Still, Matsui’s research shows, the men who fill the downtown capsule hotels and one-room apartments "don’t go home" for various reasons — not all of them related to Japan Inc.

Luís Aguiar-ConrariaMarch 18, 2008 3:59 pm

Resta-me dar os parabéns ao Miguel Madeira pelo blogue excepcional que mantém e agradecer ao AAA a chamada de atenção.

Fernando AlexandreMarch 14, 2008 7:58 pm

A grande estratégia do actual Governo, quando chegou ao poder há três anos, era dar uma nova dinâmica à economia portuguesa aplicando-lhe um Choque Tecnológico. Este conceito tem um significado muito preciso na literatura económica. De uma forma simplificada, um choque tecnológico positivo, pode representar aumentos na produção, sem que seja necessário aumentar a quantidade de capital e a quantidade de trabalho. Ou seja, o Governo apresentou-se ao país com o objectivo de aumentar a produtividade da economia.

Essa estratégia pareceu e parece adequada a muitos economistas, porque atacaria o principal problema da economia portuguesa, isto é, a baixa produtividade dos seus factores produtivos. Aumentos da produtividade são o único caminho possível para aumentar o crescimento da economia portuguesa no longo prazo e esta retomar a convergência para os níveis de rendimento dos países mais ricos da Europa.

No fundo, o objectivo assim anunciado não era mais do que uma nova forma de enunciar um velho problema da ciência económica e também da economia portuguesa: como é que podemos tornar-nos tão ricos como os países mais ricos?

Um primeiro comentário a fazer a este objectivo é que o seu cumprimento não pode ser avaliado no final de uma legislatura de quatro anos. Aumentar a produtividade de um país, ou seja, ter trabalhadores, empresas e um Estado mais eficiente, não pode ser conseguido em tão curto período. O Governo não pode ser avaliado pelo cumprimento deste objectivo.

No entanto, podemos discutir o que tem sido feito para conseguir aumentar a produtividade dos portugueses e se as medidas tomadas nos colocam no bom caminho. De entre essas, destacam-se as tentativas de reforma do sector da educação nos seus diferentes níveis. Os esforços neste sentido por parte do Governo são evidentes. Do ensino básico ao secundário, e no ensino universitário foram e estão a ser feitas reformas muito profundas.

No entanto, a manifestação da semana passada não é um bom indicador de que as reformas estejam a ser feitas da melhor maneira – embora pudesse ser. A manifestação foi despoletada pela introdução do sistema de avaliação, mas foi o resultado do acumular de tensões resultantes das mudanças que têm sido introduzidas nas escolas e que têm afectado a vida dos professores (estes têm sido, por exemplo, uma classe muita penalizada em termos de perda de poder de compra). Muitas dessas mudanças introduzidas pelo Governo têm sido positivas, das aulas de substituição ao prolongamento dos horários, mas também o novo modelo de gestão das escolas.

Já o processo de avaliação dos professores me parece que enferma de alguns dos defeitos mais evidentes deste Governo: a incapacidade de descentralizar, de explicar e de definir os prazos de implementação das reformas. Que sentido faz iniciar um processo de avaliação a meio do ano lectivo? Que sentido faz querer avaliar os professores sem primeiro fazer uma cuidada avaliação das escolas? Como é que se podia esperar que fosse aceite um processo de avaliação dos professores quando as avaliações públicas que existem das escolas portuguesas têm sido feitas por jornais? Onde está o papel das autarquias? Estas deviam ser as primeiras a exigir ao Estado que as escolas do seu município apresentassem bons resultados em avaliações nacionais, e deviam querer ter um papel directo na sua gestão.

O que interessa aos pais, e ao país é a qualidade das escolas e não a avaliação de um professor específico. Essa avaliação devia ser um problema de gestão das escolas. O Governo ao não dar mais autonomia às escolas antes de iniciar o processo avaliação dos professores tornou este problema num problema nacional e pode ter posto em causa a reforma de um sector essencial. Com isto pode adiar para um futuro longínquo a chegada do Choque Tecnológico.

Luís Aguiar-ConrariaMarch 13, 2008 12:43 pm

Se o Benfica fosse um bem de consumo imediato, já há muito que não existia. A frustração dos consumidores seria tão grande que nenhuma cadeia de supermercados o quereria nas suas prateleiras. Mais, teria sido acusado várias vezes de publicidade enganosa. Quando muito, estaria naquelas lojas delicatessen ao lado da pasta medicinal Couto ou do desodorizante de lavanda da Ach Brito, como um produto histórico e genuinamente português. — Nuno Pinto

September - David Sylvian